Sob o frio da Motown

Capital do estado do Michigan, nos Estados Unidos, Detroit é marcada pela riqueza e decadência capitalista. Depois da crise de 2008, a cidade se viu quebrada, abandonada. Agora, tenta reerguer-se das cinzas

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Marcus Celestino
de Detroit


 

Detroit (EUA) – O título traça um paralelo um tanto bizarro, mas válido, com trecho de uma letra de uma notória música do cancioneiro popular brasileiro. Da mesma forma que Chico Science outrora afirmou que “ninguém foge do cheiro sujo da lama da Manguetown”, nem sequer uma alma escapa do frio fustigante do inverno detroitiano. Ao chegar à cidade, a sensação térmica era de menos 20 graus e os ossos do escriba pareciam tremer conforme os de um cartunesco personagem. O Detroit Metro Airport é prático e dispõe de boas lojinhas de conveniência e um leque eficiente de transportes. O único senão do aeroporto é a distância do Centro da cidade. De táxi pela Interstate 94, num trânsito lento de uma manhã de quinta-feira, foram quase 40 minutos e o valor da corrida ficou em pouco mais de US$ 50. O serviço de shuttle fica numa faixa de preço similar – cerca de US$ 45.

Seguindo a estrada até o suntuoso Renaissance Center, local de hospedagem erguido pela General Motors, dá para perceber o baque recebido pela Motor City. Há uma infinitude de casarões abandonados e, chegando mais perto da zona mais densa da cidade, podem-se ver também prédios relegados ao abandono causado pelo êxodo pós-crise de 2008. Existem vizinhanças compostas por quarteirões de mansões suntuosas e de moradias depredadas ou incendiadas. Apesar de assustar à primeira vista, assim que você se habitua com a dicotomia fica extasiado com a beleza advinda do caos. Voltando ao Chico Science e adaptando-o, “do caos à neve, da neve ao caos”.

 



RESSURREIÇÃO Para acelerar o processo de reconstrução de Detroit, a prefeitura vem adotando soluções engenhosas. A administração permite que o morador de uma habitação vizinha a uma casa abandonada ou a um terreno vazio possa comprar o espaço por US$ 1 (sim, um dólar). Contudo, há de se ter um projeto preestabelecido e uma solução urbanística pensada e concebida. No inverno, não dá para notar a diferença, mas em tempos primaveris e no verão os belos jardins adjacentes aos casarões dão um charme especial à paisagem.

Além dessa solução deveras interessante, muitos jovens – devido ao baixíssimo valor dos imóveis – se mudam para a cidade, principalmente para a Região de West Village, e arriscam até mesmo empreender na Motown em processo de revitalização. Caso típico é o de David Kirby. Natural da Carolina do Norte, mudou-se para Detroit há alguns anos e abriu o Parker St. Market ao lado de sua esposa, nascida e criada na capital de Michigan. A loja vende produtos exclusivos e baseados na tendência de alimentação natural em voga há tempos em algunas regiões dos Estados Unidos, especialmente na Flórida e na Califórnia, e também em Nova York. “Vimos que a cidade tinha potencial e decidimos investir aqui. Muitos acham que somos loucos por nossa loja não ter tanta segurança, nossa fachada é de vidro, mas confiamos tanto que não nos preocupamos”, comenta o empreendedor. Contudo, os índices de criminalidade ainda são bem altos na Motown e poucas pessoas se arriscam a pé pelas vias, especialmente no inverno.

 



Detroit é a casa das chamadas “Big Three”, consideradas as maiores montadoras automobilísticas norte-americanas e verdadeiros ícones desse negócio. Ford, General Motors e Chrysler nasceram aqui em Michigan e ainda mantêm seus quartéis-generais em Detroit e adjacências. Tudo bem, depois da crise a Chrysler passou a integrar o Grupo Fiat, mas o “DNA hambúrguer com queijo cheddar e bacon” perdura. Dada a força das fabricantes na cidade, anualmente, no mês de janeiro, o maior evento do setor automotivo na Terra ocorre aqui. O North American International Auto Show (Naias) é um banquete romano para os aficionados por possantes de toda sorte. Lançamentos mundiais são sempre as grandes vedetes no grandioso Cobo Hall e poder conferi-los de perto é uma dádiva.

Detroit é também berço da maior gravadora de Soul Music e R&B que este pequenino ponto azul já viu. Quem gosta de música pode respirar muito bem em meio aos ciclos de Otto e Diesel (processos termodinâmicos dos motores de combustão interna, que equipam nove entre 10 carros de passeio). O Museu da Motown conta a história da lendária gravadora de Berry Gordy. Hitsville, U.S.A. – alcunha da primeira sede da companhia – fica na West Grand Boulevard e é visita indispensável para fãs dos Jackson 5, Marvin Gaye, Diana Ross & The Supremes, The Marvelletes e The Miracles. Isso só para citar alguns dos artistas que pertenciam ao estelar cast da Motown no período em que a empresa ainda não havia se estabelecido em Los Angeles, no cálido Sul da Califórnia.

 



OK, ainda não se convenceu de que Detroit é um destino interessante? “Oh, good grief!”, como diria meu amigo Charlie Brown. Além dos carros, da música e da paisagem constrastante, você tem tantas outras opções que nem sequer caberiam nesta página. Obviamente, separamos uma nova lauda para tentar demover de uma vez por todas de sua mente que ir aos Estados Unidos é apenas para visitar Orlando, Miami, Los Angeles, São Francisco ou Nova York. Detroit é muito mais que todas elas. É a alma e o coração do Tio Sam.

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