Conheça o teatro de Silvia Gomez, mineira radicada em São Paulo

Peças da dramaturga revelam as angústias do mundo contemporâneo. 'Marte, você está aí?', em cartaz no Masp, fala de intolerância e dos impasses da radicalização política

por Mariana Peixoto 16/07/2017 10:50

Roberto Ikeda/Divulgação
Dramaturga Silvia Gomez (foto: Roberto Ikeda/Divulgação)
O teatro de Silvia Gomez é o agora. E no hoje, como todos sabemos, há muito desconforto.

 

“Tenho que falar para as pessoas do meu tempo, do meu entorno, da angústia de existir agora. Minhas peças nascem de alguma coisa que está me incomodando”, comenta a dramaturga mineira, de 39 anos. Três de seus textos encenados vão ao encontro disso.


Na estreia profissional, O céu cinco minutos antes da tempestade (2008), uma das questões tratadas foi a medicalização. “Hoje em dia, se você suspira mais profundamente, já te dão um remédio”, ela afirma.

 


Mantenha fora do alcance do bebê (2015), prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) de melhor texto, discute a normatização. “Como a gente precisa responder a este mundo de consumo feroz? O que é ser adequado no mundo de hoje?”, ela se questiona.

Com Marte, você está aí?, em cartaz até 6 de agosto no Auditório Masp, em São Paulo, o Brasil em combustão é cenário do embate entre a mãe, militante de esquerda torturada durante a ditadura militar, e sua filha.

Leekyung Kim/Divulgação
Cena de 'Marte, você está aí", em cartaz em SP (foto: Leekyung Kim/Divulgação)
“A peça foi contaminada por essas ruas em chamas que a gente está vendo. Além das duas mulheres, há a figura de um intruso que representa as incertezas de hoje. O texto mostra as contradições humanas. A ideia de Marte aparece como uma Pasárgada horrível. Já que não conseguimos nos entender nem para um lado nem para o outro, estamos em falência (na Terra), então vamos tentar colonizar Marte, um paraíso do avesso”, diz Silvia.

Seus textos não trazem certezas, mas muitas perguntas. Cabe ao espectador fazer sua própria reflexão.

 

Dramaturga e jornalista, Silvia Gomez, mineira de Belo Horizonte, está radicada em São Paulo desde o início dos anos 2000. Foi em BH que ela deu os primeiros passos no teatro. A inspiração foi a tia e madrinha, a diretora e atriz Yara de Novaes.

GALPÃO Criança tímida, Silvia acompanhava Yara em suas incursões teatrais junto a Amauri Reis e Wilson Oliveira. O Galpão também se fez muito forte para ela, que chegou a cursar teatro em BH. “Teatro é legal, porque abarca muitas coisas. Você não precisa necessariamente ser ator, caso não tenha vocação. Eu sempre quis escrever.”

 

Durante a graduação em comunicação social na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Silvia fez a primeira incursão na dramaturgia. A pedido de uma amiga, a atriz Michelle Gonçalves, escreveu A cada dia a vida fica mais curta, que integrou o Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto (a cena foi dirigida por Yara).

Porém, o jornalismo a levou a São Paulo. Chegando lá, foi logo procurar uma turma. Encontrou-a no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), comandado por Antunes Filho. “Há encontros que mudam a vida da gente. Para mim, um deles foi com o Antunes, que é referência de formação. O CPT é um lugar um pouco de utopia. Lá dentro, você tem a sensação de poder fazer as coisas de maneira mais experimental”, diz Silvia.

Em 2003, ela entrou para o CPT, onde, até 2011, integrou o chamado círculo de dramaturgia. “Você lê, produz e discute as peças uns dos outros. Isso é o mais difícil, pois tem que aprender a olhar o texto do outro”, explica. O vínculo se mantém – no primeiro semestre, deu aulas de dramaturgia para os jovens alunos da instituição.

GABINETE
Mesmo tendo a sua turma, Silvia costuma trabalhar sozinha. “Parece xingamento, mas sou uma autora de gabinete. É como funciona pra mim. Tenho um prazer muito grande em sentar e escrever sozinha”, conta.

 


Os textos nascem dos incômodos e vão se desenvolvendo aos poucos. “Preciso ficar mergulhada em uma peça, não posso abandoná-la. Depois ela começa a caminhar”, revela. Marte, você está aí? foi escrita no ano passado. A experiência tem sido forte para Silvia, que, pela primeira vez, tem um texto dirigido pelo marido, Gabriel Fontes Paiva, também de BH. O elenco reúne Selma Egrei, que está completando 47 anos de carreira, Michelle Ferreira e Jorge Emil, outro mineiro radicado em São Paulo. Este é o terceiro texto de Silvia que ele interpreta.

Montar uma peça não é nada fácil, comenta a dramaturga. “Você tem que conseguir pauta em um teatro e também produzir. Não dá para ficar esperando alguém que vá descobrir o seu texto e montá-lo. Precisa haver um esforço pessoal”, observa.

Silvia Gomez lamenta que seus textos não foram encenados em Belo Horizonte. Além da cena curta, só veio à capital O amor e outros estranhos rumores (2010), montagem do Grupo 3 de Teatro (de Yara, Gabriel e Débora Falabella). Nesse texto, Silvia adaptou três contos de Murilo Rubião (1916-1991). “Fiquei surpresa ao perceber como o Murilo é pouco conhecido em São Paulo, pois acho a obra dele incrível”, diz ela.

Nessa primeira adaptação, ela descobriu que pode haver uma autoria mesmo em se trabalhando textos de terceiros. “Como dramaturga e vendo tantos textos inéditos para serem montados, acho que deve se olhar para isso. Agora, quando fiz o trabalho com o Rubião, entendi que existe um trabalho de criação ali também. Boas adaptações são como boas traduções, você acaba criando. Porém, tenho mais prazer em escrever os meus textos”, admite.

Algum dia, quem sabe, Silvia poderá também dirigi-los. “Ainda não me sinto autorizada. O teatro tem a mão de muita gente: o diretor, o ator, o autor da trilha, do cenário... Cada um vai colocando a sua camada, provando que aquilo nunca poderia ser feito solitariamente. Agora, a direção é um lugar que respeito muito. Talvez um dia, se conseguir me preparar.”


Por ora, ela continua no gabinete, colocando seus incômodos no papel. Mesmo “exaurida” com a temporada de Marte, você está aí?, Silvia já deu início a dois novos textos. “Vamos ver qual deles vai caminhar com mais força”, comenta.

Um dos temas que a tem instigado é o jornalismo atual. “Estamos no meio de um furacão e ainda nem conseguimos avaliar o que está acontecendo nesta segunda revolução da mídia”, diz Silvia, referindo-se às redes sociais. “Hoje, muitas certezas têm sido colocadas de forma absoluta.” É algo que incomoda – e muito.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE TEATRO