Andréa Beltrão traz a BH 'Antígona', solo dirigido por Amir Haddad

Diretor procurou se afastar do vocabulário do teatro, 'um lugar onde você vai ver gente interessante fazendo coisas ruins'

por Silvana Arantes 30/06/2017 08:00

Guga Melgar/Divulgação
'Quem conta a história sou eu, mas é uma conversa de todos que estão ali', diz Andréa Beltrão. (foto: Guga Melgar/Divulgação)

Amir Haddad é um diretor que ama atores. ''Meu olhar principal do teatro é para esse ofício. Sei como a vaidade às vezes nos toma pelo pé, mas sei da grandeza desse ser humano que vai buscar as moradas superiores da sua alma. Você não pode fazer bom teatro com maus sentimentos'', afirma. Movido por esse amor, Haddad adotou uma praxe: ''Quando vejo o ator lutando por seu ofício, eu vou correndo (ajudá-lo)''.


Não foi outra a razão que o fez aceitar dirigir Andréa Beltrão no solo Antígona, a ser apresentado neste sábado, 1º, e domingo, 02, em BH, no Cine Theatro Brasil Vallourec. ''Andréa me ligou e disse que estava numa zona de conforto. 'Eu quero sair e acho que você pode me ajudar', ela disse.'' Diretor e atriz trabalharam durante um ano na montagem que se baseia no texto de Sófocles – na tradução de Millôr Fernandes – e inclui, além de Antígona, os dois outros volumes da Trilogia Tebana (Édipo Rei e Édipo em Colono) e As bacantes, de Eurípedes.

''São quatro tragédias. É um prato saboroso. É uma peixada daquelas, uma caldeirada poderosa, aquecedora, estimulante. Esses amores, essa loucura dos deuses interferindo na vida dos humanos, é tudo muito atraente. O imaginário grego é muito rico'', diz Haddad.

Se há apenas uma atriz em cena desempenhando a história de quatro tragédias repletas de personagens é porque essa montagem de Antígona ''não é teatro, é pós-teatro'', segundo o diretor. O pós-teatro, na definição de Haddad, ''não é a relação que o ator do palco italiano tem com a plateia. É contato direto, ator com opinião, ator que tem discurso e sabe o que está fazendo''. Em contraposição, prossegue o diretor, ''o ator do teatro não tem opinião. Ele quer um bom papel. O teatro é um lugar onde você vai ver gente interessante fazendo coisas ruins. Eles (os atores) não são solicitados na opinião. Os repertórios que são obrigados a fazer geralmente são muito ruins''.

O caminho de um (o teatro) a outro (o pós-teatro) é acidentado. ''Ele estertora, agoniza, não consegue sobreviver, é difícil, improvável, não tem significado, perde conteúdo, tentando sair desse lugar e ir a outro para continuar e sobreviver'', afirma Haddad. Nesse processo, a busca é por ''despoluir os canais de comunicação'', já que ''você não pode levar pedaços de cadáver para um corpo novo''.

O resultado, se alcançado, é uma ''comunicação nítida, direta, horizontal, com a inteligência da plateia''. Experiência que o diretor já viveu com outra atriz, Clarice Niskier, na muitíssimo bem-sucedida adaptação do livro de Nilton Bonder, A alma imoral, para o teatro – perdão, para o pós-teatro. Num e noutro, as atrizes reconhecem a presença dos espectadores desde sua entrada na sala e se dirigem diretamente à plateia, numa conversa em torno do texto-base. No caso de Antígona, Haddad afirma que ''eles (os espectadores) adoram, porque são respeitados. A Andréa precisa descer do palco e abraçar as pessoas, igual jogo de futebol''.

ATUALIDADE

À parte o modo de encenar as tragédias, Haddad reconhece que colabora para a captura da atenção do público o fato de serem ''muito grandes os pontos de identificação'' com a realidade atual. ''A atualidade é enorme. As razões do Estado, as razões do indivíduo, a questão humana, o lado humano da convivência e as necessidades desumanas da política'', cita.


Embora Antígona seja uma personagem-símbolo da ética, o diretor afirma que a encenação não ressalta esse aspecto. ''A gente não puxa um ponto. Somos substantivos; o adjetivo quem põe é a plateia. Não passo lápis vermelho embaixo da fala.'' De sua parte, ele conta arrepiar-se em todas as sessões no momento em que Andréa Beltrão diz a frase do despótico rei Creonte ''não se pergunta ao solo se ele deseja a lâmina do arado''. Por quê? ''Vivendo o que estamos vivendo no Brasil hoje, em que um arado está sendo jogado de maneira violenta, desumana, assustadora sobre nossas cabeças, tudo isso está muito perto.''

 

No domingo, Haddad completará 80 anos, por coincidência, em seu estado de origem – o diretor radicado no Rio de Janeiro é nascido em Guaxupé. Nessa altura da vida, diz ele, ''presente, passado e futuro é tudo igual''. No balanço de seu tempo, ele afirma não se arrepender de nada. ''Cumpri cada coisa que estava em meu DNA. Cada vez que me lembro, eu me lembro de eu sendo coerente e fiel a mim mesmo. Em nenhum momento traí o menininho que declamava poesia na escola primária.''

Da poesia exata Haddad não se lembra, mas ''devia ser Olavo Bilac''. Do que ele, sim, se lembra é do coração batendo forte. ''Eu abria os braços e falava bem alto.'' Era o pré-teatro de Amir Haddad, já baseado na receita do ''peito aberto e afeto escancarado'' que até hoje ele pede aos atores. E que Andréa Beltrão pretende trazer a BH neste final de semana. 

SAIBA MAIS
Antígona

Antígona é filha de Édipo e Jocasta. Seus irmãos são Ismênia, Polinice e Etéocles. Após a tragédia pessoal de Édipo, Creonte, tio de Antígona, assume o trono de Tebas. Numa disputa pelo poder, Polinice e Etéocles guerreiam e ambos morrem. Creonte considera Polinice um traidor e determina que seu cadáver permaneça insepulto, um ultraje inimaginável no mundo grego. Antígona desafia a ordem do rei, que estabeleceu a pena de morte para quem a descumprisse, e decide enterrar o corpo do irmão. “Sófocles coloca em cena uma mulher sem partidários, sem exército, sem nada. Antígona abala a tirania sozinha. E isso numa sociedade em que a vida pública era de exclusiva competência masculina”, assinala Donaldo Schüler, na apresentação da edição brasileira traduzida do grego por ele e editada pela L&PM. “Antígona morre? Morre! Morre como poucos. Morre para dignificar todos os que em todas as épocas atacam a injustiça”, escreve Schüler.

QUATRO perguntas para...

ANDRÉA BELTRÃO,
atriz

1 - O diretor Amir Haddad disse que você propôs a ele ajudá-la na saída da zona de conforto. O que encontrou de bom na zona de desconforto?
O desconhecido, a dificuldade, a boa ignorância, não saber as respostas.

2 - Se Antígona se configura como um exemplo de ''pós-teatro feito por atores que têm opinião e discurso'', defina, por favor, o eixo do discurso que você faz ao encenar esse espetáculo.
O discurso da escuta do outro, do afeto, do amor, da liberdade, da compreensão. Mas esse é o discurso de Sófocles, brilhantemente traduzido por Millôr. Criado e reinventado por Amir. Eu sou só um pedaço disso tudo.

3 - Nas temporadas realizadas até aqui, algo do diálogo com seu interlocutor (a plateia) foi surpreendente – no bom ou no mau sentido?
Sempre no bom, no melhor sentido. Quem conta a história sou eu, mas é uma conversa de todos que estão ali. Eu tento dar tudo que tenho, tento não ter medo. Quando algo não repercute para a plateia, eu é que devo procurar chegar mais perto dela.

4 - Em relação aos atores, Amir disse: ''Sei como a vaidade às vezes nos toma pelo pé, mas sei da grandeza desse ser humano que vai buscar as moradas superiores da sua alma''. Gostaria de saber como você reage a essa frase.
Uma frase linda, como tantas que o Amir diz, um mestre. Mas não sei o endereço das moradas superiores. Nem sei como é a minha alma. E prefiro continuar sabendo pouco, para aprender bastante.

 

Antígona
De: Sófocles. Direção: Amir Haddad. Com Andréa Beltrão. Sábado (1/7), às 21h, e domingo (2/7), às 17h. No Cine Theatro Brasil Vallourec. Av. Amazonas, 315, Centro, (31)3201-5211.
Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada).

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