Peça teatral estreia no CCBB e faz reflexão sobre atual cenário político

Um casal desaparecido e sob investigação, três assassinatos e dois policiais compõem a trama de Jardins, que lança mão da metalinguagem e de comentários dos atores sobre a peça

por Silvana Arantes 29/06/2017 08:00

André Veloso/divulgação
Os atores Kelly Crifer e Camilo Lélis interpretam uma dupla de policiais, um casal desaparecido e três vítimas de assassinato em Jardins (foto: André Veloso/divulgação)

O PMDB é pior que Pinochet!” Rogério Araújo nada sabia sobre siglas partidárias, política brasileira ou ditadores sul-americanos quando ouviu essa frase ser dita e repetida, à maneira de grito de combate, em passeatas pelo Centro de Belo Horizonte. Na primeira metade dos anos 1980, ele era apenas um menino que acompanhava a mãe – professora de geografia – em manifestações contra o que se antevia como o sucateamento da rede estadual de ensino. Embora não entendesse o sentido do grito, o menino intuía que algo importante estava em jogo.



Hoje, aos 38 anos, pai de João, de 9, o diretor teatral Rogério Araújo se viu às voltas com a necessidade de explicar ao filho por que a candidata vitoriosa nas eleições de 2014 não mais preside o país – e tudo o que decorreu (e ainda decorre) do impeachment de Dilma Rousseff. “Não foi fácil”, diz ele, decifrar para uma criança um cenário político e social em que, outra vez, há muita coisa em jogo.

Nessas circunstâncias, o convite dos atores Camilo Lélis e Kelly Crifer para que Araújo os dirigisse em Jardins, um espetáculo “atravessado pelo contexto atual”, que estreia hoje no CCBB, em BH, pareceu a ele perfeitamente oportuno. Para Kelly e Camilo, realizar a montagem era mais que uma questão de oportunidade. “Como artistas, a gente sentia essa responsabilidade (de refletir sobre o próprio tempo)”, diz Kelly. “É quase um dever.” Camilo enxerga a empreitada como um gesto na direção de “reafirmar o lugar do teatro político”.

Jardins se vale de uma trama policial e um processo de investigação para propor ao público diversas perguntas. “A peça é engajada, só que a gente não tem as respostas”, afirma a atriz. Numa história fragmentada e com “lacunas propositais”, como assinala o diretor, tem-se em cena dois atores e nove personagens. Há um casal desaparecido, três vítimas de assassinato, a dupla de policiais que investiga o desaparecimento e os próprios atores como personagens de si mesmos, posicionando-se em relação à montagem.

VOZES
O coral de vozes se superpõe de forma que, muitas vezes, não há uma definição clara sobre quem está falando – o suspeito, a vítima ou o ator/a atriz. “Achamos que isso permite uma pluralidade de interpretações. Dependendo de quem o público julgar que pertence aquela voz, o sentido da história muda completamente”, afirma Araújo. O texto é assinado por Camilo Lélis, mas sua feitura contou com a colaboração tanto de Kelly quanto de Rogério, assim como de amigos que participaram de discussões prévias sobre os temas abordados num grupo criado para esse fim.

Em cena aberta, os personagens “vão se metamorfoseando uns nos outros”, descreve Camilo, numa desconstrução intencional. Para o ator e dramaturgo, “a metalinguagem, ou seja, o teatro falando do teatro, é o principal recurso empregado no modo de contar essa história”.

Apesar de a narrativa incorporar uma multiplicidade de interpretações possíveis e os atores procurarem dar densidade a cada personagem de forma que eles se tornem tão complexos (e até contraditórios) como se costuma ser na vida real, há desfechos claros na história. “Não é uma novela. As coisas vão se destruindo, se acabando”, afirma o diretor. Nos jardins (o literal e o metafórico) da trama, a personagem da lagarta morre antes de se converter em borboleta. “A potência do belo não se realiza”, observa Rogério.

Mas se há um quê de pessimismo nos Jardins que o público poderá ver até 17 de julho, por trás da montagem o motor em operação plena é o da esperança. “São 20 profissionais envolvidos nessa peça”, diz Camilo. Além do trio já citado, aderiram ao projeto artistas como Marco Paulo Rolla (cenário e figurinos), Barulhista (trilha sonora), Marina Artuzzi (iluminação), Leonardo Cata Preta (identidade visual). “Ninguém recebeu. Todo  mundo investiu. Saqueamos nossas poupanças. Estamos apostando que vai dar certo”, diz o ator e dramaturgo.

Jardins
De: Camilo Lélis. Direção: Rogério Araújo. Com Kelly Crifer e Camilo Lélis. No CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9503). De quinta a segunda, às 19h. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia). Até 17/7.

As coisas chegaram a um ponto que não tinha mais como ignorar a realidade. Não sabemos mais em quem confiar e estamos cercados de insegurança. É insegurança financeira, previdenciária, trabalhista, de perspectivas para a cultura”

>> ROGÉRIO ARAÚJO,
diretor

“A insatisfação com a realidade estava na gente. Chegamos a cogitar montar alguns textos prontos. Mas acabamos decidindo desenvolver esse espetáculo quando retomamos uma ideia de trama policial que havíamos experimentado em Falsa ocorrência, no Teatro Invertido”

>> CAMILO LÉLIS,
ator e dramaturgo


“O desafio é fazer com que todas as vozes tenham força e profundidade, que não seja só mais uma historinha. Acho que isso tem muito a ver com nosso momento, em que todo mundo tem opinião sobre tudo, mas de modo superficial”

>>  KELLY CRIFER,
atriz

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