Espetáculo 'Menos de nós" estreia nesta quarta-feira, no Palácio das Artes

No palco estão três histórias centradas em Medeias contemporâneas. Em foco, sempre a relação entre mães e filhos

por Cecília Emiliana 28/06/2017 08:30
Paulo Lacerda/divulgação
(foto: Paulo Lacerda/divulgação)

Em nome do poder, da honra e da vingança – ou de motivações bem mais mesquinhas –, muitas atrocidades foram cometidas na história, inspirando a ficção. Que o diga o grego Homero, autor do clássico Ilíada. O poema épico narra a guerra travada entre gregos e troianos por volta de 1193 a.C. O conflito foi deflagrado por motivo nada nobre: ciúmes. Tudo porque o príncipe troiano Páris se apaixonou por Helena, esposa de Menelau, rei de Esparta. Ardiloso guerreiro que ganhou a guerra para o “desonrado” imperador, Ulisses ganhou o título de herói pelo feito brutal e sangrento.



O mesmo não ocorreu com Medeia, a amaldiçoada protagonista da tragédia grega homônima de Eurípides.  Abandonada pelo marido Jasão, apaixonado por outra mulher, ela se vinga matando os filhos do casal, além da rival e toda a família dela. É considerada “terrível”, talvez porque seu maior crime tenha sido nascer mulher.

Esse é o ponto de partida de Menos de nós, montagem de conclusão de curso dos alunos de teatro do Centro de Formação Artística (Cefart) da Fundação Clóvis Salgado. Com estreia marcada para esta noite, no Teatro João Ceschiatti, o espetáculo se inspira na icônica personagem da mitologia grega para falar sobre machismo, identidade de gênero, transfobia e homofobia.

LOUCURA No palco estão três histórias centradas em Medeias contemporâneas. Em foco, sempre a relação entre mães e filhos. “Há muitas Medeias por aí. Elas são julgadas o tempo todo pela sociedade patriarcal. São mulheres pobres, ricas, trans, negras, brancas... Enfim, são mulheres enlouquecidas por uma sociedade machista que cria regras que funcionam para beneficiar a categoria dominante, é claro”, explica a atriz Ana Gabi Novais.

O texto é uma criação coletiva, sob direção de Adélia Mendonça. O projeto se desenvolveu a partir do desejo dos alunos de abordar temas correlatos às relações de poder e seus desdobramentos sobre as minorias. “A turma sempre teve um lugar político. Queríamos falar de machismo, transfobia e identidade de gênero. Então, a gente iniciou o processo de pesquisa com leituras, conversas e entendimentos de Medeia – na verdade, as várias que existem do clássico de Eurípides às inúmeras adaptações, como Além do Rio, Gota d’água e Desmedeia, entre outras. Fomos construíndo o texto nesse processo”, conta Ana Gabi.

O título da peça remete à opressão. “Aos poucos, ela vai roubando a nossa essência. Também pode significar ‘menos de nós’ no sentido de que esta opressão nos mata, deixa menos pessoas vivas. Outra possibilidade de interpretação é que a peça tenta desembolar muitos nós que embaraçam as questões delicadas sobre as quais falamos”, afirma Adélia Mendonça.

 

MENOS DE NÓS
Estreia hoje, às 20h. Em cartaz até 16 de julho. Teatro João Ceschiatti do Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. Sessões de quarta a segunda-feira, às 20h; domingo, às 19h. Entrada franca.

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