Grupo Espanca! estreia espetáculo encenado nas ruas de Belo Horizonte

Atores realizam cortejo pelo hipercentro da capital mineira e incorporam à cena a reação dos espectadores e de cidadãos que circulam pelo trajeto

por Márcia Maria Cruz 12/06/2017 08:30

Edésio Ferreira/EM/D.A PRESS
Público acompanha os atores do Espanca! circulando pela região central de Belo Horizonte, inclusive na estação do metrô. (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A PRESS)

Da mureta da rua Sapucaí se avista a Praça da Estação em meio aos arranha-céus. Mas qual será o melhor ângulo para ver Belo Horizonte em sua complexidade e com suas contradições? Em sua primeira montagem de rua, o Grupo Espanca! procura revelar a cidade a partir de um cortejo pela região do Baixo Centro.     

 

Com direção de Aline Vila Real e dramaturgia de Allan da Rosa, o espetáculo PassAarão estreou na última quinta, 08, e tem mais seis apresentações agendadas a partir desta segunda-feira, 12, até o dia 20. A instalação da sede do Grupo Espanca! na rua Aarão Reis, em 2009, a efervescência cultural sob o Viaduto Santa Tereza, com o Duelo de Mcs, e a transformação da rua Sapucaí num dos principais corredores culturais e gastronômicos da cidade formam o pano de fundo da decisão do grupo de ter a área como tema e palco de seu espetáculo. ''Nossa vinda para a Aarão Reis influencia nossa forma de ver a cidade, de sentir a cidade. A peça tem esse atravessamento'', afirma Aline, que assina pela primeira vez a direção.


O percurso começa na Rua Sapucaí, com a apresentação de Aarão Reis, o engenheiro que projetou a capital mineira e comandou a comissão construtiva. Passa pelo túnel que liga a rua à Praça da Estação, circula pela estação do BRT/Move e se encaminha para o seu final em frente à sede do grupo. Para além de um espaço cultural, o grupo se inseriu no tecido urbano, estreitando sua relação com a comunidade do entorno.


O espetáculo intercala textos que fazem referência aos equipamentos urbanos e à história da cidade, assim como relatos poéticos de personagens anônimos, muitos deles violentados ou com suas trajetórias inviabilizadas em decorrência de preconceitos. A dramaturgia brinca com a ideia dos palácios erguidos na capital em detrimento dos pobres. Um exemplo é a construção do Palácio das Artes, na região Centro-Sul, erguido com  pedras extraídas do Morro das Pedras, onde se instalou uma comunidade na região Noroeste.

 

Ao longo do percurso, os nove atores chamam a atenção para personagens da cidade e de outros lugares que, de formas inusitadas, tiveram sua presença impressa no trajeto – do já citado Aarão Reis, que dá nome à via, ao morador de rua Drudin, que vivia na redondeza. Citam ainda Elza Soares, Sérgio Pererê e Maurício Tizumba, cujas fotos se tornaram lambe-lambe no túnel. Destacam ainda homens e mulheres anônimos que fizeram da rua um lar ou que nela sofreram com a violação de seus corpos, seja pela agressão e estupro ou a invisibilidade social.

PASSAGEM

O nome do espetáculo – PassAarão - guarda múltiplos sentidos. Um dos mais interessantes é desconstruir a própria ideia de passagem. Por ser encenado durante o horário comercial – começa às 16h, quando muitos trabalhadores fazem o caminho de volta para casa, a encenação respeita o ritmo da cidade, integrando-se às rotinas urbanas. Outro dos sentidos do título é uma referência à reafirmação de que machistas, racistas e outros não passarão. Por fim, configura-se também como um trocadilho com o nome do fundador da cidade Aarão Reis. No trajeto, que leva cerca de duas horas, os atores convocam espectadores a aguçar o olhar para as inscrições na cidade, os recados deixados nas paredes ou a arquitetura desumanizada.

 

É impossível participar do cortejo e não sentir a pulsação da cidade, como no vai e vem do metrô, marcado pelo frenesi de centenas de pessoas que por lá transitam. PassAarão desafia o espectador a olhar para a estação não apenas como lugar de embarque e desembarque, mas como um palco onde as pessoas encenam o cotidiano. Algumas performam de maneira trágica, vitimadas pelo preconceito como o espetáculo aponta. Os atores denunciam a violência que atinge à comunidade LGBTQI. Exemplos são travestis agredidas no espaço público ou a mãe negra que dá, literalmente, o sangue para se manter viva.


Os atores são personagens de si mesmos, o que esmaece os limites entre realidade e encenação. O texto é dito de tal forma que muitos dos que passam, enquanto o cortejo se desloca, sentem-se impelidos a responder ou falar algo sobre si. O estranhamento ocorre tanto entre os passantes quanto entre os espectadores.


De um lado, é estranho para quem espera o metrô ou quem aguarda o BRT/Move ver dezenas de pessoas seguindo os atores, como que em uma visita guiada num museu. Diante dessa cena, quem passa por ali de maneira quase automática desperta de certo transe que os fluxos urbanos impõem. Aliás, um ponto alto do espetáculo é quando se formam duas filas indianas muito bem coordenadas dentro do túnel. A organização permite não atrapalhar a chegada das pessoas à estação, mas também faz com que cada um ali se torne parte observável do espetáculo.


Por outro lado, quem vai assistir ao espetáculo também precisa lidar com o estranhamento de locais relegados e de pessoas apagadas socialmente. Quem assiste a PassAarão também assiste ao operário que desce às pressas as escadas para não perder o metrô e à mulher, que, depois de um dia de trabalho, espera em pé o ônibus que a levará para a periferia além da Avenida do Contorno.

 

PassAarão
Com o Grupo Espanca! Segunda, 12, terça, 13 e nos dias 14, 16, 19 e 20 de junho. Início do cortejo às 16h, na Rua Sapucaí, 429. Entrada franca.

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