As trajetórias de uma mulher assassinada e de outra que sobreviveu a duas guerras são tema de espetáculos que estreiam em BH

'Laura' será encenada no Espanca!, enquanto que 'Hilda e Freud', no Teatro Bradesco

por Márcia Maria Cruz 09/05/2017 20:03
As histórias de duas mulheres que passaram por situações traumáticas serão apresentadas em dois espetáculos que chegam a Belo Horizonte nesta sexta-feira. Solo de Fabrício Moser, Laura recupera a biografia da avó do ator, assassinada por um desafeto amoroso, num ato de machismo, em 1982, na cidade de Cruz Alta, no interior do Rio Grande do Sul. Estrelada por Bel Kutner, a montagem Hilda e Freud retoma os escritos de Hilda Doolittle (1886-1961), que foi paciente do pai da psicanálise na década de 1930.

FLAVIO COLKER/DIVULGAÇÃO
O ator Antonio Quinet, que também assina texto e direção da peça, e a atriz Bel Kutner em cena (foto: FLAVIO COLKER/DIVULGAÇÃO)

“A psicanálise salvou a vida dessa mulher, que passou por duas guerras mundiais e acompanhou todo o crescimento do nazismo”, afirma Bel. A atriz se encantou pelos escritos da poeta, que registrou suas sessões no divã com Freud em textos literários.

Seu contato com o universo de Freud vem de tanto tempo que Bel já perdeu a conta dos anos. Ela se lembra de que, desde a infância, faz terapia, o que lhe despertou admiração pela obra do médico, que era judeu. “Freud foi um dos gênios que mudaram a história do Ocidente. Paciente de importância enorme, Hilda escreveu detalhadamente a sua experiência com o psicanalista e nos conta de maneira poética”, observa. No final da vida, Hilda também se dedicou ao atendimento no divã. “Ela teve uma vida muito feliz como escritora, mas cercada de tragédias no campo pessoal.”

A narrativa se desenrola quando, para resolver um bloqueio literário, Hilda procura ajuda no divã. A escritora era uma mulher que defendia o amor livre, uma bandeira bastante avançada para o início do século 20. Os escritos mostram que ela teve vida afetiva libertária. De alma sensível e melancólica, fez diversas tentativas de análise antes de se encontrar com Freud. “Ela tinha uma visão muito sensorial das coisas”, ressalta Bel. Norte-americana, a poeta viveu em Londres, onde pôde acompanhar de perto o declínio do continente europeu em decorrência das duas guerras, ao mesmo tempo em que viu a ascensão do nazismo.

Bel contracena com Antonio Quinet, autor do texto teatral e que também dirige o espetáculo. “Antônio é nosso autor, diretor, Freud. Inteligente, buscador, ele é um grande entendido em psicanálise. Conseguiu me ensinar muito. Nosso jogo cênico é muito bom. Antônio é um mestre”, afirma a atriz. Bel conta que puderam experimentar um processo estendido, que permitiu imersão na obra de Freud.

Filha de Paulo José com a atriz Dina Sfat (1939-1989), Bel ressalta que é uma alegria apresentar o espetáculo em Belo Horizonte, onde o pai realizou diversos trabalhos com o Grupo Galpão. “Belo Horizonte é uma referência de vida. Por causa da atuação de meu pai, tive convívio próximo com os atores. Todo mundo é muito amado”, afirma. Com a retomada das apresentações da peça, que estreou em 2015, Bel divide o tempo para coordenar a Cidade das Artes, no Rio de Janeiro.

SAIBA MAIS

VANGUARDA

Romancista e poeta, Hilda Doolittle nasceu em Bethlehem, na Pensilvânia (EUA). Filiada ao modernismo literário, sua obra retrata a violência de duas grandes guerras e o desenvolvimento de narrativas que refletem a desintegração dos sistemas simbólicos tradicionais. Sua escrita abrange cinco décadas do século 20 (1911 a 1961), o que lhe possibilitou transitar por diferentes gêneros. Embora conhecida como poeta, Hilda escreveu romances, memórias e ensaios e fez uma série de traduções do grego. Com trabalho inovador e experimental, integrou a vanguarda que dominou as artes em Londres e Paris até o final da Segunda Guerra Mundial.



Em busca da história perdida
Fabrício Moser não conheceu a avó Laura, assassinada quando o ator era um bebê de nove meses. Além da falta da avó materna, ele percebia a lacuna da biografia dentro da própria família. Há três anos, o ator sul-mato-grossense resolveu retomar a história de Laura. Ele foi até a cidade natal da mãe de sua mãe. Conversou com vizinhos, familiares, encontrou objetos pessoais, fotografias, jornais da época e buscou informações na polícia sobre o assassinato. “A história dela foi silenciada na família. Percebi que não se falava dela, o que foi uma forma de lidar com aquela morte ocorrida de maneira trágica. Na vida adulta, identifiquei que a ausência dela me inquietava”, afirma.

Fabrício convida os espectadores a adentrar no universo de Laura nas sessões do espetáculo – de sexta a domingo, no Teatro Espanca! Para criar a dramaturgia, o ator usa como referência o conceito de jornada de herói do antropólogo Joseph Campbell. Fabrício ressalta que o espetáculo é uma obra aberta. “A peça se transforma a cada apresentação. Ainda recebo material da minha vó doado por familiares”, diz.

Desde 2014, Moser se dedica à pesquisa das raízes de sua vida. Quando resolveu que gostaria de pesquisar sobre a história da avó, Fabrício pediu licença à sua mãe, Vera. “Mãe, quero fazer a peça sobre a história da vó Laura”, disse na época. Vinte e um dias depois de ter recebido a autorização para encenar algo a respeito da cicatriz na história familiar, Fabrício passou por outro baque. A mãe e o pai morreram em um acidente de carro. Diante das perdas, o ator teve a certeza de que era necessário revisitar as feridas para seguir em frente.

Laura era analfabeta e trabalhou como lavadeira. Mulher que valorizava o transcendente, foi benzedeira e cartomante. Levadas para a cena, as cartas do tarô ajudam Fabrício a alinhavar a história. Apesar da pesquisa, ele considera que não conhece plenamente a avó. O processo de descoberta é permanente. “Sinto que ainda não conheço quase nada dela. Sempre me faço a pergunta: quem foi ela?. Quando chego a uma resposta, ela já se esvaiu. É a permanência da dúvida.”

Naquela época, o crime seria apontado como tendo uma motivação passional. Depois de atirar em Laura, Candoca, como o assassino era conhecido, se suicidou. Ao tomar contato com os depoimentos de testemunhas do assassinato da avó, Fabrício diz que tudo leva a crer que ela foi vítima de feminicídio.

Laura
Com Fabricio Moser. De sexta a domingo, às 20h, no Teatro Espanca! (Rua Aarão Reis, 542 – Centro). Ingressos: R$ 20 (inteira). A bilheteria abre 1 hora antes da sessão.

Hilda e Freud
Direção: Antonio Quinet. Com Bel Kutner e Antonio Quinet. Sexta e sábado, às 21h, no Teatro Bradesco do Centro Cultural Minas Tênis Clube (Rua da Bahia, 2.244). Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia).

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