Fundado por Ariano Suassuna, grupo Grial traz a BH dois espetáculos de dança

Em parceria com Maria Paula Costa Rêgo, grupo pernambucano realiza coreografias criadas dentro do objetivo de promover o diálogo entre o erudito e o popular

por Márcia Maria Cruz 09/05/2017 08:30

A Dupla Comunicação/Divulgação
O espetáculo 'Abô' aborda a herança cultural de matriz africana, com referências ao candomblé e à umbanda. (foto: A Dupla Comunicação/Divulgação )

O escritor, dramaturgo e poeta Ariano Suassuna (1927-2014) buscava o universal quando colocava em diálogo as culturas popular e erudita. Avesso a estrangeirismos, o mestre pernambucano construía uma linguagem estética brasileira, que descortinava a arte do povo. Norteado por essa proposta, Suassuna cofundou o Grupo Grial com a coreógrafa Maria Paula Costa Rêgo. Com três apresentações no Sesc Palladium, a partir desta terça-feira, 09, a companhia traz a Belo Horizonte os espetáculos de dança Terra (2017) e Abô (2015).

''Há 20 anos, o Grial pesquisa as tradições populares em busca de uma matriz. Descemos às profundezas para criar os espetáculos'', afirma Maria Paula em referência ao contato com culturas populares. A estreia, nesta terça, será com Terra. Abô será apresentado entre quarta, 10, e quinta, 11. Todas as apresentações ocorrem às 20h.

Para a criação de Terra, o Grial fez uma imersão no universo indígena brasileiro. Os artistas interagiram em Pernambuco com os Xucurus, pankararus, fulniôs e kaos. No Amazonas, com os tikunas e, em Roraima, com os macuxis. O resultado dessa pesquisa, Maria Paula apresenta no solo Terra. ''Construímos o espetáculo na praia. Iniciamos a relação com a areia. Como trabalhar com muita terra? Como espalhar? Fizemos os movimentos em cima do modo de os indígenas baterem o pé no chão, comum a todas as tribos'', diz.

 

 

ENCANTADO
Da imersão nos terreiros indígenas, Maria Paula sentiu a necessidade de adentrar os territórios negros, o que foi feito imergindo nos terreiros de umbanda e candomblé do Recife. Para o espetáculo Abô, ela convida os bailarinos negros Anne Costa e Silas Sanarky, iniciados nas religiões de matriz africanas. ''Em um primeiro momento, o espetáculo era encenado por Lucas dos Prazeres, que teve que deixá-lo devido a outros compromissos. Então, me coloquei no espetáculo'', diz Maria Paula.

Ela conta que, em determinado momento da encenação, os bailarinos ''descem do encantado'' para tratar da relação tensa entre o branco e o negro. ''Há muito preconceito com os terreiros. Há uma ação da polícia que os fecha. Como branca, eu me coloco contra essa repressão'', afirma, ressaltando que esse é o momento mais objetivo do espetáculo. ''Todo o resto é muito subjetivo e poético.''

Maria Paula conta que fundou o grupo a convite de Suassuna, que desejava aprofundar o diálogo entre o erudito e o popular no campo da dança. ''O Grial foi a terceira tentativa dele, que já havia feito algo parecido em 1975 e em 1980'', recorda-se. Nasce com elenco híbrido: metade de bailarinos com formação erudita e metade formada por brincantes, bailarinos de formação popular.

Suassuna e Maria Paula buscaram por brincantes que seguem a linhagem: com histórico familiar de pais e avós que se dedicaram à tradição. ''Tentamos construir esse diálogo há 20 anos. Junto-me à brincadeira e me deixo levar. Em alguns momentos, colocamos a erudição a serviço do universo popular. Em outro, colocamos a cultura a serviço da erudição. Experimentamos. A dança popular tem o mesmo valor que a clássica e a contemporânea. Não faço distinções'', afirma.

GRUPO GRIAL
Espetáculo Terra, terça-feira, 09, às 20h; espetáculo Abô,quarta, 10, e quinta-feira, 11, às 20h. No Grande Teatro do Sesc Palladium (R. Rio de Janeiro, 1.046). Ingressos: R$ 10 (inteira), R$ 5 (meia) e R$ 4 (comerciários).

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