Luis Lobianco começa turnê da tragédia Gisberta, peça em que relata a história de uma transexual

Ao 35 anos e 23 de carreira, ator está no maior pique, entre comédias na televisão, no YouTube, no teatro e o projeto de um longa-metragem

por Helvécio Carlos 23/04/2017 10:37
Eliza Mendes/Divulgação
O espetáculo Gisberta narra a vida e o assassinato da brasileira em Portugal, crime que chocou o país (foto: Eliza Mendes/Divulgação )

Ao 35 anos e 23 de carreira, o ator Luis Lobianco está no maior pique, mas reconhece a necessidade de uma desacelerada. “Houve vezes em que emendei uma noturna com gravação no dia seguinte”, recorda, ponderando que hoje não é mais assim. “Na minha agenda, tenho dias marcados para dormir. O volume de trabalho é muito grande, por isso estou disposto a descansar”, diz o carioca. Mas, pelo jeito, o tão merecido descanso vai demorar. Quer ver só?
Na televisão, por enquanto, são dois compromissos – a segunda temporada da série infantil Valentins, do Gloob, e a quinta temporada de Vai que cola, no Multishow. Para o cinema, o ator está começando a discutir a produção de uma comédia – ainda sem nome – na qual será protagonista.


No teatro é que a coisa pega: há a turnê de Gisberta, que termina dia 30, no CCBB do Rio de Janeiro, e segue para São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Lisboa e Porto; agenda com o coletivo Buraco da Lacraia, na Lapa; com o Rival Rebolado, no Teatro Rival; e, ufa!, Portátil – espetáculo de improvisação do Porta dos Fundos, canal do YouTube em que também tem agenda de gravação de episódios.


Atuando em várias vertentes, Lobianco garante que o teatro é sua grande paixão. “É um espaço mais democrático. Se você tem uma ideia, pode apresentá-la em uma esquina. Para mim, por excelência, na alegria ou na tristeza, o teatro nunca me abandonará”, acredita ele, que reconhece a internet como sua grande ligação com o público. Com o canal Porta dos Fundos veio a consagração popular e Lobianco caiu nas graças dos internautas.


Em sua visão, o humor não é mais o de antigamente. “Piadas racistas e homofóbicas deixaram de ter graça”, afirma, apontando para o que considera um avanço no debate mais profundo sobre o tema. O ator acredita na força do bom gosto para fazer piada sem bater em quem apanha todos os dias. “Não faço do oprimido objeto do ridículo. O opressor é quem precisa estar nesse papel”, opina, reforçando a necessidade cada vez maior de reflexão em momentos tão difíceis.
Seja no humor ou no drama, Lobianco dá o seu recado. Gisberta, sua mais recente produção teatral, conta a história da transexual brasileira torturada e assassinada por 14 menores, na cidade portuguesa do Porto. O crime causou comoção e a vítima se transformou em símbolo da luta contra crimes de ódio contra gays e transexuais em Portugal.


O encontro com a história, praticamente desconhecida no Brasil, surgiu por acaso durante as férias de Lobianco, em Teresópolis. Foi lá que ouviu a versão de Maria Bethânia para Balada de Gisberta, composta pelo português Pedro Abrunhosa. “Não conheço o autor e não sabia o que ocorreu com ela. Mas tive um grande interesse pela história. Abri o Google e descobri, entre outros detalhes, que o crime completaria 10 anos”, diz, confessando ter ficado chocado com a história.


A partir daquele momento, Lobianco mergulhou em pequisas através da internet, viagens a São Paulo e ao Porto nos intervalos de uma das temporadas de Portátil na Europa. Na cidade portuguesa, visitou e conheceu os lugares por onde a transexual passou e viveu, incluindo o prédio – ainda abandonado – em que a vítima foi torturada e jogada em um poço até morrer.


Com o crime, Portugal avançou na conquista dos direitos dos transexuais. “Hoje, o país é o mais seguro para os transexuais”, afirma, lamentando que por aqui a situação ainda é crítica. Crimes de homofobia, principalmente no Brasil, assustam e revoltam Lobianco.


“O mais impressionante é que esses números só aumentam. O Brasil é o país onde maisn se mata por transfobia. Os crimes continuam ocorrendo. Dandara (a transexual morta em Fortaleza) é um exemplo recente no país. É preciso criar consciência para sairmos deste cenário triste e vergonhoso”, rebate. “Mas continuamos elegendo representantes que levam a voz do ódio e a intolerância para o governo”, critica.


Para contar a história de Gisberta, que viveu em São Paulo, Paris e Portugal, Lobianco representa vários personagens que seguem por paralelos entre as histórias da transexual e do ator. E é na última cena que o drama de Gisberta atinge em cheio a plateia, a partir do relato da tortura descrito no processo da Justiça portuguesa.

 

Porta dos Fundos em nova sociedade


Nesta semana, foi anunciada que a produtora brasileira Porta dos Fundos foi adquirida pela empresa norte-americana Viacom International Media Networks, responsável pelo gerenciamento de canais de TV como a MTV, Comedy Central, Nickelodeon e Paramount Channel. De acordo com comunicado da VIMN Américas, o investimento é parte de uma estratégia de expansão na América Latina e de produção de conteúdos inovadores. Para Tereza Gonzalez, diretora-executiva do Porta dos Fundos, o negócio vai viabilizar o crescimento internacional do canal. “A parceria com a VIMN não poderia nos deixar mais felizes. A sociedade é um grande passo para o grupo se expandir no mercado internacional, com novas oportunidades globais para o nosso portfólio tanto on-line como off-line. Além disso, o acordo prevê uma distribuição excepcional de nossos conteúdos”, disse ela. O Porta dos Fundos foi fundado em 2012 por Antonio Tabet, Fabio Porchat, Gregorio Duvivier, João Vicente de Castro e Ian SBF e se consolidou no YouTube com vídeos curtos contendo esquetes de humor. Atualmente, o canal conta com mais de 13 milhões de seguidores na plataforma e alcançou, recentemente, a marca de 3 bilhões de visualizações, figurando em quinto lugar na lista de produtores brasileiros de conteúdo mais vistos da história da rede social.

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