Grace Passô mostra em BH esta semana o monólogo Vaga carne

Atriz, diretora e dramaturga vive um dos momentos de maior atividade artística da vida, com diversas participações no cinema e peças teatrais

LUCAS ÁVILA/DIVULGAÇÃO
Com texto de sua autoria, a atriz e diretora mineira apresenta espetáculo que mistura performance e provoca espectador (foto: LUCAS ÁVILA/DIVULGAÇÃO)
A atriz, dramaturga e diretora Grace Passô guardou um ensinamento do argentino Daniel Veronese. Diz ele que não existe realismo no teatro. Aqueles que buscam se aproximar da vida real no palco alcançam, no máximo, uma ilusão. Vaga carne, espetáculo em cartaz a partir de amanhã, no Sesc Palladium, é a radicalização desse pensamento.

“O teatro é uma invenção sem limites. Vai muito além da noção de personagem, história. É um experiência coletiva de uma noite”, sintetiza a atriz. Finalmente, Grace Passô chega a Belo Horizonte com o solo que mostra o quanto, para ela, teatro é mesmo um convite aberto.

A personagem principal é uma voz capaz de invadir qualquer tipo de matéria. No dia do encontro com o público, ela faz parte do corpo de uma mulher negra. “Em nenhum momento eu revelo a história dela. A peça é o tempo todo uma sondagem sobre o que seria”, explica. Para a atriz, Vaga carne, que deve ganhar versão em livro ainda este ano, é um convite a um estado de escuta.

Se você buscar qualquer referência sobre a peça vai encontrar entendimentos completamente diferentes, inclusive entre críticos. “Pessoalmente isso me agrada”, diz Grace. O desejo era esse mesmo: bagunçar, provocar estranhamentos.

As primeiras quatro apresentações do monólogo foram anunciadas logo após a conquista do Prêmio Shell 2017 de melhor dramaturgia no mês passado. Os ingressos escorreram feito água. Inicialmente, seriam 100 espectadores por sessão. Como a procura foi grande, a primeira solução foi apertar um pouquinho a plateia. A medida insuficiente estimulou a abertura de outras três sessões extras. Também disputadas. Ou seja: é preciso já articular outra temporada.

Vaga carne inaugura Grãos da Imagem, projeto dedicado a experimentações na linguagem teatral. Grace quer distância dos padrões. “É um espaço para friccionar a ideia de teatro”, conta. O espetáculo, criado coletivamente por ela, a socióloga Nina Bittencourt, o cineasta Ricardo Alves Jr., a atriz e iluminadora Nadja Naira e a preparadora corporal Kênia Dias, estreou no Festival de Curitiba do ano passado. Flerta com a performance e radicaliza a experiência metafórica do espectador.

CINEMA E MÚSICA Desde 2013, quando Grace Passô anunciou a saída do grupo Espanca!, do qual foi uma das fundadoras, virou uma nômade a serviço da arte. Fez Krum, da Cia Brasileira de Teatro, sob a direção de Márcio Abreu, e agora estará no elenco da próxima produção, Preto (título provisório). Escreveu peças para outros coletivos e atuou bastante no cinema.

“É muito louco ser atriz no cinema. No teatro, estou acostumada a lidar de uma forma total, desde a base conceptiva. No cinema, realmente você não tem noção sobre o que o seu trabalho vai gerar, que discursos vai defender. Tem todo um processo depois da filmagem que sai completamente do seu controle.”

Em 27 de abril, estreia Elon não acredita na morte, de Ricardo Alves Jr., filme no qual tem uma participação especial. A primeira protagonista também vem aí. Será Glória, a personagem principal de Praça Paris, novo filme da veterana diretora Lúcia Murat. “A Lúcia me interessa como mulher, como artista, a história dela está muito ligada à resistência brasileira, de como resistir às barbáries da nossa sociedade”, conta.

Com os mineiros da Filmes de Plástico, produtora de Contagem, este ano Passô filma Temporada, próximo longa dirigido por André Novais Oliveira. E falta apenas uma cena para finalizar No coração do mundo, dirigido por Gabriel Martins e Maurílio Martins. “Vi uns trechos e estou completamente encantada com esse coletivo. Acho inominável. Não sei colocar em gênero. É o motivo para fazer cinema.” Os lançamentos de 2018 devem coincidir com outra protagonista: Graça, de A professora de francês, próximo longa de Ricardo Alves Jr.

A atriz ainda foi uma das atrizes convidadas por Elza Soares para a versão audiovisual da música A mulher do fim do mundo. Grace considera Elza a grande representante da mulher brasileira. Tanto pela história pessoal como pela produção artística que construiu.

“Vivemos hoje uma pujança muito forte da militância negra. Isso tem transformado a vida dos negros e das negras brasileiras. Hoje, tenho uma outra noção do que significa negritude. Tudo isso faz essa participação algo de extrema importância para mim. É simbólica.”

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE TEATRO