Após trágica morte de Domingos Montagner, cia La Mínima dá a volta por cima

Trupe comemora seus 20 anos com novo espetáculo dirigido por Chico Pelúcio

por Ana Clara Brant 27/03/2017 10:05

Paulo Barbuto/ Divulgação
Cena do espetáculo Pagliacci com o ator Filipe Bregantim; ao fundo painel com o ator Domingos Montagner (foto: Paulo Barbuto/ Divulgação)
Hoje, 27 de março, é celebrado o Dia Mundial do Circo e do Teatro. Ninguém foi tão ator e ao mesmo tempo tão circense como Domingos Montagner. A companhia criada por ele e pelo amigo Fernando Sampaio, ou melhor, pela dupla de palhaços Agenor e Padoca, a La Mínima, está completando 20 anos em 2017. Para lembrar a data, a companhia promove mostra de seu repertório, com espetáculos que marcaram a história do grupo ao longo dessas duas décadas, uma exposição com figurinos, objetos e fotos, além da estreia de uma nova produção.

Apesar de não estar fisicamente em cena – Domingos morreu em setembro do ano passado quando se afogou no Rio São Francisco –, o artista não deixa de estar presente. “O Duma (como o ator era carinhosamente chamado pelos amigos e pela família) está participando de uma outra maneira. Desde o começo, quando pensamos na concepção do projeto La Mínima 20 anos, ele estava participando. Sua ética, sua tendência artística e o olhar dele estão aqui. Apesar de não ter sido e não ser fácil, a melhor maneira de levar adiante essa celebração é tocar o La Mínima”, ressalta Fernando Sampaio.

A mulher de Domingos Montagner, Luciana Lima, produtora da companhia desde 2001, também foi a favor da manutenção das comemorações. “Quando comecei a racionalizar o que estava ocorrendo, dias depois da passagem do Domingos, conversando com o Fernando ao telefone, me dei conta de que já falávamos dos próximos passos do novo projeto de comemoração do La Mínima. E afirmávamos que teríamos que dar continuidade, por uma questão de princípio ético, para honrar o compromisso já assumido e, principalmente, como forma de continuar com o Domingos presente entre nós”, relata.

A montagem escolhida para os festejos foi Pagliacci, baseada na obra do compositor de óperas italiano Ruggero Leoncavallo (1857-1919). Representada pela primeira vez no Teatro dal Verme de Milão, em 1892, a ópera é um melodrama a repeito de um amor fracassado e traído envolvendo atores de uma companhia circense.

Carlos Gueller/Divulgação
A dupla de fundadores como os palhaços Agenor e Padoca (foto: Carlos Gueller/Divulgação)


CONVIDADO A produção do La Mínima ganhou um toque mineiro com a direção artística de Chico Pelúcio, do Grupo Galpão. Depois de muitos encontros e desencontros, o ator e diretor conseguiu concretizar a parceria com o grupo paulista. “Há muitos anos a gente se conhece e, um dia, o Domingos comentou que queria que eu dirigisse um espetáculo deles. Ele até brincava me chamando de ‘meu diretor’. Mas as agendas nunca coincidiam. Até que, no ano passado, finalmente, a gente conseguiu acertar. Chegamos a fazer três encontros. O último foi poucos dias antes de ele partir. Mas estamos aí”, conta.

Chico diz que além da dificuldade em adaptar o texto (a nova versão de Pagliacci foi escrita e adaptada por Luís Alberto de Abreu), e criar uma dramaturgia respeitando o DNA da companhia, tiveram que lidar com a ausência do ator, cujo último trabalho foi a novela Velho Chico. “Tinha a questão organizacional e emocional além do desafio de adaptar uma ópera para a linguagem do circo. Mas conseguimos fazer esse espetáculo que é popular e tenta trazer uma discussão mais profunda sobre o ser humano”, salienta.

A montagem estreia em 30 de março em São Paulo, mas terá duas pré-estreias para convidados, hoje e quarta-feira. O elenco é composto pelo fundador Fernando Sampaio e pelos atores Alexandre Roit, Carla Candiotto, Fernando Paz, Filipe Bregantim e Keila Bueno. A peça vai ficar em cartaz na capital paulista até o meio do ano e rodar o país no segundo semestre. “Olho para trás e me dá muito orgulho de tudo que fizemos. A gente exerce a profissão com muito amor. Além de fazer rir, divertir, acho que o palhaço tem a missão de transformar. Ele é mágico, lúdico. Essa história de que circo vai acabar é balela. Nem ele nem o palhaço acabam nunca. As pessoas precisam disso”, defende Fernando.

 Lima acredita que o segredo de o palhaço se manter cativante aé a capacidade de retratar e tocar cada um de nós. “O palhaço é humano, sensível sem ser triste. Busca a alegria no simples da vida. E acho que o público se identifica com esse estado de ser. Se o público é criança percebe a essência do palhaço; se é adulto, o palhaço acessa essa essência que está guardada em algum lugar desde que era criança. E isso se transforma em emoção.”\

 

Carlos Gueller/Divulgação
Fernando Sampaio e Domingos Montagner na peça Mistério Buffo (foto: Carlos Gueller/Divulgação)


QUATRO PERGUNTAS PARA

Luciana Lima
produtora do La Mínima

Ao longo desses 20 anos da companhia, o que lhe dá mais orgulho?
Além de ter aprendido sobre a paixão e a magia do circo, é o legado que o La Mínima está deixando para as novas gerações de palhaços que estão aí. Legado de amor e respeito ao palhaço.

Nesse percurso, há algum episódio que lhe marcou? 

Um episódio específico, não. Mas a estreia de cada trabalho sempre traz uma emoção marcante, um preenchimento na alma de desafio cumprido. Sempre fomos muitos emotivos: eu, o Fernando e o Domingos. Chorávamos ao término das primeiras apresentações de estreias, como se estivéssemos dando um presente muito especial para o público. É uma crença de amor à nossa arte.

Queria que você falasse um pouco dessa parceria com o Chico Pelúcio que finalmente deu certo.
Eles já se conheciam há muitos anos. Pela estrada, pela profissão e por admirar o trabalho do Grupo Galpão. Seu trabalho com o teatro de rua encantava o Domingos. A linguagem, o compromisso de grupo, o desafio de se manter uma companhia de repertório por tanto tempo e sempre se reinventado, evoluindo na linguagem e na atuação. Nisso, O Galpão é parecido com o La Mínima. Então, veio o convite: “Um dia você vai ser meu diretor”, disse o Domingos como se estivesse “desafiando” o Chico, que aceitou na hora. Isso foi mais ou menos 10 anos atrás e, como nada acontece por acaso, quis o destino que fosse agora. E assim, numa nova configuração do La Mínima. É uma honra ter o Chico entre nós e esse “desafio” se concretiza com o Pagliacci.

Qual a lembrança mais forte você tem do palhaço Agenor (palhaço criado por Domingos Montagner,  marido dela)?
Não dá para separar o palhaço Agenor do Domingos Montagner. Aprendi com o Duma que “você não faz um palhaço, você é um palhaço”. O palhaço tem uma exigência espiritual; você tem que ir tirando cascas de si mesmo. É uma lente de aumento das próprias qualidades e deformações. Então, ele é ele. Com o Domingos/Agenor aprendi a ser generosa, a olhar a vida de maneira positiva, de tratar o outro como igual. E também a não ter vergonha de errar e, nos acertos, reconhecer que não se está sozinho, que temos e precisamos uns dos outros para viver e viver feliz.

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