Obra de Arthur Bispo do Rosário ganha o palco em São Paulo

Ao levar o artista visual para o palco, João Miguel dialoga com o inconsciente coletivo do Brasil. O legado libertário do paraibano 'louco' encanta o mundo

por Estado de Minas 20/03/2017 08:00
Diney Araújo/divulgação
João Miguel dirige e atua em Bispo (foto: Diney Araújo/divulgação)

 “Estão dizendo que isso que eu faço é arte. Quem fala não sabe de nada. Isso é a minha salvação na Terra.” Se, por um lado, a frase do artista plástico Arthur Bispo do Rosário põe em xeque o olhar sob o que pode ser considerado criação, por outro, dá impulso e entusiasmo para encarar as inúmeras possibilidades desse fazer. É com esse espírito que o ator João Miguel encena a peça Bispo, em cartaz no Sesc Bom Retiro, em São Paulo.


Em uma pesquisa iniciada em 1996, o ator, que também assina a direção da montagem, faz um passeio pela obra do artista plástico paraibano. Edgard Navarro escreveu o texto. “Comecei estudando sua biografia, que é encantadora, e passei a desenvolver oficinas dentro de hospitais psiquiátricos em meio à luta antimanicomial”, conta João Miguel.

Bispo foi fuzileiro da Marinha e pugilista campeão. Em 1938, foi internado pela primeira vez após um delírio. “Ele se tornou admirável por conseguir dialogar com o mundo confinado em uma cela”, diz João Miguel, que chegou a se apresentar no local onde o artista desenvolvia seus trabalhos, entre eles navios de sucata, faixas, bandeiras e objetos domésticos. “Aquele lugar deveria virar um museu ou um centro cultural”, insiste.


URGÊNCIA
Em um palco abarrotado de “lixo”, Miguel não pretende apresentar um peça biográfica, mas buscar reconhecer a grandeza de um autor comparado ao francês Marcel Duchamp. “Ele tinha urgência em suas criações, mesmo usando materiais inúteis”, aponta Miguel sobre a criação mais importante de Rosário. “Ele fez o Manto para vestir no dia do Juízo Final. Havia uma construção poética que marcava seu trabalho como uma grande obra brasileira.” E nacional no sentido em que se usa da cultura oral em suas criações e de figuras típicas, como os marinheiros, caboclos e boiadeiros. “Ele traz consigo esse inconsciente coletivo que está na vida de todos nós”, observa João Miguel.

Amparado no jogo de “ver e ser visto”, o ator mistura memórias da própria vida com a biografia de Rosário. A origem nordestina em comum permite um mergulho sem redes de proteção. Para invocar essa nova temporada da peça, Miguel passou pela Chapada Diamantina, na Bahia. “O que ele fez não tem fronteiras, isso me impulsiona a estar livre no palco.”

NETFLIX Com a retomada de Bispo e suas próximas temporadas, Miguel, que rodou dois filmes, a serem lançados ainda neste semestre, festeja a ótima audiência de 3 % pelo mundo. A produção brasileira da Netflix é a série de língua não inglesa mais vista nos EUA.

“Fiquei muito feliz, porque, às vezes, sinto que ainda não consegui me comunicar com o público mais jovem, de 13 a 20 anos. A vantagem de ser ator é poder experimentar personagens diferentes e, ainda que não dê certo, arriscar com eles”, conclui. (Leandro Nunes/Estadão Conteúdo)



Reinvenção do mundo

Arthur Bispo do Rosário (1909-1989) é um dos artistas visuais mais fascinantes do Brasil. Com suas instalações, objetos, esculturas e bordados, tem sido reverenciado em importantes centros de arte do mundo. Nos anos 1930, devido a um delírio místico, o paraibano humilde foi internado na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro e diagnosticado como esquizofrênico. Bispo criou sua obra dentro de hospícios numa época em que internos eram tratados com choques elétricos e castigos. Sua obra reforçou a luta antimanicomial que mobilizou o país a partir dos anos 1960.

Bispo deixou de ser “o louco” quando o repórter Samuel Wainer Filho o descobriu, revelando seu talento no programa Fantástico. O crítico mineiro Frederico Morais levou seus trabalhos para o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Canecas, botões, colheres, garrafas de plástico e lençóis foram matéria-prima de suas assamblages. Quando o proibiram de criar, desfiou o próprio uniforme, usando as linhas para reagir àquele mundo hostil. Eram as “representações”, como dizia. Com elas, ele se apresentaria no Juízo Final. A obra-prima é o manto bordado com o qual Bispo intercederia junto a Deus pelos amigos.

Frederico Morais mostrou que o paraibano tido como louco era, na verdade, um vanguardista como Marcel Duchamp. Em 1995, seis anos depois de sua morte, Arthur Bispo do Rosário representou o Brasil na Bienal de Veneza, na Itália. Em 2012, 80 criações dele ficaram expostas no Victoria & Albert Museum, em Londres. Em 2014, sua trajetória foi tema do longa O senhor dos labirintos, dirigido por Geraldo Motta e estrelado por Flávio Bauraqui.

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