Cacá Carvalho volta a BH com a peça 2x2 = 5 O homem do subsolo

Monólogo inspirado na obra de Dostoiévski desafia a racionalidade e o conformismo

Roberto Palermo/Divulgação
(foto: Roberto Palermo/Divulgação)

Umeboshi é uma conserva de ameixa japonesa. O prato bastante incomum para o costume culinário brasileiro é o que o ator e diretor Cacá Carvalho preparou e esperava ficar pronto enquanto conversava sobre teatro, ofício, Dostoiévski e as superficialidades e profundezas da vida. Sobre arte.


Os assuntos se misturam quase sem pausa. Comida e teatro têm mesmo algo em comum: podem ser experiências. É atrás delas que o ator nascido no Pará, radicado em São Paulo e morador frequente da Itália leva a vida.

É também em troca delas que ele desembarca amanhã em Belo Horizonte, depois segue para Salvador, São Paulo e Vitória para vivenciar maratonas de oficinas e espetáculos.

Pela umeboshi, pode-se deduzir que Cacá Carvalho não é um homem de escolhas comuns. A peça 2x2 = 5 O homem do subsolo é inspirada no romance Memórias do subsolo (1864), de Fiódor Dostoiévski (1821-1881).

Conhecido pelo gosto por monólogos, mais uma vez Cacá está sozinho em cena, embora bem acompanhado na retaguarda. O espetáculo tem direção do italiano Roberto Bacci, cenografia de Márcio Medina, iluminação de Fábio Retti e dramaturgia de Stefano Geraci. A trupe de sempre.

“Não é um trabalho deslocado. O livro de Dostoiévski é a grande potência”, diz sobre a oficina “O subsolo produtivo do ator”, realizada em dobradinha com a montagem em todos os lugares por que passa.

O texto do escritor russo conta sobre um aposentado amargo que vive isolado no subterrâneo do mundo e de si mesmo. Conhecido do grande público principalmente pelo papel de Jamanta nas novelas Torre de Babel (1998) e Belíssima (2005), ambas de Sílvio de Abreu, Cacá não vive sem o teatro. Diz que não brigou com a TV, mas tem crises.

Se recebesse novos convites, teria que encontrar tempo na agenda. Daria um jeito. “Queria fazer melhor esse tipo de gestão. Circular lá, aqui. Faço isso pouco”, assume. Por isso, quem vai atrás dele em busca de receitas prontas para o caminho das pedras do estrelato televisivo nem precisa se dar ao trabalho.

“Comigo, eu diria que talvez esteja criando um desvio e isso é perda de tempo. Essa é uma palavra importante: tempo. É a moeda mais cara que tem. Não jogue fora”, alerta.

ALIMENTO É por ter a sensação de finitude cada vez mais próxima que ele não para. Belo Horizonte, Salvador e Vitória entraram na circulação do projeto patrocinado pela Petrobras a pedido do artista. Vem aqui por toda relação que construiu com o Grupo Galpão, de quando dirigiu Partido (1999).

Em Salvador, terá oportunidade de levar as palavras a uma plateia de 1,5 mil espectadores dispostos a pagar apenas R$ 1. A ida para Vitória tem a ver com toda a violenta turbulência social que a cidade viveu este ano. Tudo faz sentido.

Cacá acredita que, para entrar em cena, um ator não se alimenta somente de técnicas. As vivências são tão ou mais importantes. “Acredito que seja um tema um pouco duro para um jovem acostumado a simplesmente procurar um curso da técnica x, de clown, de como chorar só com um olho ou de como cantar usando bemol.

Essa natureza de oficina também é fundamental, mas não te ajuda a dar um passo a mais nessa coisa complicada e fundamental chamada consciência.” 2x2 = 5 O homem do subsolo é um enfrentamento poético ao pragmatismo do mundo. Em uma defesa da alma como fantasia, Dostoiévski e Cacá Carvalho propõem um embate ao superficial, ao lógico, ao racional, ao científico. É um questionamento: 2x2 terá mesmo que ser sempre igual a 4?.

A arte pode responder a esse tipo de questão. Quando observa e analisa o mundo de hoje, Cacá sente que estamos chegando a um momento de ruptura. Acredita que as mudanças são urgentes na economia, na política, na cultura, na saúde, assim como na luta pela igualdade. “É impossível que essa meritocracia ocorra do jeito que eles querem, com um saindo com 50 metros na frente do outro em uma corrida de 100. Isso se estabelece em todas as áreas. Está chegando a um ponto que não vai dar mais.”

Cacá Carvalho e O homem do subsolo são reações ao sistema que está aí. “Não posso fazer qualquer coisa. Quero que aquele encontro de 1h10min, feito em uma época onde tudo é deletado rápido, demore a desaparecer para o espectador. Muita coisa que está sendo produzida nisso que chamamos de arte toca pouco na radiografia do homem.

Tem uma profusão de coisas acontecendo que são discutíveis. É preciso ter de tudo um pouco, mas também aquilo que faça com que eu não durma depois. De que tipo de arte eu gosto? A que me tira o sono.” O ator defende o teatro como a única arte, entre tantos meios de expressão disponíveis hoje, ainda capaz de colocar um homem diante de outro.

“É o discurso desse contra a presença daquele. E ali pode acontecer alguma coisa. Isso é ser altamente poderoso e revolucionário para os dias de hoje.” Tal como a umeboshi, um segredo para a longevidade.

GRANDES MESTRES Cacá Carvalho começou no teatro em Belém do Pará, no final da década de 1960. Em 1978, fez parte do elenco de Macunaíma, montagem antológica de Antunes Filho.

Mudou-se para a Europa, onde teve contato com o panteão das artes cênicas contemporâneas: Jerzy Grotowski (1933-1999), Kazuo Ohno (1906-2010), Pina Bausch (1940-2009), Ariane Mnouchkine, Peter Brook.

Virou parceiro do italiano Roberto Bacci no então Piccolo Teatro di Pontedera, hoje Teatro della Toscana, responsável pela produção da montagem que chega a BH.

Encontros fraternos


Minas Gerais esteve na rota de Cacá Carvalho como morada. Em 1999, instalou-se em Belo Horizonte para dirigir o Grupo Galpão em Partido (1999), adaptação teatral do livro O visconde partido ao meio, de Ítalo Calvino. “Belo Horizonte é um lugar complicado de falar sem ficar emocionado.” Da época em que tinha “40 e poucos anos” para o senhor prestes a fazer 64 anos, Cacá afirma ter se transformado muito. Suas essências, porém, continuam.

É sedento por aprendizado. Se quando vai para o palco é mais conhecido pelos monólogos, não entende o teatro como uma experiência individual. “Vou fazendo meus trabalhos, mas, quando se encontra com outro grupo, você se alimenta de outras lógicas de produção criativa, de material cênico, de pensamento, de como fazer, viver”, diz.

Estar novamente no Galpão Cine Horto tem grande valor para o ator, que mantém laços fortes com o grupo mineiro. Conhecido pela fama de caseiro, Cacá foi duas vezes ao Galpão assistir Nós. Saiu do teatro alimentado e atordoado. “Foi tão forte, impactante, violento. Essa é a palavra certa. As questões que eles colocam ali são as mesmas da época que nos encontramos”, afirma.

Partido é um marco na carreira do Galpão por ter sido a primeira tentativa do grupo em sair da “zona de conforto” do teatro mais popular em busca de outras possibilidades no palco. A montagem de Nós parte do mesmo propósito.

A diferença é que, se em Partido toda a experiência dos atores se apoiava na história narrada por Ítalo Calvino, a dramaturgia de Nós, assinada pelo diretor Márcio Abreu em parceria com o ator Eduardo Moreira, traz uma visão contemporânea sobre viver em sociedade e ser um grupo de teatro. Certamente, material garimpado no subsolo de cada um.

2X2 = 5 O HOMEM DO SUBSOLO
Direção de Roberto Bacci, com Cacá Carvalho. Quinta-feira, às 20h; sexta, às 21h; sábado, às 18h30 e às 21h; domingo às 19h. Galpão Cine Horto (R. Pitangui, 3.613, Horto, (31) 3481-5580). R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). À venda na bilheteria do teatro e no Sympla (www.sympla.com.br).

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