Racismo, guerra e violência são temas da 4ª Mostra Internacional de Teatro em SP

'Revolução em pixels', do libanês Rabih Mroué, e 'Black off', da sul-africana Ntando Cele, são destaques na programação

15/03/2017 08:00

Stephane de Sakutin/AFP
O diretor Rabih Mroué usa o Líbano como metáfora da violência política contemporânea (foto: Stephane de Sakutin/AFP)
Na janela da sua casa, pode ser seguro sacar o celular para gravar vídeos e fazer fotos. Há muitos anos, durante a guerra civil no Líbano, a mesma atitude poderia ser considerada um ato – inconsciente – de suicídio. Todas essas gravações que vão parar nas redes sociais servem para revelar pequenos filmes de horror sem fim. Reunidas pelo libanês Rabih Mroué em Revolução em pixels, elas demonstram atiradores disparando em pessoas com celulares nas mãos. A peça será exibida hoje, 15, no Sesc Vila Mariana, durante a 4ª Mostra Internacional de Teatro, aberta ontem, em São Paulo.


Desde 1989, Mroué enfrenta a dura memória da guerra civil que deixou sequelas no país e nas pessoas ao seu redor. No palco, constrói uma aula que se dissolve na baixa qualidade dos vídeos de quem morreu por tentar registrar os conflitos no país. Um pouco mais cansado e longe de sua terra natal – ele mora em Berlim –, Mroué fala sobre a criação de um teatro de baixo custo que, frequentemente, sofria censura do governo libanês e que hoje encontra ressonância na Europa e no mundo.

“Para todo artista que começa há o embate do que se deseja dizer com a busca de uma maneira possível de dizer. No Líbano, isso se torna um risco, pois os conflitos parecem ser o único assunto”, comenta. Revolução em pixels foi fruto de sua experiência como editor de vídeos em um canal de televisão fechado em Beirute. “Era o que fazia todos os dias no estúdio e, naturalmente, estendeu-se para o palco. Foi um modo barato de contar histórias, pois não há apoio. Pelo contrário.”

A segunda montagem, Cavalgando em nuvens, que será apresentada na sexta-feira, coloca no palco Yasser, irmão de Mroué, ferido na guerra com um tiro na cabeça. “Ele tem dificuldades de fala e de locomoção. Essa condição expõe uma fragilidade real quando relata sua experiência no Exército e a condução política do país, além do desafio de se expor e revisitar a própria dor”, comenta.

Para completar sua mostra dedicada à obra de Rabih Mroué, Tão pouco tempo, em cartaz hoje, também no Sesc Vila Mariana, refaz a trajetória ficcional de um mártir islâmico dado como morto e instituído herói da nação. Muito tempo depois, ele volta à cidade, colocando em risco a força dos monumentos e lendas criados para louvar a sua história.

BLACK FACE Outra convidada da mostra é a atriz e performer sul-africana Ntando Cele, que apresentará a peça Black off no sábado, 18, no Itaú Cultural. Entre 1840 e 1890, o teatro popular nos EUA pintava atores brancos com carvão e tinta para interpretar personagens negros. Para muitos, lutar pela descontinuidade dessas formas é essencial, mas, para Cele, gargalhar pode ser uma solução.

Negra nascida em Durban, ela encarna um alter ego inusitado, chamado Bianca White. Essa figura se transforma na frente de todos: ela pinta o rosto de branco, coloca lentes de contato azuis, um quimono e uma peruca loura.

“Bianca viaja pelo mundo para ajudar pessoas negras. Ela é uma aventureira e costuma adotar o comportamento e a cultura de outros países”, ironiza Ntando. “No palco, não faço nada, só concordo e me correspondo com Bianca, no jeito como reage e responde. Às vezes, ela xinga, outras vezes pede uma taça de vinho. No palco, faz gestos estranhos. Tudo para trazer desconforto à plateia”, conta.

Situar Bianca como estranha cidadã universal se concretiza em uma crítica que passa pelo racismo e suas reações no mundo. “Ela se veste misturando culturas porque não pretende ser nenhuma delas. Isso é tão arrogante!”, diz. “Ocupar essa ‘branquitude’ sempre foi um privilégio. Você pode ser qualquer pessoa e andar por aí sem que ninguém lhe pergunte nada.”

Ntando nega que seu trabalho seja reação ao black face. “É impossível dar uma resposta a isso. Não se trata de uma oposição, tampouco é o desejo de falar por todos os negros do mundo. Trata-se de uma tentativa de falar a partir da minha experiência, apenas isso, e o que ocorre na minha pele.”

 

(Estadão Conteúdo)

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