Teatro Municipal de Ouro Preto retoma programação depois de ser reformado

Depois de dois anos e meio fechado para reforma, o mais antigo teatro em atividade no Brasil tem programação regular com espetáculos de música e teatro

por Gustavo Werneck 13/03/2017 08:00
FOTOS: BETO NOVAES/EM/D.A PRESS
Construída em formato de lira, a Casa da Ópera burlou a proibição de mulheres no palco no século 19 (foto: FOTOS: BETO NOVAES/EM/D.A PRESS)

Ouro Preto
– Uma das joias mais refinadas da arquitetura colonial mineira volta a brilhar aos olhos do público e recupera a função de palco barroco das artes cênicas. Fechado há quase dois anos e meio, após interdição pelos bombeiros, a Casa da Ópera – Teatro Municipal de Ouro Preto, no Centro Histórico da cidade, tem novamente programação regular e “segurança” para atores, plateia e funcionários, conforme garantem as autoridades locais. Considerado o mais antigo teatro em funcionamento das Américas, inaugurado em 6 de julho de 1770, o espaço administrado pela prefeitura está de portas abertas e cavalete de pé anunciando as próximas atrações, entre elas concerto de piano, noite de jazz, comédia e orquestra sinfônica.

“Estamos retornando plenamente às atividades. De 2013 para cá, o teatro foi reaberto poucas vezes, embora sem programação contínua”, informa o secretário municipal de Cultura e Patrimônio, Zaqueu Astoni Moreira. Ele conta que alguns serviços estão em andamento, como a limpeza do entorno, descupinização preventiva e retirada de uma goteira ao lado da portaria que deixou marcas na parede. Um dos riscos principais à integridade do teatro, que várias vezes foi alvo de reportagem do Estado de Minas, foi resolvido na administração anterior: troca de uma viga de madeira que estava podre.

“O mais importante é que se fortaleça o sentimento de pertencimento por parte dos moradores de Ouro Preto. A visitação aumentou muito desde a primeira semana de janeiro. Recebemos gente que nunca tinha vindo aqui. Este palco é muito importante e consta que foi o primeiro no qual uma mulher se apresentou no Brasil”, afirma Zaqueu, enquanto mostra detalhes da Casa da Ópera, como o camarote com cadeirinhas de palhinha. Ele adianta que está em entendimento com o Conselho Municipal do Patrimônio para restauro da boca de cena (frente do palco) por meio de recursos do Fundo Municipal do Patrimônio.

DIAS DE GLÓRIA


Com satisfação, o secretário conta que o teatro está aberto também para atividades da comunidade, sendo um bom exemplo as recentes apresentações do projeto Crescer com arte e saúde longe das drogas, fruto da parceria entre o Fundo da Infância e Adolescência (FIA), município e Grupo Votorantim. “É fundamental ter programação ao longo do ano. A Casa de Ópera, assim, volta aos seus dias de glória”, resume.

Funcionária há 19 anos da Prefeitura de Ouro Preto, nove dos quais no teatro, a secretária Zulmira Maria Campos é só sorrisos, principalmente ao contemplar, da frisa, o ambiente que exala história, arte e cultura. “O pessoal está vindo mesmo. Só na primeira semana de janeiro, tivemos 286 visitantes. Os turistas adoram! Nesses dois anos e meio de fechamento, sem programação, fiquei muito triste. Na verdade, fiquei sem lugar, pois estamos num ambiente muito especial”, diz Zulmira, que descende do historiador, político, jornalista e advogado Diogo de Vasconcellos (1843-1927). “A história está no DNA do povo de Ouro Preto”, afirma.

SÍMBOLO


Erguido no Largo do Carmo, no Centro Histórico, reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade, a Casa de Ópera tem formato de lira, sendo um dos poucos teatros no mundo que recriam o instrumento símbolo do nascimento da ópera. Com acústica perfeita, está entre as grandes paixões de cantores líricos e pesquisadores da obra, tanto pela beleza como pela longevidade.

Autora do livro É lá que se representa a comédia: A Casa da Ópera de Vila Rica (1770-1822), a cantora lírica Rosana Marreco Brescia, que fez doutorado sobre o tema na Universidade de Sorbonne, em Paris (França), mostrou que, no Brasil, os teatros de Chica da Silva, em Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, e o da Praia, em Salvador (BA), foram pioneiros, mas saíram de cena e do mapa. A inauguração em 6 de julho de 1770 foi em homenagem ao aniversário do então rei de Portugal, D. José I (1714-1777).

O teatro foi construído pelo coronel João de Souza Lisboa, com provável projeto arquitetônico de Mateus Garcia, seguindo as linhas do barroco italiano desaparecidas na mudança da fachada em 1861. Há uma série de curiosidades de bastidores. Na época, apenas os homens podiam subir ao palco e faziam também os papéis femininos, travestidos, mas a Casa da Ópera quebrou esta tradição. Há registros de mulheres em cena, embora a rainha dona Maria I proibisse tal prática.


No final do século 18 e início do 19, Ouro Preto era uma cidade efervescente, com vida cultural muito ativa e os textos eram apresentados em português e traduzidos de peças de Molière (1622-1673), Calderón de La Barca (1600-1681) e outros autores europeus. O poeta Cláudio Manoel da Costa (1729-1789) colaborou para o surgimento da Casa da Ópera e em seus primeiros anos de funcionamento foi um dos assinantes dos camarotes, bem como outros participantes da Inconfidência Mineira. Por falta de espaços públicos disponíveis naquela época, o teatro acabou se tornando um ponto de encontro dos simpatizantes do movimento com os inconfidentes, que usavam também o local para recitar seus poemas.



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Teatrinho barroco


A partir do fim do século 19, os costumes se modificam e a chegada do cinema provoca redução da frequência nos teatros. No entanto, ressalta o secretário de Cultura e Patrimônio de Ouro Preto, Zaqueu Astoni Moreira, a Casa da Ópera se mantém fiel a seu papel de espaço de representação privilegiado e palco de eventos da maior importância na história artístico-cultural da cidade que foi capital mineira até 1897. Ao entrar no “teatrinho barroco”, como é afetuosamente chamado o Teatro Municipal de Ouro Preto, “pode-se sentir a ambiência barroca que remete aos seus espetáculos inaugurais e perceber que se trata de um monumento de grande valor histórico, arquitetônico e artístico, um raro e admirável integrante do conjunto urbano reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade”.


PROGRAMAÇÃO


O QUE VEM POR AÍ
Confira a agenda da Casa da Ópera – Teatro Municipal de Ouro Preto, que fica no Largo da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no Centro Histórico

Março
>> Dia 24, às 20h
Concerto de piano, com Bruno Hrabovsky

>> Dia 25, às 20h
Leandro Matheus (stand up) em O inconveniente

>> Dia 27
Audição Alunos de Metais (17h) e Banda Sinfônica da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop)

Abril
>> Dia 22 às 20h
Noite Tudo é Jazz, com apresentação do pianista Eduardo Dussek e o convidado Mazza na percussão

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