Diego Bagagal estreia hoje no CCBB o solo 'Salomé', resultado de suas pesquisas em torno da personagem

Montagem propõe uma indagação sobre o feminino e o desejo na sociedade atual

por Mariana Peixoto 02/03/2017 20:03

Salomé, a personagem bíblica que exigiu (e recebeu) a cabeça de João Baptista por causa de um beijo, inspirou muitos. Oscar Wilde lhe dedicou um texto para teatro (1893). Richard Strauss, a partir dessa criação, concebeu uma ópera (1905). No cinema, ela já foi interpretada por Rita Hayworth (1953, em filme de William Dieterle).

LUIZA PALHARES/DIVULGAÇÃO
O ator Diego Bagagal fez residências artísticas na Polônia, na Itália e em Portugal durante a preparação do espetáculo (foto: LUIZA PALHARES/DIVULGAÇÃO)

Outros criadores que também se debruçaram sobre a figura controversa vão do escritor Gustave Flaubert ao poeta Stéphane Mallarmé, passando ainda pelo cineasta Carlos Saura.

São muitas as Salomés que interessaram ao ator Diego Bagagal, que estreia hoje, no CCBB, o espetáculo solo Salomé. A montagem, que cumpre 14 apresentações até 20 de março, tem direção e dramaturgia do português Mickaël de Oliveira (em parceria com o próprio Bagagal) e trilha sonora de Chico Neves.

Até a estreia, foram nove anos às voltas com a personagem. Bagagal fazia uma pós-graduação em Londres quando começou a se deparar com uma situação recorrente. “Em toda livraria ou biblioteca por que passava sempre chegava a uma estante que tinha Salomé, principalmente a versão de Wilde. Isso ocorreu durante dois anos. Foi aí que entendi que deveria mexer nesse material”, comenta.

E ele o fez em residências artísticas na Europa. A primeira foi no Instituto Grotowski, em Breslávia, na Polônia. Foi aberta seleção para o projeto To The Light, uma edição que escolheria 10 atores para pesquisar o tema “em direção à luz”, na floresta de Brzezinca. Selecionado, Bagagal escolheu Salomé.

IMPROVISO Mais tarde, em Bolonha, na Itália, continuou a fazer improvisações em cima da personagem. Desta vez, o processo ocorreu em estúdio de música desativado. A pesquisa continuou até que, mais recentemente, chegou a Portugal, onde, na cidade de Montemor-o-Novo, no Alentejo, ele se uniu a Oliveira para gestar a parte final do projeto. O cenário era mais do que adequado: as ruínas de um convento.

A partir dessa imersão, foi criado um espetáculo que vai muito além da história já conhecida. A intenção de Bagagal era conceber uma obra que tocasse em questões caras ao mundo contemporâneo: o que é feminino e masculino, a relação entre sexo e política.

“O espetáculo não pretende contar uma história que todo mundo conhece. A Salomé foi uma mulher vilanizada. Ela não quer o assassinato de João Baptista, o que ela quer é dar um beijo. Fiquei intrigado com o poder do beijo na nossa sociedade. Então tratamos da filosofia do desejo, do erotismo”, afirma o ator.

Para Bagagal, a montagem busca conectar as pessoas. “Há momentos em que a obra deixa questões em aberto.” Cabe a cada um fazer suas próprias ligações. “Com Salomé, chego tanto a lugares muito obscuros, como os atentados terroristas, como a outros mais iluminados, como a busca pela feminilidade.”

Para a trilha sonora, Chico Neves criou temas inéditos e utilizou também elementos da ópera de Richard Strauss. Ainda há referências à música Kiss kiss kiss, de Yoko Ono.

SALOMÉ

Espetáculo solo de Diego Bagagal. Estreia hoje, às 19h, na Sala Multiuso do CCBB, Praça da Liberdade, 450, Funcionários. Temporada até 20 de março, de quinta a segunda-feira, às 19h. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia).

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