Brasileira Christiane Jatahy encena em Paris versão teatral de 'A regra do jogo'

Peça é inspirada em filme de Jean Renoir de 1939, e dá fôlego renovado à obra e à Comédie-Française

por AFP 28/02/2017 20:03

A brasileira Christiane Jatahy, autora, diretora e cineasta, aceitou um desafio e tanto. Encenar a A regra do jogo (La règle du jeu), adaptação do roteiro do filme homônimo de Jean Renoir, com a trupe da Comédie-Française a convite de Éric Ruf, administrador-geral do mais importante teatro nacional da França.

Eric Feferberg/afp
A diretora é uma das artistas convidadas a integrar a equipe do teatro mais tradicional da França (foto: Eric Feferberg/afp )
 

A diretora faz uma leitura contemporânea de um clássico do cinema, entendendo como clássico a obra que atravessa os tempos e permanece capaz de estabelecer diálogo com o tempo presente. O resultado demonstra que a diretora avança a passos largos em sua pesquisa sobre uma linguagem dramatúrgica em que coexistem e se fundem teatro e cinema, realidade e ficção, ator e personagem, ator e plateia.

 

Entretanto, ao final, a impressão que se instala, num primeiro momento de reflexão, é que o conteúdo é inferior à forma.
Imagem que se desfaz ao repensar a força da interpretação, a explosão do elenco transbordante de energia e prazer pelo trabalho realizado, presente em cada fala, em cada gesto. Esse talvez seja o grande trunfo do espetáculo, mais do que a habilidade de Jatahy em jogar com os códigos do cinema, vídeo, palco e teatro, A regra do jogo mostra a capacidade dela em conquistar a confiança dos atores, provando ser possível rasgar a tela e existir no palco.


Impossível não concordar com Walter Benjamin, toda obra é um conteúdo que se apresenta numa forma, e as relações de análise devem considerá-las em conjunto numa relação dialética em que a forma seja também conteúdo. Algumas reações na Sala Richelieu, na noite da estreia para imprensa e convidados, levam a crer que na segunda década do século 21 o espetáculo de Jatahy mostra que tem algo mais em comum com o filme de Jean Renoir: o poder de causar, em certa parte do público e da crítica, o mesmo desconforto causado em 1939.


Ver a Sala Richelieu transformada em cinema por 26 minutos e depois em karaokê deve ter influenciado a recepção morna de parte da plateia, convidados são quase sempre avaros em aplausos Nas redes sociais, as opiniões se dividem, com vitória para os comentários positivos. Quanto aos críticos, a primeira a se manifestar foi Laura Cappelle, do Financial Times: cotação de duas estrelas sobre as cinco possíveis. Stéphane Capron, do site sceneweb.fr, especializado nas artes do espetáculo, fala de “uma energia nova nessa Comédie-Française, da qual não mais poderemos dizer que ela é velha e empoeirada”.
A brasileira conquistou seu espaço nos palcos e nos jornais depois de encenar Júlia (adaptação da peça Senhorita Júlia, de August Strindberg) e E se elas fossem para Moscou? (baseada em As três irmãs, de Anton Tchékhov). Jatahy é a mais nova integrante de um restrito clube que tem entre seus sócios o russo Anatoli Vassiliev, os italianos Dario Fo e Giorgio Strehler, o americano Robert Wilson e o belga Ivo van Hove. Na relação dos “associados”, poucos são os diretores sul-americanos presentes: os argentinos Alfredo Arias e Jorge Lavelli e o colombiano Omar Porras.
O convite feito a Christiane Jatahy para dirigir a lendária trupe de Molière, com carta branca para as escolhas artísticas, aconteceu no momento em que Ruf resolveu consagrar a temporada 2016-2017 ao exercício da paridade homens-mulheres dirigindo os espetáculos a serem apresentados nos palcos das três salas que compõem essa verdadeira fábrica de espetáculos. As escolhidas foram, além de Jatahy, Anne Kessler, Anne-Marie Etienne, Katharina Thalbach, Deborah Warner, Véronique Vella e Isabelle Nanty.


Por outro lado, Éric Ruf (1969), assim como Stéphane Braunschweig (1964), diretor do Odéon Théâtre de l’Europe – do qual Jatahy é artista associada até 2020 e integra a geração de artistas nascidas após a criação do Ministério da Cultura (1959) –, são frutos de um país que conheceu a democratização e a descentralização cultural. Tiveram suas carreiras impulsionadas por elas e chegaram aos cargos de gestão que ocupam exatamente pela capacidade de buscar formas diferentes de teatro. No lugar de delimitar territórios, optaram por percorrer todos os possíveis.


A respeito de A regra do jogo, nada do que a crítica possa dizer tira o mérito de Christiane Jatahy: o de ter dado voz no exterior ao tão combalido e tão desprezado teatro. Uma voz que se fez ouvir e respeitar. Não é mais o simples convite a um espetáculo, uma troca de interesses entre festivais, essa é regra do mercado. Viu-se agora a exceção: a escolha de um artista brasileiro para dirigir a mais importante trupe nacional da França, na sala que é o berço de ouro do teatro francês.

 

Fazer com que essa escuta e esse respeito perdurem é a história a ser escrita pelos que fazem teatro no Brasil. Não há receita, há trabalho, competência e persistência, algo capaz de unir a sensualidade do teatro brasileiro com o impecável acabamento do teatro alemão. Um ponto não pode ser esquecido: o trabalho realizado por Henrique Mariano, que conseguiu furar o fechado círculo dos produtores e programadores europeus.


Num tempo de construção de redes, respaldado pelo talento da encenadora que produz, Henrique Mariano traçou planos e metas que colocaram Jatahy sob os refletores dos principais festivais internacionais. A consagração no palco da Comédie-Française abrirá inúmeras portas, mas não é fruto de sorte ou acaso, é sim resultado de duas décadas de trabalho, da artista e do produtor. Ambos nascidos no Brasil, onde não existem políticas públicas efetivas para as artes cênicas e muito menos políticas para difusão do teatro feito – muitas vezes bem feito – por nossos artistas. (Deolinda Catarina França de Vilhena/Estadão Conteúdo)

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