Matheus Nachtergaele encena em BH monólogo com os poemas da mãe

Espetáculo 'Processo de conscerto do desejo' fica em cartaz no CCBB até dia 27

por Márcia Maria Cruz 28/02/2017 20:03
Nem William Shakeaspeare (1564-1616) nem Molière (1622-1673) ou Ariano Suassuna (1927-2014). A “dramaturgia primeira” de Matheus Nachtergaele foi escrita por sua própria mãe, Maria Cecília, falecida em 1968, quando ele ainda era bebê. “Ganhei de herança uma dramaturgia”, diz o ator, referindo-se à pasta de poemas que recebeu quando era adolescente.

Leo Aversa/divulgação
Ator encarou o desafio de voltar aos palcos para revelar um drama pessoal (foto: Leo Aversa/divulgação)

Ultimamente dedicado ao cinema e depois de 10 anos longe do teatro, o ator encarou o desafio de voltar aos palcos para revelar um drama pessoal. “Mergulhei com veracidade no cinema”, explica. Desde janeiro, ele roda Piedade, de Claudio Assis, no litoral pernambucano. Depois de dirigir A festa da menina morta (2008), planeja filmar um longa baseado em Woyzeck, peça do alemão Georg Büchner.


Até dia 27, Matheus Nachtergaele vai apresentar a peça Processo de conscerto do desejo no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), na capital mineira. “Recebi os textos na adolescência. Quando tinha 16 anos, meu pai me contou a maneira como minha mãe morreu. Saber que ela tinha se retirado da vida me magoou, surpreendeu e modificou”, revela.


Com muitos amigos e parceiros de trabalho em Belo Horizonte – entre eles o cineasta Cao Guimarães e os artistas plásticos Cristiano Rennó e Rivane Neuenschwander –, Matheus comemora a temporada na cidade, que começa nesta quinta-feira, 02. “Serão 20 récitas. É uma boa para os amigos e os curiosos que estão em BH. A poesia é uma oração que vale a pena”, afirma.


Ao receber os 30 poemas, Matheus Nachtergaele experimentou diferentes sentimentos até decidir tornar públicos os versos escritos por Maria Cecília até os 22 anos, quando se suicidou. A subjetividade daqueles poemas o ajudou a se descobrir. Nesse processo, tomou contato com músicas e objetos de que ela gostava. “É um material íntimo que diz respeito ao meu amor primeiro. Foram mais de 30 anos de convívio com esses textos. Tive desde um encantamento profundo à tristeza absoluta até entender que eram bons poemas. Uma poesia autoral que merece ser mostrada.”


A ideia de montar a peça surgiu no ano passado, quando o ator recebeu o convite para participar do Festival de Teatro de Ouro Preto e Mariana. Na primeira montagem, leu os poemas acompanhado pelo violinista Luã Belik. “Anos atrás, aventei a possibilidade de fazê-la, mas iria bater de jeito pessoal. Seria uma peça neurótica. Não queria a exposição pura e simples do drama da mamãe”, explica.


Ao receber o convite, percebeu que havia chegado o momento, pois a dor havia sido suficientemente elaborada. Ele se sentiu preparado para propor algo além de seu drama pessoal. “Mais do que suicida, ela era mãe, esposa, mulher”, resume.

 

O espetáculo ganhou a forma do que Matheus chama de “conscerto” – trocadilho com duas palavras. Concerto demonstra a musicalidade da interpretação, enquanto conserto alude à restauração do desejo. “O que nos move é o desejo. Em última instância, o suicídio é a falta dele. Estou consertando o desejo da minha mãe de morrer. De certa forma, nego o gesto dela. Conserto o meu desejo em relação a ela. Não me dou ao direito de ficar embebido em lamúria.”


Matheus explica que não se trata propriamente de uma peça de teatro, mas de uma cerimônia “Tenho consciência, desde o Teatro da Vertigem, de que o trabalho do ator é um ritual”, afirma, referindo-se ao grupo paulista que se tornou referência das artes cênicas no Brasil.


O ator alerta para o fato de que não criou uma dramaturgia fechada. Também não pretende fazer teatro político. Quer reafirmar o teatro como o espaço mais adequado para o encontro neste mundo contemporâneo. “Encontro sem dogmas. É o lugar de todos os deuses”, reforça.

 

Matheus não segue religiões, prefere adotar a fé cambiante. “Sinto-me mais em Deus do que crendo em Deus. Sou parte desse mistério”, afirma. Ele não acredita que a mãe o esteja vendo de algum lugar, mas diz que ela volta a viver a cada dia em que ele sobe no palco para dizer seus poemas. “Ela está comigo de maneira poética, existe através de mim. O filho é a maior obra da mãe. É uma perpetuação”, acredita.


O figurino é o vestido preto criado por um amigo da grife mineira Ave Maria a partir de referências de um dos poemas de Maria Cecília. “É um vestido, uma bata”, diz. O espetáculo reúne a voz dele aos sons do violino e do violão, executados ao vivo.


A iluminação é econômica, assim como os elementos cênicos: uma cadeira, um leque e o vestido preto. Porém, Matheus ressalta: trata-se de uma peça luminosa. “É o filho ator que diz os poemas da mãe que se matou. A poesia e o amor venceram”, conclui.

 

HOMENAGEM

Matheus Nachtergaele adora Belo Horizonte. A cidade, aliás, o homenageou  este carnaval. O bloco Cintura Fina, que desfilou na Lagoinha, usou como  logomarca o rosto dele (foto), que fez o papel do lendário travesti na  minissérie Hilda Furacão, exibida pela Globo. “Gente, tem um bloco em BH que se chama Cintura Fina! Olha a logo deles! Rssssssss! Que massa!”, comemorou o ator em sua página no Facebook.

 

PROCESSO DE CONSCERTO DO DESEJO

Com Matheus Nachtergaele

Sessões até o dia 27. De quinta a segunda-feira, às 20h. 

CCBB, Praça da Liberdade, 450, Funcionários. 

Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada).

 

 

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