'Ensaio para Senhora Azul' evidencia a incompletude do feminino na atualidade

Com uma bela metáfora sobre a água, o texto de intensidade quase insana


Líquido. Já nos dizia o brilhante sociólogo Zygmunt Bauman em sua série: modernidade, amor, vida, tempos. Mas Kelly Crifer e Robson Vieira parecem somar aí algo mais: uma mulher. É essa a primeira sentença escrita na sinopse do espetáculo Ensaio para Senhora Azul: “Uma mulher líquida. Que despeja, molha, encharca e logo escoa, escorre”.

No decorrer das cenas da peça, em cartaz no Sesc Palladium de hoje a domingo, o líquido se faz presente quase todo o tempo. É a água que a atriz carrega em sua sacola e em um balde sobre a cabeça, com a qual brinca. Outrora é a água que encharca o tecido, as vestes, Crifer, que tenta vestir assim – em seu corpo –, em água líquida, uma personagem.

Mas o que há em uma mulher que como líquido não se retém nem em seu corpo, e que é exposto nessa arte? Em uma tentativa de dizer, na qual a loucura parece ser a forma de expressão, em um surto verborrágico surgem “nomes, números, cores, sons, formas, silêncios”, coisas que enlouquecem todos. Em uma metonímia rápida, quase sem pausas e vírgulas, constitui-se um texto que jorra da boca da artista e, por sua intensidade, se esvaem, aqui também com(o) água. A pergunta que insiste é se junto com as palavras rápidas e loucas escorre também algo da mulher.

Porém assistimos a uma peça em o que é mudo não deixa de ser audível, e quem sabe mesmo visível. A feminilidade se expressa como corpo a um só tempo instável e vigoroso pelos movimentos e gestos de Kelly Crifer, a atriz deste ensaio. Ela nos mergulha, desde os primeiros instantes, num redemoinho vertiginoso de sensações. Não bastasse ser coautora – com Grace Passô e Viviane Ferreira – de um texto impressionante, Kelly Crifer incorpora o enigma do feminino acessando, com precisão e fluidez fulminantes, suas faces e seus disfarces.


Através da enxurrada desse texto que parece desconexo e interrompido, a psicanálise nos ajuda a decifrar do ensaio e de toda essa escrita-corpo que não se constitui em definitivo, o que há de líquido nos sujeitos. O que se anuncia é que é exatamente a insistência de algo fluido, impossível de dizer de si, que se apresenta como trava destrancada, ou desencadeadora, da loucura da personagem de Kelly Crifer. Nessa medida, o texto da peça se torna mais do que apenas um ensaio sobre a loucura. O que artisticamente aqui se expõe é um ensaio sobre a mulher e sobre algo dela e de seu corpo que por não poder traduzir-se em nomes, números ou cores, enlouquece.

Em resumo – a psicanálise é quem diz –, todo sujeito é constituído, em corpo e em si, na correnteza da linguagem. Se é aquilo que dizem que é. Em uma imagem: é como se palavras, nomes, fossem sendo gradativamente depositados sobre um corpo, o constituindo, dando forma e definição. No fim, esse corpo em escrita é o que se reconhece como “eu”. Mas acerca de uma mulher o psicanalista Jacques Lacan revelou um “não-toda” e, se presente na sala do teatro onde se ensaia a Senhora Azul, diria que os responsáveis pela peça o entenderam, na medida em que traduzem, em um ato, a insuficiência da linguagem, do simbólico que faz corpo, para se dizer de uma mulher em todos seus pedaços.

Assim, na continuação deste ensaio, se viessem outras mulheres – como vêm –, de todas elas restaria uma parte sem ser dita, pois que é líquido, e escoa. Para Lacan não se podia escrever A Mulher, em maiúsculo, como sinal lógico de que não existe nenhuma que não esteja submetida a algo de si que não pode ser dito. Talvez por isso sobre a Senhora Azul, apesar de nomear a peça, seja de quem não se diz. Dessa que é toda água, toda líquida, só há ensaio, nunca uma peça. Não se pode mesmo sê-la, ou sabê-la, dizê-la. Não há medida ou referência para ser dita por inteiro.

O que resta é uma indagação quase enlouquecedora: “O que é ser mulher?” “Não sei, não sou homem, não sou mulher, sou parangolé”. É o parangolé que se desenrola na cena. Pois se não é possível ser A Mulher, nem mesmo acessar diretrizes, nomes, recortes, sons, cores, números que determinem, em decidido, o que é ser mulher, parece mesmo só ser possível ser um parangolé, uma mistura, meio louca, de várias medidas, de várias cores, de vários pedaços de várias outras. Talvez então, o que a psicanálise diga é que o que se mostra nesse teatro é um amontoado desordenado de tentativas de uma mulher de ser, em si.

Uma mais que se perdeu na falência da nomeação e na impossibilidade de um encontro definitivo – sempre encharcado, molhado – com a Senhora Azul. Não é chaleira, nem lesma, nem inteligente – pois aqui nem o nome recebido do pai obtura o buraco do “não” em ser toda dita. O que importa é que sentimos o cheiro da Senhora Azul. “O perfume corporifica a alma”, escrevem as autoras, “corporifica e passa rápido”. A Senhora Azul, cuja tragédia aos poucos se anuncia, é aquela que passa e desaparece. Seu perfume, todavia, signo sensível de sua natureza esquiva, desaparece mas fica.

 Onde estará a Senhora Azul? Cujos aromas impregnados na memória de quem a encontrou envelopa o registro múltiplo e atordoador de sua passagem? A Senhora Azul secou, passou, perdeu-se? Num silêncio sem despedidas, ela mergulha. Revelando-nos no espelho turvo das águas em que se abisma o mosaico de espectros que é o nosso em si. “Quem sabe você não é a Senhora Azul? Não? Gostaria de sê-la?” Os parangolés de Helio Oiticica vestiam, indistintamente, ator e público, rompendo, num gesto revolto, o espaço suposto entre a arte e a vida. A Senhora Azul é o pedaço de uma lucidez opaca, ou de uma loucura transparente, que habita sem se encaixar nos corpos de todos nós.

 “O fato é que eu achava que eu ia dar conta. A gente sempre acha isso.” Uma mulher sempre acha que vai, finalmente, se dizer toda, que vai aprender a controlar as crises da loucura diante o indecidível e insuficiente do amontoado de cores, números, nomes. Mas essa matéria é líquido fácil. Crifer, em cena, fala do sangue e da lágrima. A psicanálise e Bauman, em sua sociologia, diriam: a linguagem, para dizer de uma mulher em definitivo, decididamente, não passa de líquido.

Tal como a água que escorre, seca, o encontro com a Senhora Azul – que de alguma maneira parece encarnar para a personagem a promessa de uma medida do ser mulher – é apenas momento contingente. Escorre. O fio da meada se perde quando uma mulher diz de si, porque ela nunca se mantém dita por inteiro. A Senhora Azul não existe, é apenas um vislumbre, uma miragem. Parece mesmo loucura dizer “Dela”. Por isso é apenas um ensaio, porque o ser de uma mulher não jorra, pinga. E ainda que se passe a vida – ou a cena – para juntar tudo isso, seca.

O que o discurso quase desconexo de Crifer evidencia então é a insanidade do sujeito em sua tentativa de ser, ou de constituir, A Mulher ou A Senhora Azul – se lhe inventamos um nome. Diante o impossível líquido do feminino – que no mesmo tempo em que encharca, seca – uma mulher pode encontrar várias maneiras de suportar a parte de si que não é dita: uma arte, uma invenção, um nome que demore mais para escorrer, ou a loucura de ensaiar sempre em encontrar, ou em ser, a Senhora Azul.

 Pâmella Fernandes Freitas é psicanalista e mestranda em estudos psicanalíticos pela UFMG; Guilherme Massara Rocha é psicanalista e professor do Departamento de Psicologia da UFMG.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE TEATRO