Titane e Túlio Mourão fazem show-manifesto, no VAC, em reação à tragédia de Mariana

O álbum Paixão e fé convoca à reflexão sobre ameaças à natureza e ao patrimônio cultural de Minas

por Márcia Maria Cruz 27/01/2017 08:00

Eliane Gouvea/divulgação
Túlio Mourão e Titane em Congonhas, cidade castigada pela mineração onde foi gravado Paixão e Fé (foto: Eliane Gouvea/divulgação)

Com a chegada do progresso, o poeta denuncia a partida dos pássaros. Só restam buzinas e sirenes roucas. A melancolia do poema Anoitecer, de Carlos Drummond de Andrade, musicado por Zé Miguel Wisnik, pede calma ao corpo e fala de um tempo em que as pessoas se tornam espesso óleo, a multidão em que não se veem subjetividades. O poema-canção é uma das faixas do CD Paixão e fé, que a cantora Titane e o compositor e pianista Túlio Mourão vão lançar neste sábado (28), no Teatro Bradesco, na programação do Verão de Arte Contemporânea (VAC).

O disco foi gravado nas salas de romaria do Museu de Congonhas, situado no complexo do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, onde ficam os profetas de Aleijadinho. A gravação se deu em momento emblemático: a data que relembrou um ano do rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana, o maior desastre ambiental do Brasil. “Dedicamos o show às pessoas que não se acomodam e vão à luta”, afirma Titane.

A ideia do CD surgiu como resposta a 2016, “ano de surpresas, perdas e muita perplexidade”, revela a cantora. “Estávamos diante de muitas ameaças à roda da história, que está girando no sentido contrário.” Dialogando com os desafios destes tempos, Titane relê Minas a partir dos impactos da atividade econômica sobre a vida humana, a natureza e o patrimônio histórico e cultural. Além de Anoitecer, o disco traz as faixas Folia de pretos, de Luiz Theodoro e Henrique Gomes; Promessas do sol, de Milton Nascimento e Fernando Brant; e 4 e 15 ou 10 p/3, de Chico Cesar.

A artista, que participou ativamente da ocupação da Funarte em protesto contra o governo Temer, realizada no ano passado, ressalta o caráter abrangente do CD,  apostando na dimensão crítica e reflexiva da arte para trazer indagação e sensibilização. Ao longo da parceria de muitos anos, a dupla foi escolhendo espontaneamente o repertório. Titane e Túlio perceberam que as canções tinham em comum o diálogo com elementos centrais da identidade mineira, como folias de reis, congado e festas populares do Vale do Jequitinhonha.

A dupla busca o diálogo com as forças sociais que afloram neste Brasil conturbado. “O trabalho nasceu nesse contexto de empoderamento. Diante da perda de direitos, emergiram as forças feminina, negra, LGBT e da agricultura familiar”, pontua Titane. O CD e o show, ressalta, vêm defender “as montanhas e as águas, contra as regras que regem a mineração”.


TRAGÉDIA Para Titane, o rompimento da Barragem do Fundão, em 5 de novembro de 2015, chama a atenção para o impacto predatório da mineração no estado. O episódio foi relembrado por ela ao ser convidada a cantar no Museu de Congonhas. Na cidade, veio a perplexidade com o risco que o patrimônio da humanidade corre diante da ideia de progresso. “Congonhas tem uma obra deslumbrante margeada pela mineração. A barragem de detritos de lá é maior do que a de Fundão, que se rompeu”, adverte. Há o temor de que um acidente possa ocorrer lá, atingindo os profetas de Aleijadinho.

Diante desse perigo ambiental, o repertório de Paixão e fé ganha outra conotação. Titane ressalta que a relação entre progresso e destruição se tornou tema recorrente na obra de artistas mineiros. É o caso de Ponta de Areia, parceria de Fernando Brant e Milton Nascimento. “Não é cantar a mineiridade. A canção fala da noção de progresso confundida com destruição”, explica, ressaltando também Triste horizonte, poema de Drummond que chamava a atenção para a destruição da paisagem de BH causada pela atividade mineradora.

No palco, a dupla adota o formato voz e piano. “O show tem momentos densos e de alegria, porque acreditamos ser possível construir outra forma de viver”, afirma Titane. Túlio Mourão diz que o que os une é a convicção de que as perdas humanas, sociais e culturais “não são dimensionáveis na miserável moeda e na ordinária cronologia das tragédias cotidianas”.

Três perguntas para
Túlio Mourão
Compositor e pianista


Como Paixão e fé denuncia a tragédia de Mariana?
Paixão e fé reúne canções, algumas geradas nessas regiões, outras de artistas que têm diálogo e reflexão sobre essas culturas – canções que exibem seu genuíno encanto e ainda outras que exalam pura perplexidade. Vemos, de um lado, comunidades carentes, gente humilde, mas detentora de precioso tesouro humanista em forma de cultura singular, espontânea, local – tão única quanto vulnerável. Pessoas que nos trazem lições de vida, resistência e coragem, longe dos vórtices consumistas. De outro lado, o imediatismo cego, o vício corporativista e a inércia conservadora impedem que a questão humana tenha mais espaço e peso na formulação da equação econômica.

Como Congonhas aparece no trabalho?
Os profetas talhados por Aleijadinho no adro da Matriz de Bom Jesus de Matosinhos ganham destaque no projeto como elementos de grande valor simbólico e convergência metafórica. Atravessam séculos, seja na memória bíblica, seja na pedra corroída de descaso onde sustentam o olhar grave e o dedo em riste apontando o impressionante horizonte de montanhas consumadas. Prenunciam o aparecimento de avatares, a ascensão e queda de poderosos. Inclementes denunciadores de incúria e devassidão, mais que tudo desafiam presentes e futuras gerações a encarar imutáveis e atualíssimos dilemas da transitoriedade e renovação. Podemos dizer que, no adro dos profetas, mais que tempo, minério e poluição, é a indiferença que segue em seu ofício corrosivo.

Vocês cantam Anoitecer, poema de Drummond musicado por Zé Miguel Wisnik. O que motivou esse resgate?
Nossos grandes poetas, como Carlos Drummond de Andrade, configurados como modernos profetas, são convidados a compartilhar na moldura de canções ou recitativos. Apresentamos a palpitante inquietação e o inconformismo deles diante do que se configura hoje como consumados crimes ambientais e dolorosas perdas culturais e sociais. Os poemas têm o poder de transitar sem resistência, desviando-se de interesses e partidarismos de quaisquer espécies e impondo a transcendente magnitude humana que exala de nossas tragédias cotidianas, no que as resgatam de obscena banalização.

PAIXÃO E FÉ
Com Titane e Túlio Mourão. Sábado (28), às 21h, no Teatro Bradesco (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes). Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)

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