Grupo de teatro Encena se despede hoje da 43ª Campanha de Popularização Teatro & Dança com 'Interlúdio - A morte e a donzela'

Adaptação da obra de Ariel Dorfman examina as cicatrizes da ditadura

por Silvana Arantes 22/01/2017 20:03

Interlúdio – A morte e a donzela, adaptação da obra de Ariel Dorfman pelo grupo Encena, faz hoje sua última apresentação na 43ª Campanha de Popularização Teatro & Dança de Minas Gerais, no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, às 20h.

GUTO MUNIZ/DIVULGAÇÃO
'Interlúdio %u2013 A morte e a donzela' está em cartaz no CCBB (foto: GUTO MUNIZ/DIVULGAÇÃO)
 

Em poucas montagens dessa Campanha o rótulo de “teatro adulto” se encaixa tão bem, dada a profundidade das questões propostas pelo texto de Dorfman e a constante tensão subjacente a ele, que a direção de Wilson de Oliveira foi capaz de levar ao palco.

A ação dessa peça estreada em 1991 se passa num indeterminado país latino-americano em que a prática da tortura por um regime ditadorial pertence a um passado recentíssimo. Ou melhor, suas marcas são o presente nos dias e noites de angústia da protagonista Paulina Salas (Christiane Antuña), detida, torturada, violada e liberada pelo regime, 15 anos antes, sem delatar seus companheiros de militância, entre os quais seu atual marido, o ativista de direitos humanos Gerardo Escobar (Gustavo Werneck).

Escobar acaba de aceitar do presidente o convite para integrar a Comissão da Verdade para a elucidação dos crimes da ditadura e a formulação de propostas de reconciliação. Uma pane no carro a caminho de casa deixa-o vulnerável na estrada. Mas ele encontra a solidariedade de um estranho, o médico Roberto Miranda (Nivaldo Pedrosa), que lhe dá carona e aceita ser seu hóspede, mas termina por tornar-se refém do casal, quando Paulina pensa ter reconhecido nele um de seus torturadores. Na verdade, o mais abjeto deles, por se tratar não de um bruto obtuso, mas de um ilustrado apreciador de Schubert e Nietzsche.

OPOSTOS Como testemunha o sucesso da peça, que não ficou restrito à América Latina, mas se estendeu também à Europa e aos Estados Unidos, Dorfman constrói um engenhosíssimo ménage à trois psicológico com um jogo de espelhos antinômico em que cada personagem revela-se também o seu oposto. Paulina é torturada e torturadora; Escobar é destemido e covarde; Miranda é compassivo e sádico. Tamanha densidade exige de seus intérpretes tanto força para navegar por tais variações como sutileza para não deixar o esforço transparente. Nessa montagem do Encena, Pedrosa sai-se especialmente bem na tarefa de imprimir a Miranda a ambiguidade de um personagem que mantém o espectador permanentemente incerto sobre seu caráter (tanto na situação presente quanto no passado).

Ao escolher a situação-limite da tortura como sua pedra de toque, A morte e a donzela vai no cerne das indagações sobre como lidar com o crime, o perdão, o desejo de vingança, a falibilidade da justiça e da democracia, não apenas no âmbito das definições teóricas, mas sobretudo nas implicações psicológicas dos atos de quem se viu posicionado de um lado ou de outro da linha divisória entre a civilização e a barbárie.

Não é casual que o grupo Encena, criado há mais de 30 anos com a ambição de não perder de vista o corpo a corpo entre o fazer artístico e a realidade imediata dos que se dedicam a ele, tenha escolhido montar esse texto no conturbado ano de 2016 (a estreia de Interlúdio – A morte e a donzela data do ano passado).

A situação movediça em que a política brasileira mergulhou, sem contudo ser o único exemplo mundial de um embaralhamento aparentemente autofágico do jogo democrático, proporciona à obra de Dorfman uma atualidade da qual o autor não deve se orgulhar. A não ser pelo fato de ter conseguido condensar na trama de uma noite na vida de três personagens encerrados numa casa tudo o que há tanto de humano quanto de estranho em cada um de nós.

Interlúdio – A morte e a donzela
Direção: Wilson de Oliveira. Com Christiane Antuña, Gustavo Werneck e Nivaldo Pedrosa. Hoje, às 20h. No CCBB (Praça da Liberdade, 450; 31. 3431-9400). Ingressos: R$ 20 e R$ 10.

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