Veteranos do riso e campeões de bilheteria contam ao EM o que mudou na vida deles

Campeões de bilheteria em Minas, Maurício Canguçu, Carlos Nunes e Raul Starling estão em cartaz desde a década de 1990. O trio de atores soube se adaptar às transformações do Brasil

por Márcia Maria Cruz 22/01/2017 10:08
Beto Novaes/EM/D.A.Press
Carlos Nunes ensinou muita gente a se virar em festa de anfitrião pão-duro (foto: Beto Novaes/EM/D.A.Press)
Três mineiros estão no seleto grupo de atores há mais tempo em cartaz com o mesmo espetáculo nos teatros brasileiros. Desde 1998, Maurício Canguçu e Ilvio Amaral protagonizam Acredite, um espírito baixou em mim. Desde 1999, Raul Starling apresenta Perigo! Mineiros em férias. Carlos Nunes é o astro de Como sobreviver em festas e recepções com buffet escasso, que estreou em 2000. Todas essas comédias estão em cartaz na 43ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, em BH. Entraram na programação do evento no ano seguinte às respectivas estreias. Desde então, atraíram cerca de 5 milhões de espectadores – estão entre as peças mais assistidas em Minas Gerais. Maurício Canguçu, Raul Starling e Carlos Nunes contaram ao Estado de Minas o que mudou na vida de cada um deles e no Brasil desde a estreia de seus bem-sucedidos espetáculos.

Acredite, um espírito baixou em mim estreou em 30 de julho de 1998, no mesmo dia em que o EM destacava a primeira sessão de Parabelo, do Grupo Corpo, no Palácio das Artes. “Era um jovem ator. Tinha acabado de sair de uma novela na extinta TV Manchete”, relembra Maurício Canguçu, que morava no Rio de Janeiro e guardou na lembrança o Tempra azul que dirigia. “Era chiquérrimo ter um Tempra 16 válvulas”, conta. Se a estreia na campanha de popularização foi um marco na carreira, a época foi de tristeza na vida pessoal. Em 1º de fevereiro de 1999, morreu seu pai, Guilardo Canguçu de Carvalho. “Por movimentos inexplicáveis do universo”, diz o ator, a sessão daquela noite fora cancelada havia 10 dias. “Orgulhoso, ele contava para todo mundo que o filho fazia muito sucesso”, revela.



Desde a primeira temporada, a peça foi líder de audiência na campanha. Acredite... permitiu a Canguçu viajar para o exterior levando a mãe, Maria Flora, a maior incentivadora de sua carreira. “A gente é do Vale do Jequitinhonha. Em Nova York, estava muito frio. Brincávamos que tínhamos saído do lugar do pé rachado. Ela dizia pra gente ficar quieto, porque o povo escutaria”, recorda. Em 2014, exatamente no dia em que a peça completou 16 anos, Maria Flora morreu.

De 1998 para cá, muita coisa mudou. “Acredite... é comédia de costumes, mas não falamos de Whatsapp, e-mail e celular, pois não tinha nada disso naquela época. Até hoje apareço em cena com um telefone sem fio. Era chiquérrimo, faço questão de mantê-lo”, diz Maurício. Na época, o ator alugava uma linha telefônica, o que era caríssimo. “Na Galeria do Ouvidor, havia empresas que tinham centenas de números de aluguel”, relembra.

A peça contava a história do espírito de um homossexual que voltava à Terra. O desfecho era bastante inovador para a época, com final feliz para a relação entre dois homens. “O espetáculo estreou há quase 19 anos, quando havia um preconceito terrível, e as pessoas torciam por aquela relação”, diz Canguçu. Leve, a comédia tratava a questão naturalmente, sem levantar bandeiras.

Danilo Mendes / Divulgação
Raul Starling (sentado) faz o papel de Edgard Bonfim há 17 anos (foto: Danilo Mendes / Divulgação)
O eterno Edgard Bonfim

Perigo! Mineiros em férias estreou em 4 de novembro de 1999. Naquele dia, a manchete do EM destacava os entendimentos entre os presidentes Fernando Henrique Cardoso, do Brasil, e Fernando de la Rúa, da Argentina, para a criação de moeda única para o Mercosul. Raul Starling é neurocirugião – especialidade que exige do médico disponibilidade a qualquer momento. A carreira dele como ator começou aos 45 anos, quando ingressou no Centro de Formação Artística (Cefar) da Fundação Clóvis Salgado. “Aprendi a cantar e dançar. O teatro mudou a minha vida”, diz ele. Seu primeiro protagonista foi Edgard Bonfim, um funcionário público mal-humorado. Raul faz esse papel até hoje. Desde 1999, interpretou Edgard em todas as campanhas de popularização.

Antes de entrar no palco, Raul sempre confere o celular para saber de seus pacientes. Em 2002, recebeu a mensagem de que a saúde de um deles havia piorado. “Disse aos colegas que não poderia fazer a peça. Fui para o hospital operar o paciente. Salvei a vida dele”, revela. Detalhe: em quase 17 anos de campanha, ele não conseguiu fazer o que manda a peça. Nunca foi para a praia com a família nas férias.

Do barquete ao canapé

Como sobreviver em festas e recepções com buffet escasso estreou em 12 de junho de 2000. A manchete do EM trazia a foto do tenista Gustavo Kuerten, que conquistara o bicampeonato do Torneio Aberto da França, tornando-se o número 1 no ranking mundial. O ator Carlos Nunes diz que as dicas para enfrentar recepções “pão-duras” são praticamente as mesmas, quase 17 anos depois da estreia da peça. Em 2000, o Brasil também passava por uma crise. Porém, se a economia não é motivo de alegria, ele acredita que as festas sempre guardam surpresas. Ano após ano, um salgadinho se torna vedete, principalmente nas recepções de casamento. A comédia fala do barquete, aquele “barquinho” de massa com legumes e maionese. O ator lembra que, depois disso, veio a moda dos canapés.

Leandro Couri/EM/D.A.Press
Maurício Canguçu: em cartaz desde 1998 com Acredite, um espírito baixou em mim (foto: Leandro Couri/EM/D.A.Press)


Na abertura da peça, Nunes manteve a citação ao programa Fome Zero, implementado pelo governo Lula (2003-2010). “Troquei, tentei outras coisas, mas as pessoas não riam. Então, voltei com a informação de que o espetáculo é recomendado pelo projeto Fome Zero”, diz. Quando estreou, Carlos não tinha carteira de motorista, pois acreditava que jamais ganharia dinheiro para comprar um carro. No entanto, Como sobreviver... mudou a vida dele. A bilheteria financiou o apartamento onde mora e o automóvel que dirige. “Quando a peça estreou, as pessoas me ligavam bêbadas, de madrugada, para falar que os conselhos tinham dado certo. Contavam ter conseguido pegar dois salgadinhos”, diverte-se.

Durante as temporadas, Carlos também passou por momentos difíceis. Em 2014, a mãe dele morreu durante a campanha de popularização. “No hospital, ela me disse que se morresse eu deveria fazer o espetáculo. Ela morreu às 9h, e às 21h eu estava no palco. Avisei que não queria que ninguém falasse nada comigo. As pessoas se divertiram, riram muito. No final, anunciei que o espetáculo daquela noite era homenagem à minha mãe. Foi um silêncio como nunca vi. A dor era minha, não era das pessoas, mas elas foram muito solidárias”, conclui.

ACREDITE, UM ESPÍRITO BAIXOU EM MIM
Hoje, às 19h, no Cine Theatro Brasil Vallourec, Praça Sete, Centro, (31) 3201-5211. E de 9 a 19/2, no mesmo local, de quinta-feira a sábado, às 21h; domingo,
às 19h. R$ 15 (postos do Sinparc)

COMO SOBREVIVER EM FESTAS E RECEPÇÕES COM BUFFET ESCASSO
Hoje, às 19h, no Palácio das Artes,
Av. Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. De 2 a 5/2, no Teatro Sesiminas. De quinta-feira a sábado, às 21h; domingo, às 19h. R$ 15 (postos do Sinparc)

PERIGO, MINEIROS EM FÉRIAS
Até 29/1, no Teatro Nossa Senhora das Dores, Av. Francisco Salles, 77, Floresta, (31) 3226-9459. Sexta-feira, às 21h; sábado, às 19h e 21h; domingo, às 20h.
De 2 a 5/2, no Teatro Francisco Nunes.
De quinta-feira a sábado, às 21h; domingo, às 19h. R$ 15 (postos do Sinparc)

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE TEATRO