Adyr Assumpção ''vira'' mulher em peça sobre desigualdade de gênero

No monólogo Nossa Senhora da Açoteia, em cartaz hoje pela 43ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, artista mineiro interpreta texto do português Luis Campião

por Pedro Galvão 17/01/2017 08:00
João Diniz/Divulgação
João Diniz/Divulgação (foto: João Diniz/Divulgação)
A história é sobre mulheres. O texto fala de como elas atravessam gerações assoladas pelo subjugamento masculino e pelas desigualdades impostas pelas sociedades patriarcais. Curiosamente, no palco está um único homem, dando voz a todas essas questões femininas. Com essa estrutura aparentemente controversa, o espetáculo Nossa Senhora da Açoteia, de Adyr Assumpção, entra em cartaz hoje na 43ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, no Cine Theatro Brasil.

“Procurei várias conhecidas para me dirigir, mas decidi fazer eu mesmo.” Ciente da estranheza que pode causar uma peça sobre o ponto de vista feminino dirigida e estrelada por um homem, Adyr se mostra tranquilo e seguro pela escolha de ele mesmo assumir o monólogo sobre o texto do português Luis Campião. A obra, de título igual ao da peça, rendeu ao escritor o prêmio Luso-Brasileiro de Dramaturgia Antônio José da Silva, em 2012, quando ele tinha 35 anos.

Campião escreveu sobre as memórias das mulheres de sua família, radicada no Algarve. O texto transmite as experiências de sua bisavó, avó e mãe em relação aos homens. A posição de inferioridade, a vida dedicada a servir, as frustrações e a consequente dependência masculina dessas figuras são os pontos principais na observação descrita por ele. Na adaptação criada por Adyr, a ambientação original, no Sul de Portugal, onde Açoteia é um terraço sobre as casas, é descartada. “Criei um espaço indeterminado e contemporâneo para tornar a discussão proposta mais universal”, explica o diretor

Com uma carreira nacionalmente reconhecida nas artes cênicas e um currículo que inclui direção artística do Projeto Pixinguinha, da Funarte, além da militância em movimentos voltados para a arte negra, Adyr Assumpção estava há tempos com vontade de escrever sobre o universo feminino a seu redor. Por uma coincidência do destino, encontrou a obra do escritor português. O diretor mineiro era um dos jurados no concurso em que Campião foi premiado. “Era justamente o que eu pensava em escrever”, diz Adyr, que adaptou o texto para o monólogo teatral, em que ele se caracteriza como mulher para contar ao público as memórias das antepassadas do autor.

Desafio “É um desafio para o ator não fazer uma representação estereotipada e não usar recursos preconceituosos. Nossa sociedade é machista e por mais que façamos uma leitura mais generosa e aberta, sempre corremos o risco de ser parciais e não encontrar a profundidade do universo feminino.” Para virar mulher no palco, Adyr contou com o apoio das produtoras Neide Viviani e Jane Porto. A construção da voz e do figurino passou pelas parcerias.

Interpretar uma mulher, além de não ser novidade, não foi o maior problema para Adyr na peça. Com as questões de gênero em destaque e uma óbvia reivindicação de protagonismo feminino em todos os setores da sociedade, ser homem e falar em nome das mulheres é algo extremamente delicado. E o artista sabe disso. “É uma peça originalmente feita por um homem. Esse achado dele parece tecnicamente imbatível. Ele precisa dessa contradição para realçar o que ele quer contar, já que o enredo traz todo um mistério associado a isso”, explica.

A ousadia da proposta parece ter agradado, pelo menos em sua primeira exibição em BH, no segundo semestre do ano passado, quando esteve em cartaz no Francisco Nunes. “A resposta que mais me encantou foi das mulheres, que se disseram empoderadas depois de assistir à peça. Várias delas me confidenciaram isso e foi muito satisfatório”, relata o ator e diretor.

Apesar do viés engajado e dessa possibilidade de fortalecimento feminino, Adyr Assumpção se exime de qualquer proposta diretamente revolucionária na peça e até assume que o espetáculo tem um lado mais lúdico do que assertivo. “Procurei não ser maniqueísta no sentido de não direcionar uma leitura. O texto permite cada um tirar as próprias conclusões sobre a história, mas, de maneira divertida, é uma oportunidade para o exercício da empatia e da reflexão sobre a dificuldade de os homens entenderem as mulheres como iguais, como parceiras”, argumenta.

NOSSA SENHORA DA AÇOTEIA

Texto de Luis Campião. Direção, adaptação e interpretação de Adyr Assumpção. Hoje e amanhã, às 21h, no Cine Theatro Brasil Vallurec (Av. Amazonas, 315, Centro). Ingressos: R$ 15 (Sinparc). Classificação: 14 anos

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