Arte para todos: EM acompanhou peça teatral adaptada para surdos

A 43ª edição da Campanha de Popularização de Teatro e da Dança incorporou espetáculos com acessibilidade na programação que vai até 19 de fevereiro em Belo Horizonte.

por Márcia Maria Cruz 16/01/2017 08:00
Juarez Rodrigues/EM/D.A PRESS
Juarez Rodrigues/EM/D.A PRESS (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A PRESS)
Imagina amante das artes, que não consegue ir ato teatro, cinema e galerias porque as obras estão numa língua que ele não domina. A situação, que parece vivida por um turista num país estrangeiro, é a realidade de 3% da população brasileira formada por surdos, de acordo com dados do IBGE. A maior parte deles aprendeu, antes do português, a língua brasileira de sinais (Libras), fazendo-a, portanto, sua primeira língua. Mas raríssimos são os espetáculos e exposições que têm intérprete ou que são concebidos levando em conta a acessibilidade. A 43ª edição da Campanha de Popularização de Teatro e da Dança incorporou espetáculos com acessibilidade na programação que vai até 19 de fevereiro em Belo Horizonte.



No entanto, não existem regras para as artes – apresentações teatrais, dança e exposições – a exemplo do que ocorre para os produtos do audiovisual. Para avaliar a acessibilidade nas peças, o Estado de Minas convidou o arquiteto Ademar Álves de Oliveira Júnior, de 28 anos, que ficou surdo aos nove meses, em decorrência de uma meningite, para assistir o espetáculo Memórias de Ana, no Sesc Palladium.

O intérprete de Libras segue protocolos para garantir que a cena seja inteligível: usar roupa contrastante com o tom da pele; não usar brinco, roupas estampadas e cabelo solto. “Existem regras básicas para a profissão (posicionamento, vestimento, rigor) que servem tanto para a TV quanto para o teatro. Mas não existem determinações específicas para o teatro e as artes, campos muito livres. São vários cenários, luz de palco, cenas, roteiros e disposição dos atores no palco. Às vezes, o palco é grande. Tem atores muito distantes um dos outros. A luz, a cor da luz, tudo interfere no trabalho do intérprete”, diz a professora do Departamento de Comunicação da UFMG, Regiane Lucas Garcez, especialista no tema, intérprete de libras e filha de pais surdos.

Amante das artes, Ademar, mesmo se sentido estrangeiro no seu próprio país, tenta superar a falta de acessibilidade para ter fruição estética. “Há muitos anos, frequento espetáculos de dança, teatro e cinema. Gosto muito de programas artísticos e culturais, mas falta acessibilidade, principalmente no teatro”, afirmou. Na seção de Memórias de Ana, pela primeira vez na vida, ele entendeu do que se tratava a animação do início da sessão. “Eram orientações de segurança e dicas para a desligar o celular. Até então, achava que era uma historinha”, afirma. Como ele foi ao espetáculo acompanhado por Regiane, coube a ela informar o conteúdo da vinheta de abertura, que embora tenham cenas animadas, não tem legendas nem intérprete.

O espetáculo Memórias de Ana foi idealizado pela atriz Dinalva Andrade com o propósito de ser acessível. Para isso, ela interpreta usando libras, há aspersão de cheiros, uso de mímica e outros elementos para aguçar outros sentidos. Formada em artes cênicas pela UFMG, Dinalda elaborou a pesquisa sobre acessibilidade para o trabalho de conclusão de curso. Para a montagem, convidou para dirigir Oscar Capucho, que é cego, e contou com a consultoria de Carlos Cristian, que é surdo. “A ideia era construir um espetáculo completamente acessível. Ele foi concebido desde o início levando em conta a acessibilidade, não é uma adaptação”, afirma.

Ademar aprovou a peça e pretende recomendar a outros surdos, que, em sua maioria, não consomem cultura por falta de acessibilidade nos espetáculos. Na avaliação dele, porém, em alguns momentos, os três elementos da cena (a atriz ouvinte que fala o texto, Dinalva que usa libras e as projeções) não estão em harmonia de modo a facilitar a compreensão do sentido. Para ele, isso se deve ao fato do tempo de fala do português ser diferente do tempo dos sinais. Outro ponto que ele critica é que não fica claro se Dinalva interpreta o mesmo texto falado pela outra atriz com quem divide a cena. E não é o mesmo. Em sua avaliação, podem ser feitos alguns ajustes, no entanto, aprovou. “A peça tem alto potencial de inovação e merece ser assistida”, recomenda.

Ele adorou a aspersão do cheiro, o que o ajudou a compreender o contexto de muitas cenas. Ademar lembra que esse recurso deveria ser usado em exposições de artes plásticas, por exemplo. Muitas vezes, há uma instalação ou performance cujo sentido se completa com o áudio. Ele lembra de um vídeo da exposição ComCiência, de Patrícia Piccinini, no CCBB, sobre a respiração. Era uma referência à garganta o que ficava claro devido ao som da respiração. No entanto, Ademar achou se tratar de outra parte do corpo uma vez que não podia contar com o áudio para criar o contexto. Só na quarta visita descobriu o que era ao falar com arte educador que sabia Libras.

No caso de espetáculos com o intérprete, Ademar lembra que eles tiram a atenção do foco da cena. “Certa vez, estava numa peça todo mundo ria, mas só vendo o intérprete, não conseguia entender. Parei de prestar atenção no intérprete para olhar o ator em cena e aí pude rir também”, conta. Os espetáculos de dança são os que possibilitam experiências mais intensas a Ademar.

Regiane pontua os complicadores de alguns cenários para a atuação de intépretes. “Fui a uma peça que o cenário era uma cadeia e a gente assistia envolta dela. Igual espetáculo de circo, a lona é redonda. Onde você vai colocar o intérprete?”. Para Regiane, aos poucos, os meios culturais vêm incorporando a legislação, mas de forma lenta. As exigências nos editais de cultura por acessibilidade vêm contribuindo com a mudança.

A Associação Brasileira de Normas Técnicas, em normatização de 2009, regulamenta os parâmetros para a janela de língua de sinais em vídeos ou televisão. A determinação é que o intérprete ocupe um quarto da tela na vertical, tamanho esse que garante boa visualização. De acordo com Regiane, no entanto, o cumprimento é irregular nos produtos de TV (publicidade, culturais ou políticos). Na avaliação de Regiane, o ideal é que a classe artística se envolva na criação de produtos acessíveis. Em sua avaliação, melhor do que adaptar os espetáculos é pensar na acessibilidade desde a gestação da proposta.

Para tentar sanar o problema de divisão da atenção entre a cena e o intérprete, os profissionais optam por ficar atrás do ator. Outra dica são os artistas anteciparem os roteiros para que os surdos possam se preparar. “O intérprete precisa usar de estratégias de posicionamento para demonstrar o diálogo se houver duas pessoas em cena. Se ele não fizer isso, o surdo vai entender que é a mesma pessoa falando.” Outro problema é quando o intérprete fica de costas para a cena.

Regiane vivenciou essa dificuldade no espetáculo A bela adormecida, do Giramundo, parte da programação da campanha, que levou a sobrinha Yara de Oliveira Teixeira, de 12 anos, que é surda, para assistir. “O intérprete estava de costas para a cena e o foco da luz não estava diretamente sobre o intérprete.” Outra questão é o número de espetáculos com acessibilidade. “A campanha tem que ter preocupação maior”, afirma, explicando que é limitado o número de espetáculos que contem com o recurso de interpretação em Libras, assim mesmo, em sessões específicas. Memórias de Ana é concebida para esse público. Por isso, tem acessibilidade em todas as sessões. Em outros a acessibilidade é em sessões específicas.

O QUE DIZ A LEI

A legislação brasileira prevê acessibilidade ampla e irrestrita para as pessoas surdas e com deficiência de modo geral, para garantir equidade de acesso. Tudo o que uma pessoa ouvinte, uma pessoa que anda consegue acessar, as outras que não ouvem e não enxergam deveriam conseguir também. No Brasil, há conjunto de leis que preconiza a equidade do acesso das pessoas com deficiência: Lei da Acessibilidade (5.462/2004); Lei Brasileira de Inclusão (13.146/2015); Convenção Internacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, de 2008, que foi incorporada legislação brasileira em 2009. A lei de 2004 preconiza que órgãos públicos têm essa obrigatoriedade, detalhando essa acessibilidade em diversas áreas. No caso dos surdos, ainda há lei de 2002, regulamentada em 2005 pelo decreto 5626, que determina acessibilidade específica para língua de sinais.

MEMÓRIAS DE ANA
Direção de Oscar Capucho e lenise Moraes, com Andressa Miranda e Dinalva Andrade. Dias 17 de fevereiro, às 20h; 18/02 (sábado), às 17h e 20h, 19/02 (domingo), às 19h, no Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro). Ingressos: R$ 10 (Sinparc) e R$ 30 (inteira) e R$15 (meia), na bilheteria do teatro.

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