Espetáculo infantojuvenil Aprendiz de feiticeiro chega a BH

Estrelando a peça, Maurício Machado conta sua batalha para se tornar um ator reconhecido

07/01/2017 13:12
Juarez Rodrigues / EM / D.A Press
Até trabalhei com animação de festa infantil e fui vendedor de loja para poder ganhar dinheiro, porque viver de teatro sempre foi complicado (Maurício Machado, ator) (foto: Juarez Rodrigues / EM / D.A Press)
Com apenas 12 anos, Maurício Machado – hoje com 44 – foi taxativo e avisou à família: “Quero ser ator”. A reação do pai, um padeiro descendente de português, não poderia ter sido pior. “Apesar de ele frequentar teatro toda semana, não admitia que um filho se tornasse ator. Falava que era coisa de veado. O sonho do meu pai era que eu estudasse em Coimbra e me tornasse diplomata”, conta.

Mas, contra tudo e contra todos, esse carioca do subúrbio foi atrás do que queria e não só se tornou um ator com carreira consolidada, principalmente nos palcos, como é dono do próprio teatro, J. Safra, aberto em julho de 2014, na Barra Funda, em São Paulo, com capacidade para 700 espectadores.

Ao longo dos quase três anos de funcionamento, a casa já recebeu grandes nomes da cultura do país – Nathália Timberg, Gal Costa, Cauby Peixoto, Ângela Maria, Fafá de Belém, Porta dos Fundos, entre outros. O espaço foi fundado com a ajuda de patrocínio, mas sobretudo pela garra do próprio Maurício e do sócio, o produtor e diretor Eduardo Figueiredo. Além de fundadores, são administradores e curadores. “A gente faz tudo. Administrar um teatro é como administrar uma pastelaria. A gente tem que cuidar do papel higiênico, da impressora que estragou, do atraso do funcionário, da lâmpada que queimou, até contratar os artistas. Dá muito tesão, é um grande sonho, mas dá muito trabalho também”, assegura. Depois de muita batalha, afirma que “O teatro é ainda um bebê, mas está começando a caminhar com as próprias pernas”.

Curiosamente, este mês será a primeira vez que Maurício Machado vai atuar no palco do próprio teatro. O espetáculo é O aprendiz de feiticeiro, inspirado no poema homônimo de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), com dramaturgia de Antonio Calmon. A encenação apresenta o jovem Arthur (Vitor Thiré), excelente aluno e dono de grande imaginação, o que o faz sofrer constante bullying por parte dos valentões da escola. Numa dessas agressões, ele é salvo pela valente Jane (Klara Castanho), de quem ganha um celular. Ao manejá-lo, é magicamente transportado para o passado. Ai começa a aventura repleta de dragões, vampiros e bruxas. A produção – em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCCBB), em Belo Horizonte, até segunda-feira – também tem no elenco Júlio Oliveira, Victor Garbossa, Cristiano Meirelles, Miguel Roque e Fernando Bittencourt.

Maurício faz o feiticeiro Ambrósio e o rei Henrique. “A peça fala dessa questão do amadurecimento, dos percalços para se tonar uma pessoa melhor. Num momento como o atual, com tanta falta de tolerância e desamor, acho que esta questão de querer ser alguém vem a calhar”, acredita. A montagem teve muito cuidado com os detalhes técnicos.  “Não é porque é uma peça para o público infantojuvenil que a qualidade tem que ser menor. Muito pelo contrário. Fazer teatro para criança é muito mais difícil, mas é melhor. Não se pode subestimar a inteligência delas”, declara. No entanto, não são só os pequenos que se encantam. “A gente tem que fisgar os pais também. Esse é o segredo. Essa história do Goethe é a precursora de Harry Potter e Senhor do anéis.”

DIFICULDADES Enfrentar a resistência dos pais não foi o único empecilho na carreira artística de Maurício Machado, que, em 2017, completa três décadas. Falsificou a assinatura dos pais para participar do grupo teatral no colégio, fez teatro amorador e estreou profissionalmente aos 15 anos no musical Sonhar colorido. Não parou mais. “Até chegar onde estou, ralei demais. Cheguei, literalmente, a passar fome quando fui morar em São Paulo. Mas não queria desistir de jeito nenhum. Até trabalhei com animação de festa infantil e fui vendedor de loja para poder ganhar dinheiro, porque viver de teatro sempre foi complicado”, relata.
Na TV, estreou em 2005, num pequeno papel da novela Alma gêmea, interpretando o cozinheiro Baltazar, personagem que o fez batizar seu gato. Atualmente, Maurício Machado está no ar em A lei do amor, como o deputado federal corrupto Arlindo Nacib. “Vira e mexe tem gente que grita ‘Lava-Jato’ para mim nas ruas. É divertido. Acredito que, justamente por toda essa onda que estamos vivendo, meu personagem deve ter um desfecho que merece. Não deve ficar impune.”

Além da novela das 21h, e de O aprendiz de feiticeiro, ele prepara a montagem do espetáculo Um beijo em Franz Kafka. Há outras iniciativas encaminhadas: a produção da peça Um gatão de meia idade, baseado no personagem de Miguel Paiva, e a adaptação teatral de M – O vampiro de Düsseldorf, filme de 1931 do diretor Fritz Lang. “Esse é um grande sonho. Já tem seis anos que eu e o Ulysses Cruz estamos na luta. Falta patrocínio. Quem sabe não sai este ano? A gente tem que batalhar, né.? Tudo na minha vida foi assim. Se acabei me tornando um empreendedor, foi por necessidade. E tenho muito orgulho de tudo”, resume.

O APRENDIZ DE FEITICEIRO

Inspirado no poema de J. W. Goethe. Direção: Eduardo Figueiredo. Com Maurício Machado, Vitor Thiré, Klara Castanho, Júlio Oliveira, Victor Garbossa e elenco. De hoje a segunda-feira, às 10h30 e às 16h30, no Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400). Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

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