Duas estreias teatrais apresentam dramas sob a ótica e a direção de mulheres

'O deszerto' investiga o passado na ditadura chilena e 'Risco' faz performance sensorial

por Mariana Peixoto 14/12/2016 20:03
No apagar das luzes de 2016, dois novos espetáculos chegam aos palcos da cidade. Hoje, a sala multimeios do CCBB assiste à estreia de O deszerto, peça do grupo Mulheres Míticas. No mesmo dia, no Espaço Aberto Pierrot Lunar, Luísa Bahia faz a primeira das três apresentações do solo Risco. Propostas absolutamente distintas, as montagens têm em comum protagonistas femininas.
Raquel Carneiro/divulgação
O grupo de teatro Mulheres Míticas mistura ficção e realidade em 'O deszerto' (foto: Raquel Carneiro/divulgação )

Dirigido por Sara Rojo, O deszerto é um espetáculo mais ambicioso. O ponto de partida da peça foi o romance chileno El desierto, de Carlos Franz, inédito no Brasil. A narrativa ficcionaliza a chamada Caravana da Morte. Em outubro de 1973, durante a ditadura de Augusto Pinochet, no Chile, presos políticos foram mortos durante uma operação clandestina no Deserto do Atacama.

No romance, Laura, a primeira juíza daquele país, tenta resgatar um preso político. Chega até o major responsável pela operação. Ele estabelece um pacto com ela. Todas as vezes que ela fosse até ele, vestida como prostituta, e se deixasse ser violentada, um preso seria libertado. A personagem participa da tortura algumas vezes, até que se exila na Europa.

Tem uma filha que, 20 anos mais tarde, decide estudar direito no Chile. Ela começa a pesquisar o passado de seu próprio país e envia uma carta para a mãe, questionando-a sobre os acontecimentos de outra época. Laura decide então retornar ao mesmo deserto onde a violência ocorreu.

Foi a própria Sara Rojo, também chilena, que apresentou o romance aos integrantes do Mulheres Míticas que, com O deszerto, comemoram seu terceiro ano de atuação. “Mesmo sendo um romance de 500 páginas, achamos que o texto formava imagens que poderiam ser deslocadas para uma peça”, afirma Felipe Cordeiro, integrante do grupo e que também atua e assina a dramaturgia com Gabriela Figueiredo. A mudança de grafia do título do espetáculo foi, de acordo com ele, para “criar um estranhamento”. “E O dezserto mistura ficção e realidade”, acrescenta.

A abordagem do grupo para a obra de Carlos Franz dialoga com a realidade brasileira, tanto do passado quando da atualidade. O coletivo vem trabalhando no texto desde o início do ano. Além das apresentações no CCBB, que vão até segunda-feira, a peça está programada para o começo de fevereiro na Sala Juvenal Dias, do Palácio das Artes, durante a Campanha de Popularização.



HOMERO

Já a montagem Risco é um solo criado pela própria atriz Luísa Bahia, que aqui divide a direção com o cineasta Ricardo Alves Jr. O projeto nasceu há dois anos. O texto foi apresentado pela primeira vez em uma leitura dramática no Janela de Dramaturgia (que o lançou neste ano numa coletânea do projeto editada pela Perspectiva, através do Rumos Itaú Cultural). Outras leituras se seguiram, até que ela achou ser hora de pensar num espetáculo.

“Existe uma narrativa, que é uma odisseia em que a personagem Dora realiza. Mas essa narrativa é não linear”, conta Luísa, que, em cena canta várias músicas (do fado ao samba), descreve um quadro que está pintando. “Ela também conversa com muitas vozes que vão chegando na história”, comenta a atriz, dizendo que o percurso de Dora é uma brincadeira com Odisseia, de Homero.

O DESZERTO
Com o grupo Mulheres Míticas, direção Sara Rojo. Hoje, às 19h, na sala multimeios do CCBB, Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400. Sessões até segunda, também às 19h. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia).

RISCO
Criação de Luísa Bahia, direção de Luísa Bahia e Ricardo Alves Jr. Hoje, às 20h, no Espaço Aberto Pierrot Lunar, Rua Ipiranga 137, Floresta, (31) 2514-0440. Sessões sexta e sábado, também às 20h. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia).

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