"Não sei se acredito em talento", diz mineiro ganhador de prêmio de melhor ator

Vencedor do Prêmio APCA de melhor ator de teatro em 2016, Leonardo Fernandes diz que encara o resultado como 'um abraço' em suas ideias e um 'estímulo para continuar na luta'

por Walter Sebastião 11/12/2016 10:00
ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A.PRESS
(foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A.PRESS)

A edição 2016 do Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) colocou o holofote sobre o mineiro Leonardo Fernandes, de 28 anos, premiado como melhor ator de teatro por sua interpretação no monólogo Cachorro enterrado vivo. O texto da carioca Daniela Pereira de Carvalho foi escrito para Fernandes e encenado sob a direção de Marcelo do Vale. Na peça, ele interpreta três personagens: o cachorro, um coveiro e o marido da mulher cujo desaparecimento gera caos. O prêmio será entregue em março. Nesse mês, a peça volta ao cartaz em Belo Horizonte. A equipe de produção (o ator é um dos produtores) está na luta por uma nova temporada também em São Paulo.

O prêmio da APCA é o quinto que Leonardo Fernandes recebe. Ele foi ator revelação do Sesc/Sated e do Sinparc em 2008, por sua atuação em Dois perdidos numa noite suja, de Plínio Marcos. Foi melhor ator (segundo o Sinparc) em 2009, por Flics, e em 2010, atuando em Esperando Godot. Fernandes responde com bom humor à pergunta se já está acostumado a receber prêmios: “Estou acostumado é com trabalhar muito”, garante. “Não concebo ser ator só como alguém que entra em cena e pronto. Tenho que carregar nem que seja parte do cenário, pois isso traz um forte sentido do todo. E é também parte da nossa formação”, afirma.

Leonardo Fernandes saboreia a diversidade de estéticas dos espetáculos que lhe deram prêmios. “Quando me perguntam qual é minha linha de trabalho, respondo que não sei. Gosto de mudar a cada trabalho. Procuro projetos que me desafiem como artista, com os quais posso aprender mais sobre o meu ofício”, diz. “Não saber como interpretar um personagem é um indício para eu aceitar a proposta”, conta. “Vejo espetáculos de dança, de teatro, leio muito. Em tudo você acha alguma coisa que pode colocar no seu trabalho. Acho que o teatro reflete sempre o momento em que é feito. Tem me atraído falar do Brasil e, assim, do mundo contemporâneo”, observa.

REFLEXÃO O teatro, defende o ator, cria uma ligação forte com o público e faz pensar. “Um homem que sai de casa para apertar um botão que destrói o mundo, se tiver visto uma peça na noite anterior, antes de fazer isso, vai parar e pensar. Se ele vai desistir de destruir o mundo não sei, mas que ele vai pensar na existência, isso vai”, assegura. “Numa apresentação de Cachorro, vi uma menina, que não conhecia, chorando, não sei por quê. Nada se compara a você conseguir uma conexão assim”, afirma. “É nestes momentos que você vê e sente que o teatro faz sentido. O difícil, como ator, é colocar o que você quer a uma outra pessoa de modo verdadeiro. É um procedimento cirúrgico”, afirma.
Lia Soares/Divulgação
Leonardo Fernandes em cena de 'Cachorro enterrado vivo' (foto: Lia Soares/Divulgação)

Fazer teatro, explica Leonardo Fernandes, ainda é uma batalha. “Tornou-se uma necessidade do artista contemporâneo ser produtor, só assim ele pode dar vazão à urgência do fazer”, observa. Com relação às artes cênicas em Belo Horizonte, avalia que o bonito “é a garra” da turma. “Fazem-se coisas grandes com muito pouco”, opina. Dilema é a falta de incentivo e de patrocínio. “Temos bons teatros, mas, se um é inaugurado, outro fecha. Ganhamos o do CCBB e perdemos o Oi Futuro, que era uma casa maravilhosa.” Acrescente-se alguma invisibilidade em relação à difusão: “O que fazemos não está nos outdoors”, observa.

Uma bronca do ator é a inexistência de banners na frente do Palácio das Artes anunciando o que está em cartaz nas salas Juvenal Dias e João Cechiatti. “Disseram-me que a prioridade era o Grande Teatro. Não podemos julgar um trabalho pelo tamanho da produção”, critica, explicando que tal postura prejudica as produções mineiras, que são as que mais usam os dois espaços.

Encenar Cachorro enterrado vivo cobrou disposição. Em Belo Horizonte, houve tentativas de impedir a encenação da obra, baseadas na suposição de que haveria animais em cena. Em São Paulo, a equipe dispunha de apenas duas horas e meia para montar cenário, iluminação e fazer o aquecimento para entrar em cena. “Teve dia em que meu aquecimento foi subir e descer escadas”, recorda.

A opção pelo monólogo foi, também, para poder circular com o espetáculo por pequenas e grandes cidades do Brasil. “Já fiz até em sala de casa para amigos”, diz.

 

Veja o teaser de Cachorro enterrado vivo

 

FILA Formado em teatro no Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado, hoje Fernandes dá aulas no Estúdio Arte & Passo. Ele nasceu em Pedro Leopoldo, foi criado em Vespasiano e vive e trabalha em Belo Horizonte. É o mais velho de quatro irmãos. A arte, recorda, sempre esteve presente em sua vida. Desenha desde criança. Aos 11, tocava violão e bateria. As artes cênicas entraram em sua vida quase por acaso. Enquanto aguardava numa fila gigantesca para se inscrever num curso de trompete do Palácio das Artes de Vespasiano, gostou tanto do pessoal que estava lá para estudar teatro que mudou de ideia e seguiu a turma.

O ator, até agora, já fez 16 espetáculos. “Queria tempo para fazer mais, mas gosto de me concentrar num trabalho”, observa. A primeira vez em que pisou no palco foi aos 15, selecionado num teste em BH para atuar na peça O adolescente diário. Sem nunca ter deixado os estudos – tanto em Vespasiano quanto em Belo Horizonte – diz: “Não sei se acredito em talento. Acredito é em foco, em direcionar o olhar, em ir aprendendo com quem está ao seu redor e com o que você vê. Acho importante, e digo isso aos meus alunos, que, em paralelo à escola, a pessoa vá montando os espetáculos dela. É a formação da vida. A gente aprende a fazer fazendo”, defende.

O próximo trabalho, também em parceira com Daniela Pereira de Carvalho, é a peça Comportamento, em que atuará ao lado de Adriano Saboia. A data de estreia ainda não está definida. “Não fizemos Cachorro enterrado vivo pensando em prêmios. Senti o prêmio como um abraço nas ideias que acredito e estímulo para continuar na luta”, conta. Considera, ainda, “uma responsabilidade” ganhar um prêmio que já foi dado a Paulo Autran, José Wilker, Othon Bastos, Guarnieri e tantos outros. “São uma referência para o que faço.”

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