Eid Ribeiro lança coleção com 15 de seus textos teatrais e 48 crônicas

Artesão da palavra, o dramaturgo diz que escrever é uma necessidade: 'não necessito ser montado. Se for, ótimo'

por Mariana Peixoto 07/12/2016 08:00
BETO NOVAES/EM/D.A PRESS
O dramaturgo e diretor Eide Ribeiro e sua cadela Bolinha em casa, na Sagrada Família, em Belo Horizonte (foto: BETO NOVAES/EM/D.A PRESS)

Era um garoto como tantos outros do interior de Minas entre os anos 1940 e 1950. Lembra-se da chegada de um circo à cidade de Guaxupé, Sul do Estado. Uma das atrações era um dromedário. “Ele ficava em cima de um caminhão, e a gente subia para jogar os panfletos (do circo). Só que o dromedário dava coice”, ri, hoje, aos 73 anos, o diretor e dramaturgo Eid Ribeiro.

“Tem essas coisas que vão despertando a gente”, acrescenta ele, um aficionado por Federico Fellini (“Os filmes dele têm tudo a ver com meu universo da infância.”). A paixão pelo teatro veio do circo; enquanto a paixão pelo cinema surgiu na época em que foi lanterninha.

Até os 16 anos, Eid viveu em pelo menos 10 cidades do interior do estado. Filho de um fiscal do antigo Instituto de Aposentadoria e Pensões de Comerciários (hoje INPS), “nasceu” em duas delas – o local de nascimento é Caxambu; o de registro, a vizinha Baependi, onde ficava o cartório de um amigo da família.

Chegou a BH na adolescência e, entre idas e vindas (morou durante alguns anos no Rio de Janeiro, onde atuou na imprensa), firmou-se como um dos mais respeitáveis, atuantes e resistentes profissionais do teatro mineiro. Diretor, dramaturgo e curador (respondeu pela programação do FIT-BH por 16 anos), prefere não escolher uma função. “O teatro é a minha vida”, resume.

Uma parte dessa trajetória foi reunida na Coleção Eid Ribeiro, da editora Javali, que será lançada nesta noite, no encerramento da edição 2016 do projeto Janela de Dramaturgia. São três volumes: os dois primeiros reúnem 15 textos para teatro (alguns já encenados, outros inéditos); o terceiro compila 48 crônicas do autor publicadas na imprensa mineira.

É um projeto que Eid resistiu para assumir. A iniciativa foi da produtora Ana Freire, que, cinco anos atrás, procurou-o com a intenção de editar seus textos. “Na época, não fiquei entusiasmado de imediato. ‘Nossa, vou ter que rever tudo que escrevi e isso vai dar muito trabalho’.”


Mas autorizou a produtora a fazer o projeto, que foi enviado para a Lei Municipal de Incentivo à Cultura e não obteve aprovação. “Pensei: que bom, agora estou tranquilo.” Veio o ano seguinte, e Ana perguntou a Eid se poderia enviar novamente o projeto. Ele autorizou. Mais uma vez, foi recusado. Isso ocorreu continuamente por quatro anos, até que no quinto, finalmente, o projeto teve o aval para seguir em frente. E Eid não teve escapatória.

TRABALHO ÁRDUO


Hoje, logicamente, é só prazer ao falar do lançamento. Mas o trabalho foi árduo. Eid só escreve a máquina – “Gosto do barulho, sinto uma emoção; já o computador não tem nem som” – e reescreve seus textos sem o menor apego (inclusive depois que foram encenados). “Teatro existe quando ele vai para a cena. Pego outros atores, Genet, Beckett, e praticamente reescrevo as obras no palco, pois tenho minha visão, coloco (em cena) aquilo que me move. Então, qualquer diretor que pegar a minha obra vai ver que ela é um pretexto para ele criar o que quiser.”

Até então, o único livro de Eid que já havia sido publicado é o infantojuvenil Anjos e abacates. “Agora é que meus textos vão cair na roda”, afirma ele. O que é bem uma verdade. Como todos os textos estavam em papel, nos originais, e Eid não tem mais entusiasmo para enviar os escritos para atores e diretores – “No início (da carreira) fazia isto, mas hoje não tenho saco nem dinheiro para ficar xerocando tudo e mostrando para os outros” –, seus textos foram relativamente pouco montados por terceiros.

“Escrevo porque necessito escrever; não necessito ser montado. Se for, ótimo”, afirma. No material agora publicado está seu primeiro texto para teatro. Escrito no início dos anos 1970, Delito carnaval foi proibido durante a ditadura, chegando aos palcos apenas no período da anistia. “Em 1972, o texto recebeu o Prêmio Nacional de Dramaturgia do Rio Grande do Sul. Num dia, recebi os parabéns por ter ganhado o primeiro lugar. No dia seguinte veio o aviso para mandar nome, endereço, identidade e CPF para me enviarem o cheque do prêmio (10 mil cruzeiros, segundo ele). E no outro dia veio o aviso de que ‘infelizmente, por motivos de força maior, o concurso foi anulado’.”

Também no livro está seu texto preferido, Lágrimas de um guarda-chuva. “É aquele em que consegui ser profundo e poético ao mesmo tempo”. É ainda sua peça mais montada – já teve encenações no Rio, São Paulo, Bahia, Goiás, mas nunca em Minas Gerais.

O livro será lançado às 19h – sem autógrafos, Eid deixa claro. Às 20h, haverá leitura dramática dos dois textos mais recentes do dramaturgo: Tinto e a baleia e Nightvodka (este terá apenas uma cena). A leitura ficará a cargo de integrantes do Armatrux, grupo com o qual Eid tem trabalhado mais recentemente – em janeiro começa a ensaiar o quarto espetáculo com a companhia, para estrear em setembro. Também em 2017 vai dirigir o Pigmaleão Escultura Que Mexe em uma montagem de bonecos para Macunaíma.

“Só faço o que quero, com quem eu quero e no meu tempo de criação. Não sou diretor de Rio e São Paulo. Dirigi dois espetáculos no Rio e me dei mal, porque tive pouco tempo de ensaio. Como preciso de tempo para criar minha direção, trabalho só com teatro de grupo.”

Eid já dirigiu os grupos Galpão, Trama, Cia. Acômica, entre outros. Também é integrante de um grupo, a Companhia Absurda, que, ao longo dos anos, mudou de nome algumas vezes, mas manteve-se na ativa.

Se há a preferência por grupos, não faz diferença se eles tenham ou não experiência. Eid já dirigiu alguns espetáculos de formandos do Palácio das Artes; atualmente, coordena montagens do Centro Artístico de Criação, do Sesc, que só trabalha com jovens atores. “Tem grupo com ator de 40, 50 anos. Tem grupo com gente que acabou de sair da escola. A relação tem que ser de troca. Eles aprendem comigo e eu, com eles.”

Trabalhando sem parar – só folga às segundas –, Eid vive muito modestamente nos fundos de uma casa no bairro Sagrada Família. Varanda, sala, quarto e cozinha. São poucos móveis, mas muitos livros e filmes (muitos de seus preferidos, Fellini e Bergman) e a cadela Bolinha.

“Não tenho apartamento, não tenho casa, preferi ter um sítio. É dificílimo viver de teatro, não quero ter muito. Cheguei à conclusão de que para me manter enquanto artista, quanto menos coisa tiver mais liberdade vou ter”, afirma.

JANELA DE DRAMATURGIA

Lançamento da Coleção Eid Ribeiro, seguida de leitura dramática do texto Tinto e a baleia. Hoje, a partir das 19h, no Centoequatro – Praça Rui Barbosa, 104, Centro. Entrada franca. Os livros serão distribuídos gratuitamente no local.

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