Marcelo Gabriel faz apresentação única da peça 'Encantações para os mortos'

Trata-se de ''um ritual de exorcismo das feridas mais profundas na democracia'', descreve o ator

por Walter Sebastião 18/11/2016 09:38

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Daniel Mansur/Divulgação
'Encantações para os mortos' estreia domingo, 20, às 18h, no Teatro de Bolso Júlio Mackenzie do Sesc Palladium. (foto: Daniel Mansur/Divulgação)
 

''Estamos imersos em barbarismo e escuridão profunda, assustadores'', afirma o bailarino Marcelo Gabriel, referindo-se tanto ao Holocausto quanto ao extermínio de populações indígenas (ontem e hoje) como também aos discursos racistas, homofóbicos e machistas do presidente eleito dos EUA, Donald Trump. ''Não consigo entender como ser humano'', diz. Foi esse espanto que o levou a criar Encantações para os mortos, que estreia domingo, 20, às 18h, no Teatro de Bolso Júlio Mackenzie do Sesc Palladium. Trata-se de ''um ritual – anímico, político e social – de exorcismo das feridas mais profundas na democracia'', descreve, sem esconder a perplexidade diante da prática e apologia da violência generalizada contra a cidadania vinda especialmente da política.

Para materializar a proposta, como explica Marcelo Gabriel, ele constrói a peça com ''imagens-totens'' icônicas. Como sangrar para lembrar dos genocídios. Ou se cobrir de cinzas, evocando vontade de falar de histórias ocultas e apagadas. ''Encantação é um grito, reação instintiva à opressão e à história humana pautada na dominação e no extermínio'', conta, lembrando-se do longo percurso humano convivendo com crueldades e perseguições. Se em outras criações suas havia, ao lado de dramas, cenas que carregavam humor, ainda que ácido, agora tal pontuação está ausente da cena. ''Não há como brincar quando se fala de genocídios, da dimensão anti-humana de muitos discursos'', justifica.

 

ATOR QUE DANÇA

''O que faço é teatro de resistência, antropologia pessoal e histórica'', afirma Marcelo Gabriel. ''Sou ator que dança'', acrescenta, explicando que interpreta personagens. O artista classifica suas performances como teatro físico. ''Trabalho com expansão e retração energética, o que traz potência e materializa dimensões sutis da vida interna das personagens'', afirma. A dedicação exclusiva aos solos, conta, alude à falta de estímulo para formar grupo. ''Mas tem trazido uma dimensão inclusiva profunda, que me obriga a me lançar verdadeiramente, como artista e ser humano, nos trabalhos. É impossível esconder algo quando a gente está sozinho em cena.''

 

Encantações para os mortos integra uma tetralogia, ''a partir de mergulho no inconsciente coletivo'', formada por Danças do abismo (1996), Quando o sol brilha mais forte a sombra é mais intensa (1997) e Danças do abismo III (2015). O mineiro não afasta a possibilidade de uma nova criação, ''já que o discurso de Donald Trump deixa a sensação de que estamos diante de um novo Hiltler''. Ele cita como elementos recorrentes em sua obra ''a resistência ao status quo, a indiferença com os discursos acadêmicos e a potencialização da voz das ruas''. O artista já ministrou oficinas, a partir de suas práticas, para diversos grupos, entre eles os atores do Teatro da Vertigem e o grupo de José Celso Martinez Corrêa.

Encantações para os mortos

Com Marcelo Gabriel. Domingo (dia 20), às 18h. Teatro de Bolso Júlio Mackenzie Sesc Palladium, Rua Rio de Janeiro, 1.046, (31) 3214-5350. Ingressos: R$ 20 e R$ 10.

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