Dama dos palcos mineiros, Wilma Henriques, aos 85, volta à ativa

Atriz, que ficou um ano afastada por causa de fratura no fêmur, afirma que veio ao mundo com a missão de fazer teatro

por Márcia Maria Cruz 31/10/2016 08:25

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Ramon Lisboa/EM/D.A PRESS
(foto: Ramon Lisboa/EM/D.A PRESS )
Ao olhar para o espelho do camarim do Teatro Francisco Nunes, Wilma Henriques mira a carreira de quase seis décadas. Vêm à memória os espetáculos que estrelou, parcerias, amizades e prêmios que a coxia e o palco lhe deram. A dama do teatro mineiro está de volta, depois de quase um ano afastada para tratar da fratura no fêmur esquerdo que a tirou de cena, devido a uma queda, obrigando-a a deixar o apartamento na Floresta e se mudar para um centro de repouso no Bairro Planalto. Aos 85 anos, Wilma estrelou a comédia As meninas de madame Mimi, texto de Rogério Falabella com direção de Carluty Ferreira e Janaína Starling. A temporada foi curta – de sexta-feira a ontem –, mas deixou no público o gosto de quero mais.

Wilma recebeu o Estado de Minas no camarim, horas antes da estreia, para um bate-papo. Falou da volta aos palcos, da carreira, das amizades e do que espera para o teatro mineiro. Vaidosa, ajeita os cabelos com cuidado. “Modéstia à parte, ele é bem bonito. Na semana passada, fui ao salão mudar a cor”, revela. A cumplicidade com os colegas de elenco e os diretores não deixa restar dúvida: não há outro lugar em que ela se sinta melhor do que diante da plateia. “O palco me faz bem, me coloca para cima. Vim ao mundo com esta missão”, diz.

Wilma passa o texto com os atores Lilian Lemos e Rogério Alves, averigua o figurino e os acessórios dos personagens. Voltar aos palcos representa mudar a página daqueles momentos difíceis na casa de repouso, onde ela morou por oito meses para se recuperar da fratura. Quando estava lá, veio a ideia da peça. “Tive o insight de uma mulher na cadeira de rodas que procurava por secretárias. De imediato, liguei para o Falabella e pedi que escrevesse para mim.”

A leitura do texto começou quando Wilma ainda morava na casa de repouso. “Havia muitos ruídos por lá. Tínhamos pessoas com Alzheimer, outras que gritavam. Tudo isso foi usado para compor os personagens”, explica. Mimi não tem família, é bastante arguta, independente e também afetuosa. “Comparo a vida de Mimi à minha”, comenta. Como a vida imita a arte, Wilma atua sobre a cadeira de rodas. Teve de recorrer a ela desde que fraturou o fêmur.

As meninas de madame Mimi é o segundo trabalho de Janaína Starling com Wilma Henriques. Teve um pouco de medo, mas encarou a tarefa de dirigir uma atriz com mais anos de palco do que ela de vida. Quando Wilma estreou na extinta TV Itacolomi, em 1959, faltavam 16 anos para Janaína nascer.

“Ela dedicou a vida ao teatro, é um exemplo que admiro. Espero chegar lá. Nos primeiros dias, veio aquele receio. Pensava: tenho 41 anos, fico sem graça em dirigi-la pela experiência que tem”, conta. O resultado dessa troca delicada pôde ser vista no palco do Chico Nunes.

Em sua biografia, Wilma coleciona textos que a tocaram. “Amamos o personagem que estamos fazendo”, resume.  Uma dessas peças foi A prostituta respeitosa, de Jean Paul Sartre – suspensa depois de algumas sessões, a pedido do autor, como forma de protesto contra a ditadura militar brasileira. Outra foi Ensina-me a viver, com direção de Elvécio Guimarães. E ainda Dona Beija, encenada no Palácio das Artes. Wilma recorda as amizades cultivadas durante todos esses anos de palco. “Elvécio é um amigo querido que nos deixou”, lamenta. O diretor, de 83 anos, morreu em julho.

CASAMENTO Foram muitos amores. Alguns duraram, mas Wilma nunca quis se casar. De uns tempos para cá, porém, revê essa convicção. “Soube de uma mulher de 89 anos que se casou com o cuidador do marido, que havia falecido. A ideia de ter um companheiro não é ruim”, diz. Ela conta que se dedica aos amigos – e não sobra tempo para flertes.

Embora tenha recusado pedidos de casamento, ela admite: ter um companheiro não é má ideia. No entanto, considera pouco atrativas as formas como a juventude de hoje se relaciona. Quer distância de celular, whatsapp e e-mail. “As pessoas não se encontram mais para conversar. Ninguém fala com ninguém. Acabou o amor”, explica.

As quase nove décadas de vida são motivo de comemoração, apesar de Wilma achar que muitas pessoas têm preconceito de idade. “Como diz a minha personagem, não sou velha. Tenho alguns poucos anos a mais”, brinca. Depois do período na clínica, ela se mudou para um apartamento no Centro de Belo Horizonte. “Meus amigos me bajulam, beijam e abraçam. É uma delícia”, revela. O afeto e o respeito vêm de artistas de várias gerações.

PARIS A menina, que aprendeu francês aos 7 anos, pensa que deveria ter nascido em Paris. “Erraram a rota e me colocaram aqui”, brinca. Apesar da paixão, não teve oportunidade de conhecer a França. Nascida em Conselheiro Lafaiete, Wilma se mudou para Belo Horizonte aos 2 anos. Poderia ter deixado a capital, mas “algo” fez com que permanecesse em BH. Em 1986, foi convidada para compor o elenco de novelas da TVS, emissora que antecedeu ao SBT, mas recusou o convite, devido ao infortúnio envolvendo um amigo.

Ao longo da carreira, Wilma Henriques conquistou vários prêmios de melhor atriz, além de honrarias oficiais, como as medalhas da Inconfidência e Santos Dumont. Porém, diz que o reconhecimento dado a ela não é proporcional à valorização do teatro mineiro.

“Quero deixar um recado para quem está começando: o início da carreira é difícil. Tive sorte, tive encontros com pessoas muito talentosas”, afirma ela. A falta de investimento, no entanto, faz com que muitos colegas deixem BH para tentar o sucesso em outras paragens. Mesmo assim, Wilma Henriques mantém um sonho: que a arte ganhe reconhecimento e espaço em Minas Gerais.

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