Bárbara Paz estrela 'Gata em telhado de zinco quente' no CCBB

Montagem de clássico de Tennessee Williams cumpre temporada em BH até 28 de novembro. Texto dialoga com impasses e angústias do Brasil

por Walter Sebastião 21/10/2016 07:50

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Ronaldo Gutierrez/divulgação
Zécarlos Machado e Bárbara Paz (foto: Ronaldo Gutierrez/divulgação)
“Um autor ferino e feroz, que diz coisas que precisam ser ditas”, avisa a atriz Bárbara Paz. “Um escritor amoroso que, implacavelmente, expõe carências e desamor”, acrescenta o ator Zécarlos Machado. Ambos se referem ao norte-americano Tennessee Williams (1911-1983), autor da peça Gata em telhado de zinco quente, que inicia hoje a temporada de pouco mais de um mês em BH.


Clássico do teatro moderno, o texto ganhou versões em todo o mundo – inclusive no cinema, em filme protagonizado por Paul Newman e Elizabeth Taylor, lançado em 1958.


A peça foi montada na íntegra – nesse sentido, distingue-se das adaptações que simplificaram a trama e o conteúdo, até para evitar problemas com a censura. Aborda a comemoração dos 65 anos de Paizão (Zécarlos Machado), rico patriarca de uma família sulista norte-americana. Ao lado de Mãezona (Noemi Marinho), ele recebe a visita dos filhos Brick (Augusto Zacchi) e Gooper (Andre Garolli), acompanhados das respectivas esposas, Maggie (Bárbara Paz) e Mae (Fernanda Viacava). O que era para ser festa acaba revelando ambição pela herança, tensões familiares e dramas do clã.


Bárbara Paz é fã de Williams, autor que encena pela primeira vez. “Sempre sonhei interpretar esta peça. O texto é brilhante, traz um retrato muito crítico da sociedade que surgiu depois da Segunda Guerra Mundial”, conta. Zécarlos Machado concorda. “É uma história contemporânea. Coloca temas eternos: morte, solidão, angústias do ser humano, disputa por herança e como tudo isso mexe com as famílias”, observa. “Estão na boca dos personagens as palavras das brigas de qualquer família”, lembra Bárbara.


Gata em telhado de zinco quente é um texto tão brilhante que todos os personagens são protagonistas. Um não existe sem o outro. Então, fazer um deles carrega sempre o desafio de contracenar com o colega”, comenta Bárbara.


Zécarlos diz que as camadas de cada personagem seduzem muito os atores. “Impressiona como Tennessee Williams, de modo simples e com narrativa tradicional, articula, de forma profunda, os universos micro e macro colocados pela situação”, explica. Isso é raro no teatro contemporâneo, mais voltado para narrações menos lineares ou mais sintéticas, observa o ator.


Para a dupla, não há pessimismo na dureza dos embates entre os personagens. “São porcos-espinhos tentando se amar. Então, sempre tem espetadas”, ironiza Zécarlos. “É a visão realista das relações sociais”, argumenta Bárbara, referindo-se a aspectos dramáticos do ser humano. Entre eles estão amar demais sem ser amado e o descompasso entre o discurso moderno e o apego à tradição.


Bárbara Paz e Zécarlos Machado atuam na área do audiovisual, mas têm no teatro referência de vida. “Teatro é a minha casa, volto sempre a ela. Pisar no palco é sempre uma estreia, a descoberta de algo novo. Até a repetição o leva ao desconhecido. É lugar eternamente desafiador”, conta, lembrando ter participado de mais de duas dezenas de peças.


“Para mim, teatro é a referência do lugar onde o fogo da alma está presente. Considero que ele é a raiz de todas as possibilidades de o ser humano atingir a sua essência e o que vem a ser a humanidade. É neste local que o corpo social manifesta, e isso é absolutamente necessário”, defende Zécarlos.


A peça foi montada pelo Grupo Tapa, fundado em 1974, na PUC Rio, quando alunos de diversos cursos decidiram fazer teatro amador. Em 1986, transferiu-se para São Paulo. A companhia se notabiliza por textos de repertório e por montar clássicos brasileiros e de outros países.

GATA EM TELHADO DE ZINCO QUENTE
Direção: Eduardo Tolentino de Araújo. Com Bárbara Paz, Augusto Zacchi, Fernanda Viacava, Noemi Marinho, André Garolli e Zécarlos Machado. Centro Cultural Banco do Brasil, Praça da Liberdade, 450, Funcionários. De sexta a segunda-feira, às 20h. Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada). Até 28 de novembro.

Três perguntas para...

Eduardo Tolentino de Araújo
Diretor de Gata em telhado de zinco quente

Qual é a proposta do Grupo Tapa?
Somos um grupo profissional no sentido de que experimentamos vários gêneros, como fazem companhias no mundo inteiro. Temos pegada forte com o presente. Não montamos clássicos como se fossem arqueologia, mas porque falam do mundo em que vivemos.

Por que Tennessee Williams?

É um autor fascinante. Pela escrita dele, a habilidade na construção dramatúrgica, a temática e a caracterização dos personagens. Gata... fala do latifúndio, de uma passagem escravagista, é texto crítico ao machismo e à homofobia. Há coisas muito importantes por trás das situações que a peça mostra, aspectos que refletem muito o Brasil de hoje. O sucesso da peça, algo que nem imaginávamos quando decidimos montá-la, talvez esteja em discutir questões ligadas à família, imbróglio que até hoje não resolvemos.

Como você vê o teatro brasileiro?
Péssimo. Claro que há exceções, como o Galpão. Mas comparado ao teatro extraordinário que vi, quando jovem, nos anos 1970 e 1980, a qualidade caiu muito, em todos os aspectos. A média era excepcional, seja no Rio, São Paulo, Minas ou Porto Alegre. Até o teatro amador era de melhor qualidade. Fazemos oficinas para atores que já têm alguma formação. Apesar da profusão de escolas, observo que os atores chegam menos preparados. Temos mais espetáculos, mas o público foi massificado, não democratizado. O brasileiro não lê e chega despreparado ao teatro. Voltamos ao século 19, ao teatro de protagonistas – muitos excelentes, aliás. Porém, falta conjunto, perdeu-se o sentido de equipe. Se há um aspecto positivo é a capacidade de alguns de sobreviver num contexto assim. Gosto de dizer que somos cristãos na catacumba.

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