Lázaro Ramos e Taís Araújo estrelam peça que denuncia racismo a partir de Martin Luther King

O topo da montanha está em cartaz neste fim de semana no Palácio das Artes

por Márcia Maria Cruz 15/10/2016 08:50

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Juliana Hilal/Divulgação
Martin Luther King e a humilde camareira Camae, personagens de Lázaro Ramos e Taís Araújo, fazem o público rir e chorar (foto: Juliana Hilal/Divulgação )
As palavras em defesa da igualdade proferidas por Martin Luther King soam como sonho 48 anos depois de sua morte, quando a questão racial ainda é uma ferida aberta nos Estados Unidos. É o que mostram os atores Lázaro Ramos e Taís Araújo na peça O topo da montanha, que será apresentada hoje e amanhã, no Palácio das Artes. O título faz alusão ao último discurso do líder negro, proferido em Memphis, horas antes de ele ser assassinado, em 4 de abril de 1968.

“O espetáculo coloca luz sobre as questões raciais. Neste momento especial, em que parece haver um grande retrocesso, vemos que há forças contrárias que precisam ser fortalecidas”, afirma Taís. A narrativa retrata de forma ficcional as últimas cinco horas de vida de Luther King, intepretado por Lázaro. O líder conversa com a camareira Camae, personagem vivida por Taís.

“Ela faz um contraponto a Luther King, que era um erudito, um doutor, prêmio Nobel da Paz. Aquela mulher do povo o encara e o contesta, sem pudores. É muito bonito ver a escuta que ele faz dela”, afirma Taís. Um dos motivos que aproxima a peça do público é a opção pela comédia, permitindo que temas densos sejam tratados de forma a manter a crença na transformação. “Do meio para o final, é uma montanha russa de sentimentos. As pessoas riem e choram. A mesma bipolaridade me tomou quando li o texto pela primeira vez”, lembra a atriz.


Escrito pela jornalista norte-americana Katori Hall, de 36 anos, o texto chegou a Lázaro e Taís na tradução de Sílvio Albuquerque. Amante do teatro, Sílvio era assessor do então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, que foi entrevistado por Lázaro no programa Espelho (Canal Brasil).


“É um texto muito contemporâneo, escrito por uma menina jovem, que o fez de maneira agregadora. O grito é importante, mas é preciso dar outro passo”, diz Taís. A atriz reforça que o espetáculo é um sopro de esperança, embora denuncie o preconceito e o racismo. O casal consegue vibrar no mesmo diapasão de Luther King, propondo o amor como forma potente do fazer político.


Primeira protagonista negra de novela na TV brasileira, Taís lembra que a escolha de suas personagens, inclusive Camae, atende a questões especiais para ela, como maternidade, feminismo e a reflexão sobre a posição da mulher. Ciente de que é referência e de sua representatividade, a atriz não abre mão de contribuir para o debate de temas que lhes são caros, como ocorre também na série Mr. Brau, protagonizada por ela e o marido.


Diante de situações impostas pelo racismo, a atriz deseja mostrar que, apesar de o caminho ser difícil, não se deve parar. “Não quero que as pessoas saiam do teatro como saí ao ver O mordomo da Casa Branca, como se um caminhão tivesse passado por cima de mim”, comenta, referindo-se ao filme que apresenta o poder nos Estados Unidos a partir da visão de um negro que trabalhou na residência do presidente norte-americano.

EMPODERADO Lázaro Ramos e a mulher protagonizam a série Mr. Brau na TV e a peça em cartaz no Palácio das Artes. Além disso, o ator baiano é responsável pela montagem de O topo da montanha. Com duas palavras, ele define o seu momento: empoderamento e empreendedorismo.


Lázaro deve lançar em Belo Horizonte o livro infantil Caderno de rimas de João, escrito a partir de conversas com o filho. A sessão de autógrafos está prevista para amanhã, às 11h, no Sesc Palladium.


A criação de João e Maria Antônia é um aprendizado prazeroso, conta ele. “Por meio das rimas, encontrei uma forma lúdica de falar de assuntos simples, como amor e saudade, e mais complexos, como a morte”, diz.


Lázaro quer prepará-los para enfrentar o preconceito. “A questão é deixá-los fortes para que consigam encarar o mundo. Serem nossos filhos não os protege de nada. Quero passar a sabedoria de que o racismo não pode paralisá-los. Preconceito e bullying não devem parar ninguém. A gente deve continuar caminhando, sabendo que tem direito a um espaço no mundo.”


O ator considera fundamental dar referências aos jovens negros. Foi especialmente importante para ele conhecer o trabalho do cineasta Joel Zito Araújo. “Assisti a Negação do Brasil em São Paulo, quando ainda não era conhecido. O filme mudou a minha vida e comecei a perseguir o Joel. Encontrei o e-mail dele e falei desse filme. Pedi para ser amigo dele.” Lázaro não para. “Para fazer uso de uma palavra da moda, eu me sinto empoderado quando consigo acessar a linguagem do teatro a partir do meu ponto de vista. É muito bom ser escutado”, conclui.

O TOPO DA MONTANHA
Hoje, às 20h, e amanhã, às 19h. Palácio das Artes. Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. Plateias 1 e 2: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia). Plateia superior:
R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia).

CADERNO DE RIMAS DE JOÃO

Lançamento do livro infantil de Lázaro Ramos. Amanhã, às 11h.
Sesc Palladium, Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro. Entrada franca.

TRÊS PERGUNTAS PARA...

Lázaro Ramos
ator e diretor

Trip Edições/Divulgação
(foto: Trip Edições/Divulgação )

Nos EUA e no Brasil, vive-se um momento de bastante tensão em relação à questão racial. O que você vê de semelhança e diferença nesses dois contextos?

A parte triste é que muitos dos textos que a gente diz, com frases dos anos 1950 e 1960, parecem que foram escritas hoje. É uma pena. A gente ainda está debatendo a inserção do negro na sociedade, questões estéticas. Vários trechos parece que foram escritos hoje. Por outro lado, a gente tem uma possibilidade maior, que era pouquíssima tempo atrás, de falar e debater essas questões, inclusive em outros veículos. Não só em jornal e televisão, mas no teatro, nas redes sociais, na internet. A possibilidade de ter mais vozes escutadas é importantíssima. Nosso espetáculo faz parte disso, porque busca uma alternativa. Conseguimos falar com mais pessoas – e não só com quem pensa como a gente. Através da coragem, do relacionamento e do afeto a gente consegue encontrar um caminho.

Como é a experiência de interpretar Martin Luther King?

Primeiro, morri de medo, porque todo mundo tem referência de quem foi Martin Luther King. Ele tem características fortes: o jeito de olhar, de falar e de discursar. Foi muito bom, logo no início dos ensaios, perceber que a melhor maneira era dar mais importância às palavras dele do que à imitação do seu jeito. É um espetáculo para valorizar a palavra deste homem. Claro que de maneira bem-humorada, pois é uma comédia.

Por que é urgente falar sobre racismo no Brasil?

Porque não está resolvido, somos preconceituosos. Os negros são a maioria nos presídios e nos manicômios. A gente não tem representação na política. Ainda tem a questão da não aceitação de uma estética. Infelizmente, a gente tem que falar enquanto isso permanecer.




VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE TEATRO