Artistas europeus inspiram mostra do fotógrafo Cássio Vasconcellos, em cartaz na Galeria Dotart

Autodidata, ele explora luzes e granulações para celebrar a natureza tropical

por Walter Sebastião 08/10/2016 08:27

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Cassio Vasconcellos/Divulgacao
Fotografia de Cássio Vasconcellos é resultado de suas andanças por matas e florestas (foto: Cassio Vasconcellos/Divulgacao )
Quando, aos 21 anos, o fotógrafo Cássio Vasconcellos contou para a família que faria universidade, o pai ficou indignado. “Ele me disse: ‘Você nasceu para a fotografia. Para que perder tempo com outra coisa?’”, recorda Cássio, ainda hoje surpreso. O apoio do pai, Paulo Vasconcellos, antiquário que gostava de arte contemporânea e amigo do escultor mineiro Amilcar de Castro, foi fundamental para a decisão de Cássio de mergulhar no mundo das artes. E foi com a câmera do pai que ele, aos 15 anos, fez as primeiras imagens. “Desde então, não parei mais e cá estou”, brinca.

Cerca de 10 imagens da série Viagem pitoresca pelo Brasil, realizadas entre 2015 e 2016, estão expostas na Galeria Dotart. É a primeira mostra do paulista em Belo Horizonte. Ele também lança o fotolivro Aeroporto (Editora Madalena) na cidade.

A mostra é parte da programação de individuais simultâneas da Dotarte, com curadoria de Wilson Lázaro, que também traz a exposição do pintor fluminense Pedro Varela e vídeos da cubana Ana Mendieta. Cássio e Pedro dialogam com o tema paisagem brasileira. Ana apresenta dois vídeos, Silueta en fuego e Flowers on body. “Mendieta produzia trabalhos viscerais que conduziam a um olhar para o corpo dela como extensão da própria natureza”, explica Lázaro.

EMOÇÃO
Viagem pitoresca pelo Brasil expressa o desejo de provocar no espectador a mesma emoção dos artistas viajantes europeus ao depararem, no século 19, com a natureza tropical exuberante. Para evocar essa visualidade, hoje parte do imaginário nacional, Cássio trabalhou minuciosamente cada imagem, pontuando luzes, detalhes e granulações. “É uma visão romântica, sublime e idealista da natureza”, afirma.

As obras de Viagem pitoresca... são produto de caminhadas do artista por parques, trilhas e florestas brasileiras no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Amazônia. Cássio conta ter descoberto árvores milenares e gigantescas. Pelo respeito que impõem, dá vontade de ajoelhar diante delas. “Foi uma emoção e um grande prazer realizar esse trabalho”, afirma.

Para fazer as imagens de Aeroporto, com seus aviões em meio à temática urbana, ele preferiu inventar um lugar, pois queria um local “mais caótico” que os existentes. “Não estou falando só de aviação, mas do mundo globalizado e de um meio através do qual temos conexões físicas com todos os lugares”, explica.

As duas séries carregam as vivências do fotógrafo. O tataravô de Cássio foi botânico da Expedição Langsdorff, que percorreu, entre 1824 e 1829, mais de 16 mil quilômetros pelo interior do Brasil. No caso de Aeroporto, as imagens vêm de um artista encantado por aviação – inclusive, ele tem brevê de piloto.

O fotógrafo destaca a diferença entre a evocação de uma visão romântica da natureza e a longa dedicação ao registro da urbanidade. “Cada série é muito distinta da outra, tem sua estética específica”, conta. “Não faço trabalho documental. Minhas fotos procuram a fantasia, mesmo quando são realistas. Trabalho no limite entre o real e o imaginário”, conta ele, admirador dos cineastas Fellini e Buñuel.

UNIVERSIDADE

Aos 51 anos, Cássio Vasconcellos tem longa e respeitada trajetória no Brasil e no exterior. Aprendeu por conta própria e viveu sempre em ambientes que valorizam a arte. Revela que sua universidade foi o pai, “mostrando obras, chamando a minha atenção para os detalhes e para a observação atenta”.

Dois mestres o impressionaram: Henri Cartier-Bresson e Man Ray. Um pela perícia com que capta um momento com suas composições elaboradas; o outro pelas experimentações e a ousadia criativa. “Os pintores René Magritte e Giorgio de Chirico também foram importantes para mim. As obras deles me chamavam para um mundo onírico e fantástico, que também busco”, conclui.

CÁSSIO VASCONCELLOS, PEDRO VARELA E ANA MENDIETA
Fotografia, pintura, intervenções e vídeo. Galeria Dotart, Rua Bernardo Guimarães, 911, Funcionários,
(31) 3261-3910. De segunda a sexta-feira, das 9h às 19h; sábado, das 9h às 13h. Até 11 de novembro.

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