Peça usa relação entre vizinhos para abordar arquétipos como amor, vida e morte

'Os realistas', adaptação de The realistc Joneses, do aclamado dramaturgo Will Eno, pode ser visto em BH neste fim de semana

por Márcia Maria Cruz 08/10/2016 08:18

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Leo Aversa/Divulgacao - Espetaculo Os Realistas.
Peça já foi assistida por 17 mil pessoas no Brasil, desde janeiro deste ano (foto: Leo Aversa/Divulgacao - Espetaculo Os Realistas.)
Dois casais vizinhos com o mesmo nome e casas idênticas alimentam o jogo de cena que marca a parceria de Débora Bloch, de volta aos palcos, com o ator e diretor Guilherme Weber numa comédia existencialista sobre vida, morte e amor. Os realistas, adaptação de The realistic Joneses, do aclamado dramaturgo nova-iorquino Will Eno, está em cartaz em BH neste fim de semana.

Dirigida por Weber, a peça consolida a ligação do brasileiro com o americano, iniciada quando Eno ainda era estudante e muito antes de ele ganhar o prêmio Pulitzer com Thom Pain (2004). “É uma longa parceria, o sexto trabalho com Will. Sou fascinado pela obra dele, tenho o projeto informal de encená-la no Brasil”, diz.

O espetáculo, que estreou em janeiro, cumpriu temporadas no Rio de Janeiro e São Paulo com público de 17 mil pessoas. Chega a BH na programação do projeto Teatro em Movimento.

Os realistas narra a história dos Silva, sobrenome que Guilherme escolheu para os Joneses do texto original, bastante comum nos EUA. “Ao propor The realistic Joneses, ele faz uma brincadeira com o ditado keeping up with the Joneses. Não existe correlação em português – talvez, a grama do vizinho é mais verde –, embora o ditado americano não diga exatamente da inveja do vizinho. Diz de você querer estar à altura dele, que trocou o carro, pintou a cerca. No título em português, abri mão da brincadeira, que é intraduzível. Optei pelo Silva, arquétipo do homem comum. É uma narrativa mais simples, de identificação imediata”, explica.

REALISMO

Guilherme Weber é fascinado pela opção do nova-iorquino pela narrativa realista, que mostra a história de pessoas comuns. “É muito sedutora a maneira como todas as paixões, temática do Will, são aplicadas à cartilha de gênero”, observa. Segundo ele, o realismo permite abordar a falência da linguagem, trazendo sempre surpresas ao espectador.

O diretor destaca a estratégia de tirar os heróis épicos do centro da narrativa, colocando o foco em homens comuns. “Esse espetáculo fala do homem da calefação, do ar-condicionado, do que trabalha no trânsito”, diz . A obra de Will Eno remete a arquétipos caros à humanidade, como amor, liberdade, arte e relacionamento. “São personagens críveis, realistas, do cotidiano”, explica.

A história de dois casais que têm o mesmo sobrenome e moram em casas iguais promove um jogo de espelhamento. O recurso, recorrente na obra do dramaturgo, pode ser visto também em Temporada de gripe. Isso vem da escola de dramaturgia liderada por Edward Albee (1928-2016), de quem ele é discípulo. “É um fundamento do teatro de Albee, de quem podemos citar Quem tem medo de Virginia Woolf?”.

A construção dramatúrgica parte de princípios da física quântica, o que permite pensar que os dois casais estão em momentos de vida diferentes. “É como se fatiássemos o conceito casamento e pudéssemos visitar diferentes momentos e lugares”, explica o ator e diretor. Isso também remete a maneiras diferentes de encarar o casamento: prisão, libertação, companheirismo.

A história se passa numa pequena cidade. Weber lembra que, quando Eno desloca os personagens para uma comunidade interiorana e campestre, faz referência ao teatro de Tchekhov. Além dele, o elenco conta com Fernando Eiras, Mariana Lima e Débora Bloch.

“Débora é amiga de muitos anos. Ela procurava um projeto no teatro, conheceu o Will Eno por meio da Companhia Sutil e ficou seduzida”, conta ele, que contracenou com a atriz na TV. Depois do encerramento da temporada de The realistic Joneses, que levou Eno à Broadway, a atriz comprou os direitos autorais.

Inicialmente, Weber se limitaria a dirigir Os realistas. Seu personagem era interpretado por Emílio de Mello, que faz o papel do psicanalista da série Psi, o que o impede de viajar. Diante disso, Weber assumiu o desafio de atuar e dirigir. “Foi uma relação incestuosa e esquizofrênica. Quando você dirige, é meio pai dos personagens, muito protetor. Quando entra o ator, há um choque de interpretação”, conta.

Para Weber, a interpretação não passa pela construção do intelecto. É, antes de mais nada, uma construção do corpo, da intuição e do sentimento. “Vivo a esquizofrenia de manter a concepção racional de diretor e, ao mesmo tempo, o encontro com a percepção intuitiva e sensitiva da interpretação.” Ele comemora o processo e aposta que a opção por falar do homem comum encontra eco na plateia.

OS REALISTAS

Hoje, às 18h e às 21h; amanhã, às 19h. Teatro Sesiminas, Rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia, (31) 3241-7181. Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada). Informações: www.teatroemmovimento.art.br.

CONEXÃO ENO

Guilherme Weber e Felipe Hirsch, integrantes da Sutil Companhia, planejavam o espetáculo Vozes, em que seriam usados textos de diversos autores. “Caiu em nossas mãos um trecho de Tempo de gripe. Era tão sedutor que quisemos conhecer o trabalho daquele autor do Brooklyn. Deixamos Vozes em segundo plano e começamos a decifrar o código do Will Eno. Fizemos Tempo de gripe, foi a segunda montagem no mundo. Inclusive, ele veio a São Paulo assistir à nossa montagem”.

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