Caçula de 15 filhos de um esquizofrênico e uma doméstica, Paulo Betti repassa vida em peça

Em 'Autobiografia autorizada', em cartaz no Teatro Sesiminas, em BH, nesse fim de semana, ator de 64 anos interpreta também os pais e avós

por Mariana Peixoto 21/09/2016 08:43

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Mauro Khouri/Divulgação
(foto: Mauro Khouri/Divulgação)
Filho caçula de Paulo Betti, João, de 13 anos, foi direto ao ponto quando soube que o pai estava escrevendo um espetáculo sobre a própria vida. “Está escrevendo para falar que saiu de um lugar fodido e chegou num lugar legal?” Bem, de certa forma, Autobiografia autorizada, que será apresentado sábado e domingo no Teatro Sesiminas, é isso mesmo.


É só acompanhar um resumo da própria trajetória de Betti, de 64 anos. Caçula dos 15 filhos de um esquizofrênico e uma empregada doméstica, ambos analfabetos, era também temporão. Sua mãe tinha 45 anos quando nasceu, em 1952. Uma década o separava de seu irmão mais novo.

Boa parte de sua infância foi passada na Vila Leão, um quilombo em Sorocaba, interior de São Paulo. A vida no interior era comum à família. Os avós de Betti vieram da Itália para tentar a vida no Brasil. Seu avô era meeiro de um fazendeiro negro.

“Talvez eu não seja tão velho a ponto de achar que isso (um espetáculo autobiográfico) é legítimo, mas a excepcionalidade da minha infância, adolescência e estrutura familiar são razoavelmente fortes para eu merecer um trabalho destes”, afirma o ator, que assinou o texto do monólogo. A direção ele divide com Rafael Ponzi.

Como era muito mais novo que os irmãos, a Betti foi reservado um destino diferente: não ser mais um operário na família. “Minha família me enxergou como depositário de tudo. Fui eu quem foi para a escola, que recebeu educação formal. Então, teria que ser eu a contar essa história.”

Ciente desde muito jovem da responsabilidade que pesava sob os ombros, a Betti não coube nenhuma atitude de rebeldia. “Quando começou a era hippie, eu não podia ser o garoto que se tornava rebelde e trazia problema para a mãe. Tinha que ser responsável.”
Houve consequências, claro. Acabou guardando tudo, com dificuldade para se desfazer das coisas. E, desde sempre, relata tudo o que se passa com ele, bem como impressões ou pensamentos.

É este material – somado a quase 30 anos de artigos semanais que escreveu para o jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba – que embasaram o texto. “Acho que sempre estive me preparando para fazer este monólogo, mesmo que não tivesse consciência disto.” Embora não seja jornalista, tenho o vício de tomar notas, seja em reuniões, viagem”, acrescenta.

Boa parte das memórias estava contida num cadernão que Betti começou a escrever nos anos 1980, quando se mudou para o Rio de Janeiro e ficou longe de família. Há inclusive uma cópia desse caderno em cena. Para o ator, o espaço serviu quase como um confessionário.

Autobiografia autorizada não conta toda a trajetória de Betti. Concentra-se basicamente na infância e juventude. Segundo o ator, 50% da peça é humor, 25% drama e a outra parte poesia. Em cena, ele interpreta mais de um personagem: também encarna os próprios pais e avós.

O processo, de acordo com o autor, foi revigorante. “Acho mais doloroso voltar a um passado mais recente, de 10, 20 anos atrás. O que faço na peça é visitar um lugar inóspito, distante, que está envolto na bruma do tempo.”

CACHIMBO O ator encena as quatro mortes dos pais e avós. “Achei mais interessante falar disto com humor do que ficar sofrendo. Meu avô, por exemplo, morreu há 50 anos.” A circunstância da morte, para Betti, é curiosa. No atestado de óbito do avô estava escrito que ele deixou esposa e filha e nenhum bem. “Tenho o cachimbo que foi dele. Então, praticamente o que deixou de herança foi um pedaço de fumo de corda, um cachimbo e um canivete velho.”

Em cartaz há um ano, Autobiografia autorizada traz outro aspecto familiar. A assistência de direção é de Juliana Betti, uma das filhas do ator com a atriz Eliane Giardini, sua primeira mulher. “Ela teve a maior autoridade para falar comigo ‘pai, isso aí não teve graça’.” A filha também o ajudou a cortar o texto, tornando a montagem mais enxuta. Já a atual mulher de Betti, a designer Mana Bernardes, é responsável pela cenografia. O cunhado Pedro Bernardes foi o autor da trilha sonora.

Ao abrir as portas e tirar a poeira do passado, Betti viu que o projeto poderia ser maior. Autobiografia autorizada vai virar livro, editado pela Planeta. Desta maneira, além de infância e juventude, Betti pretende chegar até os dias de hoje. Já escreveu um bocado, mas falta outro tanto. O prazo da editora, segundo ele, é o fim deste ano. Mas Betti não sabe se vai conseguir cumprir. E, afinal, a roda da história não para e novos capítulos ainda estão por vir.

Henry  James em Sorocaba

Paulo Betti estreou Autobiografia autorizada em março de 2015, logo após o fim da novela Império, em que interpretou o jornalista Téo Pereira. Nesse pouco mais de um ano, além de rodar com o monólogo, também participou de outro projeto familiar.

Dirigiu o longa-metragem A fera na selva, filme inspirado na obra do escritor Henry James, em que divide a cena com a ex-mulher Eliane Giardini. A produção é uma adaptação do espetáculo que os dois encenaram em 1992. As filmagens foram em Sorocaba.

Também produção com Eliane, A fera na selva está em fase de sonorização. Na história, um homem vive na esperança de presenciar algum acontecimento extraordinário. A preocupação é tamanha que ele não consegue enxergar as pequenas coisas importantes de seu cotidiano.

Na TV, Betti volta para a próxima novela das 19h, Rock story, que estreia no fim de outubro.

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