Festival France Danse começa em BH com espetáculo da Costa do Marfim

Bailarina Nadia Beugré avalia que 'o mundo está doente' e se sente como quem pega 'o volante de uma ambulância, mesmo ferida'. Serão seis atrações até o fim de outubro

por Carolina Braga 26/08/2016 08:00

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FRANCE DANSE FESTIVAL/DIVULGAÇÃO
O espetáculo 'BiT' de Maguy Marin é um dos que serão apresentados em BH (foto: FRANCE DANSE FESTIVAL/DIVULGAÇÃO)
No Brasil é uma estreia, mas o France Danse é veterano. O festival francês que desembarca em 15 cidades é realizado desde 2000 ao redor do mundo. Começou em Nova York, expandiu para o Japão, Coreia e Itália. O negócio dele é espalhar o que há de mais novo na dança contemporânea francesa. Isso significa lidar com a interculturalidade que dá outras cores e pulsações para as tradições do país.

Das 70 atrações que vão circular de norte a Sul, seis chegam a Belo Horizonte. A coreógrafa e bailarina da Costa do Marfim Nadia Beugré será a primeira. Hoje e amanhã, ela apresenta Quartier libris, no Sesc Palladium. Também passarão por Minas a renomada coreógrafa Maguy Marin e apostas como Herman Diephuis, Frank Michelleti, Mourad Merzouki e David Wampach. As apresentações vão até o fim de outubro.

“Tratamos de fazer uma mistura entre nomes que poderiam refletir a diversidade estética da dança francesa”, afirma Inês da Silva, adida cultural do consulado da França em São Paulo e uma das responsáveis pela vinda do evento ao Brasil. Ela faz questão de ressaltar que o France Danse não teve uma direção artística. As decisões de curadoria foram compartilhadas por ela, o coordenador João Carlos Couto Magalhães, o Janjão, e diversos produtores locais brasileiros.

A simultaneidade de linguagens – dança, vídeo, música – é uma marca dessa safra. Os temas escolhidos são bastante caros para a sociedade de hoje. Maguy Marin, por exemplo, parte de um termo bastante comum da informática, o BiT, para falar sobre ritmo. Já Herman Diephuis escolheu representar facetas do medo a partir da expressão Bang!. Frank Micheletti coloca de imediato a questão do ser sozinho.

Mourad Merzouki é a grande aposta da programação. Há 20 anos ele constrói e desconstrói o hip-hop em cena. Em Pixel, ele se joga no universo das projeções. A tecnologia criada por Adrien M e Claire B interage com o corpo dos bailarinos. Muito diferente da proposta de David Wanpach. Ele transforma a peça Sacre, de Stravinksy, em duo de dança. E ainda tem a força política da performance de Nadia Beugré.

Quartier libris propõe uma reflexão sobre os termos luta, mulher e liberdade. Foi criado em um contexto de crise política em que se tornou urgente ressaltar o papel da mulher. “Acho que a mulher pode ser forte e frágil e é considerada ainda o lixo do mundo”, afirma Beugré.

Quartiers libris
Com Nadia Beugré. Sexta e sábado, às 21h. No Grande Teatro do Sesc Palladium, Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro, (31) 3270-8100. R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). Programação completa: www.ambafrance-br.org/-FranceDanse-Brasil

Boris Hennion /Divulgacao
'Quartier libre' da bailarina da Costa do Marfim, Nadia Beugré (foto: Boris Hennion /Divulgacao )


NADIA BEUGRÉ,
coreógrafa e bailarina da Costa do Marfim


Seu trabalho carrega uma carga de posicionamento político e social. Por que lhe interessa levar essas discussões ao palco?

Vejo que o mundo está doente, e evidenciar isso é para mim como pegar o volante de uma ambulância, mesmo ferida e humilhada, levando comigo os seres desrespeitados desta Terra até um lugar de verdadeiro direito e de justiça. Trata-se de uma sensibilização, de mostrar o que não está funcionando no nosso mundo e de levar isso à consciência do meu público, enquanto tratamos de esconder a miséria com paredes como foi o caso no contexto dos Jogos Olímpicos do Rio ou na crise dos imigrantes na Europa.

De que modo Quartiers libris pode dialogar com a realidade social brasileira?
Não conheço muito bem a realidade social brasileira, mas percebo aqui um consenso sobre esse “viver junto”, animado por um sentimento de pertencimento forte a esse país, quase patriótico. Vejo isso em muitos dos meus amigos brasileiros. A diversidade do povo é sem-fim, e é agradável poder vê-la, mesmo sentindo que tem ainda muita desigualdade e a vontade de esconder a miséria, de descartá-la em vez de tentar diminuí-la. A situação política atual me lembra a do meu país quando criei a peça. Tem muita mentira, manipulação, enganação. Consequentemente, a situação social só pode ser explosiva. Pergunto-me até quando as pessoas desfavorecidas daqui poderão aceitar essa realidade.

Como, por meio do corpo, você nos apresenta a questão: que tabu é necessário quebrar para existir plenamente no mundo e no seu corpo?.
Quebrar um tabu é se recusar a desistir de um ato mesmo em frente à ameaça de represálias. Tem vários Quartiers libris (territórios de livre expressão) na minha peça, e tantos tabus para serem quebrados. Por exemplo, o tabu da mutilação genital constitui um obstáculo para ser vencido na luta contra essa prática. O uso e o roubo dos nossos recursos na África também. As novas gerações estão quebrando agora o tabu dos abusos dos poderosos da África. Mas tem ainda muito por fazer. Na minha próxima peça, Tapis rouge (tapete vermelho), estou tentando denunciar as condições vergonhosas de trabalho de muitos seres humanos na Terra, inclusive crianças, ao serviço da tirania econômica mundial.

Acredita que este trio de significados – luta, mulheres e liberdade – encontra sempre unido quando observamos a história das conquistas femininas?

Não trato só das conquistas femininas. Porém por mim existir como mulher não pode ser unicamente estar na cozinha e parir. Como é possível existir politicamente fora do clichês de representação da mulher? Não é bem uma luta, se trata mais de uma iniciativa. Não é tao brutal, é mais flexível que uma simples guerra. Consegui uma certa dignidade e pretendo defendê-la em qualquer situação. Não é uma questão de ego ou de orgulho, é a vida de nos todos que me move. Por isso tento olhar as pessoas nos olhos, contrariamente aos hábitos de submissão das pessoas no meu país. A palavra luta soa por mim como a reivindicação de uma vingança. Não é bem assim, o homem tem suas lutas também. Mas as mulheres de Bassam, na Costa de Marfm, saíram na rua para o bem de todos e não só delas. A liberdade tem que ser buscada porque tem opressão, humilhação, traição e mentira. Essas realidades levam às revoluções.

Como se dá o empoderamento feminino na Costa do Marfim?

Quando volto pro meu país vejo que mulheres sempre lutaram por lá. As mulheres da minha geração não se deixam dominar como antigamente, e devem continuar a pôr em questão suas existências como seres humanos. Mas tem muito por fazer em termos de exclusão e condicionamento social e individual. As mulheres se deixam marginalizar, e por isso continua a marginalização. É também uma questão cultural e tradições seculares. Hoje o dia internacional da mulher na África serve para alimentar a economia (elas gastam muito par ficar bonitas para aquele dia), e dar a elas um dia de festa por ano, sem outra reivindicação. É quase o instrumento que justifica a dominação masculina durante os outros 364 dias do ano.

 

 

 

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