Janela de Dramaturgia lança coletânea de textos teatrais no 104

Quinta edição de projeto dedicado a promover leituras dramáticas, que começa nesta quarta, fará homenagem a Eid Ribeiro. Programação vai até dezembro

por Carolina Braga 24/08/2016 08:50

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ETHEL BRAGA/DIVULGAÇÃO
Encontro do projeto na edição de 2015 (foto: ETHEL BRAGA/DIVULGAÇÃO)
Sara Pinheiro e Vinícius Souza são atores e dramaturgos. Inquietos. Há cinco anos se questionaram: por que não há em Belo Horizonte um espaço para discussão, experimentação, escuta de textos para teatro? São da geração que não se contenta com perguntas. A turma do “vai lá e faz”.


Assim nasceu o Janela de Dramaturgia – na época, sem nenhum apoio de lei de incentivo  – como espaço dedicado a revelar a novíssima dramaturgia nascida em (inicialmente) Minas Gerais. A quinta edição começa hoje, com sinais claros de maturidade. E elasticidade.

Mais de 10 textos inéditos de autores de Belo Horizonte, São Paulo, Salvador, Porto Velho, Curitiba e Brasília estarão na roda até dezembro. Além disso, o projeto dá seu passo mais ousado: a publicação da coleção de três volumes com todas as peças apresentadas entre 2012 e 2014.

O lançamento, amanhã, pela editora Perspectiva, é um marco da dramaturgia local. Neles estão distribuídos 28 textos de 24 escritores. “Registra um momento em que o Janela se dedicou totalmente aos autores atuantes em Belo Horizonte”, diz Vinícius Souza. Por isso é inédito. Se publicar dramaturgia já é raridade, o que dirá sobre um conjunto dedicado à produção de uma cidade e o olhar de uma geração?

Ainda que seja um recorte, há no pacote a tão celebrada diversidade de estilos. Para Souza, os textos podem ser divididos por características mais performáticas e literárias. João Filho, Marina Viana, Luísa Bahia são exemplos do primeiro grupo. São atores e atrizes que pensam a cena junto com o texto, justamente por ter domínio do exercício do palco. Assim como ele e Sara Pinheiro.

“No que chamo de linha mais literária eu me refiro a um texto que é mais poético, mais narrativo e tem menos oralidade”, explica o idealizador do Janela. Rafael Fares, Wester de Castro e Éder Rodrigues são alguns dessa turma. Há ainda obras com tintas mais carregadas na experimentação,  “que explodem a forma dramática. É uma escrita bastante anárquica que, quando se bate o olho, não é possível identificar de cara os códigos do teatro”, aponta Souza.

O encontro mensal no Teatro Espanca! surgiu com a colaboração de amigos e em pouco tempo se firmou como vitrine. Era também o encontro de uma turma que, aberta, acolheu outras “tribos”, outros gêneros.

MATURIDADE “Mesmo sendo uma leitura, os contornos estéticos se desenhavam ali com mais maturidade, e a crítica posterior proporcionada pelo evento serviu muito para que eu revisitasse a obra, agora com um olhar menos solitário e mais coletivo”, afirma o dramaturgo Wesley Marchiori. Com inúmeras comédias de sucesso no currículo, ele estreou no projeto em 2014 com o drama As mães e as motos. “Um texto parado na gaveta não tem alma, só esqueleto. Com a publicação, ele fica bem perto de ganhar sangue também”, completa.

Get out!, de Assis Benevenuto, Anã marrom, de Marcos Coletta, Isso é para dor, de Byron O’Neill, Fábrica de nuvens e Clínica do sono, de Daniel Toledo, são exemplos de peças que passaram pelo Janela de Dramaturgia, estão no livro e já foram encenados. Até circularam pela América Latina.

Vaga carne, monólogo de Grace Passô – atualmente em cartaz no Rio de Janeiro –, também esteve à prova no evento, assim como Elon Rabin, a versão teatral de Diego Hoefel e Ricardo Alves Jr. que, depois, transformou-se no roteiro do longa-metragem Elon não acredita na morte, selecionado para a disputa pelo troféu Candango do próximo Festival de Brasília, marcado para começar em 20 de setembro.

O caminho da peça até o roteiro gerou três versões diferentes. Eles definem a obra como “um texto entre o roteiro e o texto teatral”. Um híbrido. O filme é uma versão diferente da peça. “É justamente nesse espaço processual na escritura que está a força do Janela de Dramaturgia. A possibilidade de experimentar a imagem da palavra frente ao público e seguir no processo de desenvolvimento após esse encontro”, definem os autores, em depoimento assinado conjuntamente.

 

Euler Jr./EM/D.APress
O dramaturgo Eid Ribeiro (foto: Euler Jr./EM/D.APress)
DISCUSSÕES ACALORADAS

 

O 5º Janela de Dramaturgia recebeu mais de 700 textos vindos de 24 estados do Brasil. Este ano, o projeto teve também como curadores – além dos idealizadores – os diretores e dramaturgos Daniel Toledo e Eid Ribeiro. “Tivemos discussões, de fato, acaloradas”, conta Vinícius Souza.

Desde que se abriu para acolher textos do Brasil inteiro, em 2014, é premissa do Janela contemplar todas as regiões do país. É importante também debater os modelos vigentes. “A gente precisa desconstruir a ideia, quase colonizadora, sobre o que é um texto bom. Ainda mantemos a diversidade de formas, de assuntos e de lugar de origem”, explica o idealizador.

De fora chegam Guilherme Dearo (São Paulo), Isac Tufi (Salvador), Fabiano Barros (Porto Velho), Francisco Mallmann (Curitiba) e Fernando Carvalho (Brasília). Os mineiros selecionados para 2016 foram Anderson Feliciano, Luciana Romagnolli, Luciano Luppi, Ivana Andrés, Rita Clemente e o próprio Vinícius Souza.

O idealizador do Janela de Dramaturgia não vê irregularidade em incluir sua própria participação num concurso promovido pelo projeto e que agora conta com benefício fiscal. Segundo ele, “é uma maneira de se colocar como artista. Não tem que perder esse espaço porque somos idealizadores”.

A dramaturga mineira radicada em São Paulo Silvia Gomez é a convidada para a abertura desta edição. Ela acompanha a leitura de Mantenha fora do alcance do bebê, atualmente em cartaz em São Paulo, com Débora Fabella como protagonista, vencedor do prêmio APCA de melhor dramaturgia, conferido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte. A leitura será feita pelos atores Rodolfo Vaz, Fernanda Vianna e Juliane Guimarães.

HOMENAGEM


Além de curador parceiro, o diretor Eid Ribeiro será homenageado nesta edição do Janela de Dramaturgia. A leitura De Nightvodka, texto inédito dele, encerrará o projeto, em dezembro. Haverá também o lançamento da coletânea de suas obras teatrais e crônicas, editada pela Javali, jovem editora mineira dedicada a livros de teatro.

JANELA DE DRAMATURGIA
Abertura da 5ª edição do projeto com a leitura de Mantenha fora do alcance do bebê e encontro com a dramaturga Silvia Gomez, hoje, às 20h. Amanhã, às 20h, lançamento da coleção Janela de dramaturgia (Livros 1, 2 e 3), Editora Perspectiva, com discotecagem de Rádio Lampejo. No Cine 104 (Praça Rui Barbosa, 104, Centro, (31) 3222-6457). Entrada franca.

 

Confira as realizações da iniciativa

4 Edições realizadas

42 Textos inéditas

35 Autoras e autores

100 Atrizes e atores

50 Textos críticos

30 Debates e rodas de conversa

2 Traduções inéditas

2 mil Público

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