Ator Silvero Pereira e grupo 'Toda Deseo' debatem questões de gênero e diversidade

Ambos estão em cartaz em Belo Horizonte este final de semana com os espetáculos 'BR-Trans' e 'Nossa Senhora (do Horto)', respectivamente

por Carolina Braga 21/08/2016 12:21

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Mirela Persichini/Divulgação
O espetáculo Nossa senhora (do Horto), do coletivo Toda Deseo, faz última apresentação neste domingo (foto: Mirela Persichini/Divulgação)
“Existe arte queer?”. Primeiro foi o ator Silvero Pereira quem perguntou aos artistas do coletivo Toda Deseo. “Vamos te devolver uma pergunta: existe arte queer?”, retornaram os mineiros. O trânsito da questão revela a lacuna sobre o tema. Também a urgência do debate em torno das relações entre as manifestações artísticas e o universo de travestis, transexuais, gays, lésbicas e bissexuais, conhecidos pela sigla LGBT.

Em novembro, os atores da Toda Deseo e Silvero Pereira vão trabalhar juntos em Belo Horizonte, numa residência artística, a convite do projeto Off-Cena do Sesc. Entre eles, há muita admiração e cumplicidade. Curiosamente, ambos estão em cartaz na capital este final de semana. Silvero apresenta o monólogo BR-Trans, no Centro Cultural Banco do Brasil. Hoje, é a última apresentação de Nossa Senhora (do Horto), na Praça Dona Dolores (Horto), com entrada franca.

Por enquanto, cada um no seu quadrado. A intimidade artística está para nascer. Se vai render mais um espetáculo, uma performance ou qualquer outra coisa, dependerá do resultado do processo. O objetivo é que os artistas coloquem suas obras para conversar, experimentem mais e mais todos os limites e possibilidades da arte queer.

Silvero Pereira se sente incomodado em ter que separar e qualificar os tipos de arte. Ele sabe que, por força até do mercado, alguns festivais criam um eixo LGBT para conseguir aprovar espetáculos dessa temática. “Se segregar é uma maneira de nós fortalecer e garantir espaço, que assim seja, nos qualifiquem como quiserem, mas sabemos que fazemos arte. E arte pra mim não deve ser separatista, pois ela não pode ser mensurada por temática”, ressalta Pereira.

Para a Toda Deseo, o queer tem aquilo que é estranho, diferente e fora dos padrões. “Se pensarmos que a arte ainda é, de alguma maneira, regida por um pensamento eurocentrista e pouco receptiva àqueles que se propõem a fugir de uma certa norma, quando se transgride os padrões, as formas, quando se propõe um teatro para além da caixa, onde uma festa é a base do fazer artístico, como no nosso caso, essa é uma possibilidade, uma linguagem, uma estética queer de existência, de resistência e de criação”, explicam os mineiros.

Caique Cunha/Divulgação
O ator Silvero Pereira em cena de BR-Trans, peça em cartaz de quinta a domingo, no CCBB (foto: Caique Cunha/Divulgação)

BR-TRANS
Com Silvero Pereira e Rodrigo Apolinário. Até 19 de setembro. De quinta a segunda, às 19h. Teatro 2 do Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 4341-9400). R$ 20 e R$ 10 (meia).

NOSSA SENHORA [DO HORTO]
Com o coletivo Toda Deseo. Hoje, às 20h. Na Praça Dona Dolores, na Rua Conselheiro Rocha com Rua Oligisto. Entrada franca. Classificação: 18 anos. Informações: contatotodadeseo@gmail.com.

SILVERO RESPONDE A TODA DESEO

Uma grande questão para nós da Toda Deseo gira em torno do fato de que somos artistas, a maioria gays, num trabalho que focaliza as questões da identidade trans. Como você vê o trabalho do ator e a questão da representatividade?
A representação é um espaço permitido ao artista. A arte se constrói a partir da percepção do seu entorno social e a transformação dessa relação em um discurso que deve ser capaz de questionar e, talvez, provocar uma mudança social. A história só pode ser feita por trans que estão no dia a dia, batalhando e sobrevivendo. Entretanto, o artista tem os artifícios para contribuir e desmistificar estereótipos. Logo, o mais importante é ser sincero, respeitoso e se importar em contribuir. Não se pode ser leviano com essas questões na arte.

Quais foram as dificuldades enfrentadas por você no processo de pesquisa para o BR Trans?
BR-Trans é o sexto espetáculo do coletivo As Travestidas. Assim, sua dificuldade maior foi estudar os procedimentos técnicos que haviam funcionado nos trabalhos anteriores para aprimorar as questões de atuação, encenação e dramaturgia. O BR foi uma forma de revisitar a história da produção artística d’As Tavestidas para aprimorar.

O coletivo As Travestidas é resultado de uma pesquisa de 14 anos sobre o universo das travestis. Como foi iniciar essa pesquisa num momento em que se falava pouco ou quase nada sobre esse assunto?
O coletivo surge de uma resistência, ou seja, queríamos falar sobre isso porque nos inquietava a forma como percebíamos a relação sociedade e exclusão por gênero e diversidade. Sofremos muita resistência para entrar em cartaz, fazer festivais ou mesmo aprovar projetos, pois a própria classe artística não nos considerava artistas. Foi preciso resistir e transgredir. Ao longo de nossa existência, cavamos espaço e público e fomos engolidos antes de ser aceitos e respeitados, no trabalho coletivo e individual, como somos hoje.

TODA DESEO RESPONDE A SILVERO

O que a Toda Deseo vem produzindo e construindo de parceria entre arte e ativismo?
Nosso coletivo acabou se tornando um referência dentro da cena teatral aqui em BH e, por isso, fomos reconhecidos pelos movimentos pró-LGBTs por esse trabalho de reflexão artística sobre as questões de gênero. Naturalmente, houve uma troca entre eles e nós, principalmente no que tange às contribuições que um pode levar ao outro para afinar os discursos e entender tanto o lugar do movimento social na arte e a importância da arte para o movimento social.

Que mudança se percebe na cena artística mineira a partir da criação de um grupo com temática de gênero e diversidade?
O que se percebe é uma abertura do olhar para esses temas. Se antes a cena mineira pouco refletia essas questões dentro de seus trabalhos, elas passam a se preocupar mais com aquilo que dizem em seus projetos, a repensar a linguagem, a repensar a ocupação dos espaços, sejam eles públicos ou privados, e a estudar sobre todos os atravessamentos que o gênero e a diversidade colocam.

Grupos com temática de gênero sofrem discriminação da classe artística e/ou dificuldades de apoio e patrocínio?
Falando da nossa experiência nesses três anos de existência, em relação à classe artística não sofremos discriminação por conta do nosso trabalho. Fomos bem recebidos. Inicialmente, talvez, tenha existido uma certa desconfiança, mas conseguimos alcançar espaço e respeito dentro da cena teatral a partir dos nossos projetos e das reflexões que propomos e são pouco abordadas por aqui. Em relação aos apoios e patrocínios, ainda existe um certo receio das empresas em financiar projetos que lidam diretamente com essa temática. O pouco conhecimento por parte desse setor sobre as questões LGBTs e, certamente, o medo de alguma rejeição, faz com que eles não queiram vincular seus nomes a nós.

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