Peças 'BR-Trans' e 'Nossa Senhora (do Horto)' destacam universo transexual

O espetáculo da trupe cearense As Travestidas e a nova montagem coletivo mineiro Toda Deseo estreiam nesta quinta (18) em BH

por Carolina Braga 18/08/2016 09:12

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CAÍQUE CUNHA/DIVULGAÇÃO
Silvero Pontes pesquisou o universo das travestis e transexuais de Fortaleza a Porto Alegre (foto: CAÍQUE CUNHA/DIVULGAÇÃO)
De cara, pelo menos três pontos conectam os trabalhos do coletivo As Travestidas, do Ceará, e dos mineiros da Toda Deseo. São artistas que levam para a cena pesquisas sobre o universo queer (em torno de questões pertinentes aos travestis e transexuais) e têm o cineasta espanhol Pedro Almodóvar como uma espécie de padrinho. Os respectivos novos trabalhos de ambos os coletivos estreiam hoje, em Belo Horizonte.


BR-Trans, protagonizado por Silvero Pereira, chega já com fama consolidada. A montagem é fruto de 14 anos de pesquisa de Pereira sobre o universo trans. Estreou em 2013, depois que o ator viajou de Fortaleza a Porto Alegre pesquisando variações na manifestação da travestilidade, com o objetivo de combater estereótipos sobre a arte feita por travestis e transexuais.

“Vivemos em uma sociedade em que a travesti vai ser sempre vista como marginal”, diz. A montagem, que tem direção de Jezebel De Carli, é apresentada por Pereira como um trabalho cênico antropológico-autofágico-esquizofrênico-musical. Ou seja, mistura várias artes com o fim de contornar o lugar-comum, criar empatia com o público e passar o seu recado.

Acompanhado apenas pelo músico Rodrigo Apolinário, ele conta algumas das histórias reais de travestis e transexuais misturadas às próprias experiências. Quem costura tudo é Gisele Almodóvar, personagem que se converteu numa versão do ator. “Fui me reconhecendo trans. Sou um trans de gênero. Sinto-me bem como Silvero e também como Gisele”, afirma.
Mirela Persichini
'Nossa Senhora (do Horto)' é a primeira montagem de rua do coletivo Toda Deseo (foto: Mirela Persichini)

RESISTÊNCIA BR-Trans soma 350 apresentações em 22 cidades do Brasil e exterior. A peça venceu o Prêmio Aplauso Brasil 2016 nas categorias de melhor ator, dramaturgia e espetáculo por voto popular. Mesmo com essa trajetória, Pereira diz que ainda esbarra em resistências pelo caminho. Resistência, aliás, é palavra de ordem para o coletivo Toda Deseo, fundado em 2013, a partir de pesquisas cênicas iniciadas no curso de artes cênicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Da pesquisa sobre as travestis e transexuais retratadas nos filmes de Pedro Almodóvar nasceu o ‘espetáculo-festa’ No soy un maricón.

Logo depois, David Maurity, Ju Abreu, Rafael Lucas Bacelar, Ronny Stevens e Thales Brener Ventura levaram as experimentações sobre estética queer e questões de gênero para as ruas – e com irreverência. Nasceu o Campeonato Interdrag de Gaymada, incorpodado à Virada Cultural de BH como uma de suas atrações mais populares.

O novo espetáculo, Nossa Senhora [do Horto], é encenado na rua, com direção de Raquel Castro e dramaturgia de Daniel Toledo. Além do sempre presente Almodóvar, o texto bebe em clássicos como Um bonde chamado desejo, de Tennessee Williams, e A crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso. A tradicional família mineira e a religião estão no foco.

“Percebemos que poderíamos avançar nosso discurso e criticar as instituições que barram os direitos LGBT e continuam propagando a cultura do ódio”, afirma o ator David Maurity. O convite é para que o público se concentre com os atores na Praça Dona Dolores, que fica na esquina das ruas Conselheiro Rocha e Oligisto, no Bairro Floresta. Ali começa o percurso da narrativa, previsto para durar duas horas.

Desta vez, Toda Deseo reforça sua relação com o urbano, mas acrescenta o elemento da transitorialidade. “Vamos para a rua para conviver, para ser ultrapassado e para ultrapassar aquele espaço que é natural”, destaca o ator Rafael Lucas Bacelar. Como é próprio desse coletivo, a crítica presente em Nossa Senhora [do Horto] é pelo viés do humor. “Estamos conseguindo fazer um misto de tudo: usar o drama, o deboche e a ironia”, diz Maurity. A montagem custou R$ 10,2 mil, obtidos via financiamento coletivo.


BR-TRANS
Com Silvero Pereira e Rodrigo Apolinário. Até 19/9. De quinta a segunda, às 19h. Teatro II. Centro Cultural Banco do Brasil. Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 4341-9400. R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

NOSSA SENHORA [DO HORTO]
Com coletivo Toda Deseo. De quinta a domingo, às 20h. Praça Dona Dolores, na Rua Conselheiro Rocha com Rua Oligisto. Entrada franca. Classificação: 18 anos. Informações: contatotodadeseo@gmail.com.

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