Incensada montagem de Gota d'água chega a BH

Versão carioca tem nova proposta dramatúrgica para o texto de Chico Buarque e Paulo Pontes. Canções que não fazem parte da trilha original foram incorporadas ao clássico

por Carolina Braga 18/08/2016 09:22

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Silvana Marques/divulgação
Laila Garin e Alejandro Claveaux dividem a cena em 'Gota d'água (a seco)' (foto: Silvana Marques/divulgação)
A atriz Laila Garin guarda na memória a imagem do toca-fitas da mãe rodando trechos de monólogos de Bibi Ferreira. Ali estava Joana, a protagonista de Gota d´água, montagem clássica do texto de Chico Buarque e Paulo Pontes (1940-1976) encenado na década de 1970. A adolescente se encantou com a sutileza das falas. “A emoção em forma perfeita”, lembra. Trinta anos depois, é a vez de Laila.

Em Gota d´água (a seco), montagem que ficará em cartaz no Sesc Palladium no fim de semana, a atriz interpreta Joana. Ela contracena com Alejandro Claveaux, o Jasão, sob direção de cena de Rafael Gomes e direção musical de Pedro Luís. O projeto é ousado. Mais do que revisitar um clássico, propõe olhar contemporâneo para encenação, música e, principalmente, dramaturgia.

A nova adaptação da tragédia grega Medeia, de Eurípides, é narrada por apenas dois atores. Na versão original, havia 19 em cena. A trilha sonora – executada por Antônia Adnet, Dudu Oliveira, Elcio Cáfaro, Marcelo Muller e Pedro Silveira – traz Eu te amo, Sem fantasia e Cálice, canções de Chico Buarque que não faziam parte do roteiro original.

Quando Gota d´água estreou, em dezembro de 1975, Bibi Ferreira e Paulo Pontes estavam à frente do elenco. Ameaçada de censura pela ditadura militar, a peça só foi liberada depois de Pontes negociar cortes. A ousadia dramatúrgica de Chico Buarque e Paulo Pontes está na construção, inteiramente em versos, da narrativa de uma tragédia ocorrida num conjunto habitacional brasileiro.

INOVAÇÕES A adaptação de Medeia entrou para a história das artes cênicas do país tanto por seu conteúdo político naqueles anos de ditadura quanto pelas inovações em forma e conteúdo.

“Ao mesmo tempo em que é rimado, o texto é coloquial. Você pode achar que é cotidiano, mas, ao observar bem, se dá conta de que é todo em métrica. Uma obra-prima”, elogia Laila Garin. Ao longo da carreira, essa baiana demonstrou várias vezes não temer desafios. Foi ela quem encarou o papel da cantora Elis Regina na produção Elis – um só musical, dirigida por Dênis Carvalho. “Conheci o texto pela Bibi, que é uma inspiração para mim. Mas contar a história (de Gota d’água) com dois atores nos obrigou a fazer uma coisa bem diferente. Passamos por outros caminhos”, revela.

Se toda tradução ou adaptação traz implícita uma parcela de traição, o compositor Pedro Luís diz  que abraçou o desafio em busca de originalidade. Traiu com pudor. “Batemos uma bola com a estrutura da peça e fomos encontrando o caminho no processo de leitura”, explica o diretor musical, que ensaiou durante dois meses com o elenco. O viés ficou mais existencial, centrado na relação do casal. Na primeira versão, o tom político era mais forte, lembra o músico carioca, integrante do Monobloco e da banda Pedro Luís e A Parede.

“Felizmente ou infelizmente, os fatos foram atualizando o texto. Gota d´água tem questões atemporais. Quando falamos sobre ambição, isso é do homem, independentemente do tempo”, destaca Laila Garin. Para ela, a nova montagem inova em dois aspectos: na linguagem, por ousar reduzir a trama à narrativa de dois personagens em cenário nada realista, e na temática.

Todos os recursos são absolutamente teatrais – sem referências à TV ou ao cinema. E a questão feminina ganhou relevo na nova versão. “Quando a gente coloca só Joana e Jasão em cena, potencializamos a questão do homem e da mulher, que termina empoderada. Ela não se submete”, conclui Laila Garin.

REPERTÓRIO

>> Gota d’água (Chico Buarque)
>> Caçada (Chico Buarque)
>> Eu te amo (Tom Jobim e Chico Buarque)
>> Flor da idade (Chico Buarque)
>> Baioque (Chico Buarque)
>> Bem querer (Chico Buarque)
>> Você vai me seguir (Ruy Guerra e Chico Buarque)
>> Cálice (Gilberto Gil e Chico Buarque)
>> Mil perdões (Chico Buarque)
>> Basta um dia (Chico Buarque)
>> Sem fantasia (Chico Buarque)
>> Pedaço de mim (Chico Buarque)
>> Mulheres de Atenas (Augusto Boal e Chico Buarque)

GOTA D’ÁGUA (A SECO)
Sesc Palladium. Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro, (31) 3270-8100. Sexta (19) e sábado (20), às 21h; domingo (21), às 19h. Plateia 1: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia). Plateia 2: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia). Plateia 3: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia). Doadores de 1kg de alimento não perecível ganham um ingresso para a plateia 3. Os donativos, entregues na bilheteria, serão encaminhados para a Casa da Criança, instituição de BH. Vendas on-line: www.ingresso.com.

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