Sábato Magaldi deixa obra emblemática para a compreensão do teatro brasileiro

por Estado de Minas 16/07/2016 07:30

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L. C. LEITE/AE
Jornalista, crítico de teatro e ensaísta, o belo-horizontino Sábato Magaldi integrava a Academia Brasileira de Letras (foto: L. C. LEITE/AE)

Considerado o primeiro “jornalista de teatro” da imprensa brasileira, o crítico mineiro Sábato Magaldi, de 89 anos, morreu na quinta-feira, em São Paulo, em decorrência de choque séptico, problemas pulmonares e infecção generalizada. Casado com a escritora Edla Van Steen, ele havia se afastado de suas atividades há alguns anos devido à saúde debilitada.

Integrante da Academia Brasileira de Letras, Sábato era ensaísta, crítico e autor de livros fundamentais para a compreensão do teatro feito no Brasil. Nasceu em Belo Horizonte, em 9 de maio de 1927, formou-se em direito e iniciou a carreira de jornalista ainda muito jovem em Minas. Aos 21 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a assinar críticas no jornal Diário Carioca. Depois, transferiu-se para São Paulo.

Os estudos de Sábato Magaldi sobre a obra de Nelson Rodrigues são incontornáveis para quem tem – e também para quem não tem – planos de encenar peças do autor. É possível arriscar que todas as recentes montagens dos textos de Rodrigues foram guiadas pela divisão formal, em categorias, estabelecida por Magaldi, autor de um ensaio seminal sobre a presença do mito na dramaturgia do autor.

Em seu livro Teatro da obsessão, Magaldi chama a atenção, por exemplo, para a antológica montagem de Eterno retorno (1981) por Antunes Filho e o Grupo Macunaíma, feita sob o impacto da leitura do historiador e mitólogo romeno Mircea Eliade: a emergência de uma nova vida após o caos, o aniquilamento, a destruição do núcleo familiar. Nunca antes, na história do teatro brasileiro, Nelson Rodrigues fora visto dessa maneira, sendo quase sempre reduzido a dramaturgo vulgar, sem vínculos com a tradição teatral erudita.

Pois é justamente a análise de Os sete gatinhos em Teatro da obsessão que estabelece uma conexão inaudita entre Nelson Rodrigues e Édipo Rei, de Sófocles, ao destacar o sacrifício do patriarca – ritualístico, em sua essência – para que a unidade familiar seja preservada. Classificada entre as “tragédias cariocas” do autor por Magaldi, Os sete gatinhos era tratada, antes de Magaldi, como um manual de perversões sexuais. Eram, enfim, desprezados a dimensão psicológica e o conteúdo mítico da peça.

Magaldi dividia o teatro de Nelson Rodrigues em três categorias: peças míticas, psicológicas e tragédias cariocas. Ao prefaciar o Teatro completo de Nelson Rodrigues, o crítico explica que adotou o critério cronológico para facilitar ao leitor a tarefa de entender os procedimentos dramáticos do autor, mostrando como a irrupção no território mítico com Álbum de família (1945) levou Rodrigues a evocar a tragédia grega e mergulhar no inconsciente primitivo.

MARCO ZERO Dois anos antes de Álbum de família, a estreia da polêmica Vestido de noiva (1943), sob a direção de Ziembinski, definiria o marco zero das “peças psicológicas” do autor, segundo a divisão formal de Magaldi. Nela, a fronteira entre a memória e alucinação é tênue, como observa o crítico, o que deu ao dramaturgo a oportunidade de mostrar seu desprezo – ele que era jornalista – pela realidade.

Ao agrupar as tragédias cariocas, talvez o núcleo com as peças mais populares de Rodrigues (A falecida, Boca de Ouro, O beijo no asfalto, Toda nudez será castigada, entre outras), Magaldi escreveu o ensaio definitivo sobre ele, equiparando-o ao teatro de Shakespeare.

O artista da crítica

Em 1955, ao ser eleito para a cadeira de número 24 da Academia Brasileira de Letras (ABL), sucedendo ao escritor mineiro Cyro dos Anjos, Sábato Magaldi afirmou que a opção por seu nome representava a primeira homenagem da ABL aos críticos e historiadores de teatro.

Seus textos nos jornais O Estado de S. Paulo, publicados a partir de 1953, e Jornal da Tarde, a partir de 1966, chamaram a atenção para jovens autores que fizeram história na dramaturgia brasileira. Entre eles estão Plínio Marcos e Leilah Assunção. Em 1988, o mineiro decidiu se aposentar da função de crítico.

Nos anos 1950, Sábato passou a lecionar história do teatro na Escola de Arte Dramática, na capital paulista. Deu aulas na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Defendeu teses emblemáticas sobre Oswald de Andrade e Nelson Rodrigues.

“Sábato Magaldi, como crítico, foi um homem tão vocacionado para o teatro como um artista, um criador”, afirmou a atriz Fernanda Montenegro. “Foi um crítico muito sério, honesto e leal”, elogiou o ator Lima Duarte.

Para a dramaturga Maria Adelaide Amaral, o mineiro “pertence à mais conceituada geração de críticos de teatro, da qual também faziam parte Décio de Almeida Prado, Anatol Rosenfeld e Yan Michalski”.

Ano passado, Edla van Steen falou ao Estado de Minas sobre a paixão do marido. “Ir ao teatro ou assistir a espetáculos, fossem de que ordem fossem, nunca foi profissão. Sempre foi satisfação. Ele se sentia um privilegiado de sair de casa todas as noites e ver alguma coisa”, contou ela, ao lançar o livro Amor ao teatro: Sábato Magaldi.

Sábato Magaldi fez parte da geração de ouro de intelectuais mineiros formada por Hélio Pellegrino (seu primo), Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Jacques do Prado Brandão, Wilson Figueiredo, Francisco Iglesias e Autran Dourado.

(Com informações de Antônio Gonçalves Filho/Estadão Conteúdo)

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