Gabriel Villela traz a BH seu novo espetáculo, 'As rainhas do Orinoco'

Montagem com texto do mexicano Emilio Carballido é protagonizada por Walderez de Barros. Apresentações serão amanhã e domingo no Teatro Bradesco

por Walter Sebastião 15/07/2016 09:06

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João Caldas Filho/Divulgação
(foto: João Caldas Filho/Divulgação)
As rainhas do Orinoco é um show de três grandes atores, daqueles que dá vontade de levar para casa para continuar ouvindo-os contar lorotas”, avisa o diretor Gabriel Villela. Ele se refere a Walderez de Barros, Luciana Carnieli e Dagoberto Feliz, elenco da peça do mexicano Emilio Carballido, que será apresentada em BH, no fim de semana.

Villela lembra que Walderez é uma das grandes damas do teatro brasileiro, mestra do rigor e da dedicação ao ofício. A jovem artista Luciana tem rompantes “que lembram a luminosidade de Marília Pêra”, diz ele. O instrumentista Dagoberto toca bem. E o modo como ele atua, na borda dos acontecimentos, cria forte imagem da morte nos espreitando, elogia o diretor.

“Tenho fascínio por atores. Entrei no teatro devido à admiração por eles. Considero a carreira mais gloriosa que se pode oferecer a um ser humano”, afirma Gabriel Villela. A trama de As rainhas do Orinoco traz as loucuras de Mina e Fifi, atrizes de teatro musical que ganham a vida com shows pela América Latina, viajando em um barco pelo Rio Orinoco, que corta a Venezuela e a Colômbia.

A comédia de tom lírico não apaga circunstâncias dramáticas dessas duas malucas, às voltas com a luta pela sobrevivência. Ele destaca o fluxo de ideias, a dinâmica, a força da linguagem e a capacidade de observar o cidadão comum presentes no texto de Carballido.

Com cores que vão se transformando ao longo do espetáculo, a peça, inspirada na festa dos mortos, traz um retrato da América Latina profunda. “É uma região muito esquecida, que maltrata muito seus filhos, gente simples e de anonimato coletivo. Está no palco a dimensão trágica do esquecimento da cultura latina, abandonada e que vive à deriva neste mundo globalizado”, observa.

A opção pela comédia, protagonizada por atriz conhecida por papéis dramáticos, foi uma provocação de Gabriel  a Walderez de Barros, parceira em vários projetos. “A grande comédia latino-americana, apesar da aparência bagaceira, é intensamente reflexiva”, ressalta o diretor.

Villela continua fiel a elementos que fizeram dele referência do teatro contemporâneo brasileiro, sobretudo ao realismo mágico. “Somos assim”, garante. Tal abordagem é autorizada pelo sol, a mata exuberante, a riqueza cultural e contrastes chocantes. “Como o mundo anda feio, persigo a beleza. Talvez essa seja a viga mestra de todas as artes. Não a beleza burguesa, mas aquela inaugurada pelos deuses gregos na poesia, na literatura... Pelas musas”, diz. Os deuses, lembra, encontraram repouso nas artes. Por isso, ele cultua as forças apolíneas e dionisícacas. “Não tenho como abandonar os traços harmônicos de Apolo e nem como escapar do domínio e do total desequilíbro e da embriaguez de Dionísio.”

Para Gabriel, o olhar desconfiado em relação ao naturalismo, sem perder a verossimilhança com o real, é traço comum a todos os diretores contemporâneos brasileiros. “Somos filhos de Bertolt Brecht. Trabalhamos o princípio da contradição – tese, antítese e síntese. Às vezes por meio do plástico, em outros momentos considerando o social, mas sempre procurando pensar o ser humano no contexto”, explica. A dimensão política é fundamental. “Faz-se teatro de ideias de grande sentido humanista, que gera prazer, pela fruição estética, e também reflexão”, conclui, citando o grupo mineiro Galpão como exemplo.

AS RAINHAS DO ORINOCO
Direção: Gabriel Villela. Com Walderez de Barros, Luciana Carnieli e Dagoberto Feliz. Teatro Bradesco. Rua da Bahia, 2.244, Lourdes, (31) 3516-1360. Amanhã, às 21h, domingo, às 19h. Inteira: R$ 70 (setor 1) e R$ 50 (setor 2). Classificação: 10 anos.

Três perguntas para...

Walderez de Barros
Atriz

Como é trabalhar com Gabriel Villela?


Admiro sua exuberante criatividade, a capacidade de se superar sempre e de surpreender o espectador a cada momento de seus espetáculos. Trabalhar com ele é um encantamento, é viajar pelo mundo mágico dele. Fazer teatro é brincar, acreditar no faz de conta. Um fiozinho de lantejoulas pode se transformar no Rio Orinoco, uma caixa de papelão é um barco. Basta que sejam tratados ritualisticamente. O que ele pede aos atores? Não pensem!

Como é a sua relação com o teatro e a TV?


Minha atividade primordial sempre foi o teatro. Ele me permite exercitar melhor o ofício de atriz, trabalhar em profundidade, me aperfeiçoar, desenvolver meu talento. Só o teatro propicia isso. Mas gosto de trabalhar em televisão também, gosto de qualquer veículo no qual possa exercer meu ofício. Não dá para comparar teatro e televisão, são veículos completamente diferentes. Gosto dos dois. Só não faço mais dois trabalhos ao mesmo tempo, é muito cansativo. Se estou fazendo teatro, não faço televisão.

Depois de mais de 50 anos de atividades, o que se aprende sobre ser atriz?

Aprendemos a lição básica de todo artista: ainda não sabemos nada, ainda temos um infindável aprendizado. Cada trabalho é um começo, a bagagem que carregamos pode ajudar, se for leve. Se for grande e pesada demais, só vai atrapalhar na descoberta de novos caminhos.

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