O dia em que eu caí no palco

Jornalista do EM Cultura descreve a experiência de subir ao palco como parte do elenco de 'para dar um FIM NO JUÍZO de deus', encenada na Virada Cultural pelo Teat(r)o Oficina

por Carolina Braga 11/07/2016 08:23

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Carolina Braga/EM/D.A Press
Bastidores da montagem 'para dar um FIM NO JUÍZO de deus' do Teat(r)o Oficina (foto: Carolina Braga/EM/D.A Press)
No meio do caminho tinha uma máquina de soltar fumaça. Era para ser uma ação bem simples. Entrar em cena, pegar um roupão marrom, uma faixa e o chinelo. Sair calmamente e levar o figurino para outro ponto do teatro. “Se você não fizer isso atrapalha a cena”, alertaram. Claro que não poderia deixar isso acontecer. Era a minha estreia teatral. Custe o que custasse.


Fizeram o sinal e lá fui eu, paramentada como uma das enfermeiras do Teat(r)o Oficina, aparecer na beiradinha do palco para cumprir a importante tarefa que me foi dada. Encarar a plateia é um negócio difícil. E se o roupão embolar? Se o chinelo cair? E se eu cair? Lá estava a máquina de soltar fumaça. Chega de rodeios: no dia em que experimentei ser artista por um dia, caí no palco.

Não foi uma quedinha. Um tombão na coxia. Até então o Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona me derrubava simbolicamente. Admiro a ousadia antropofágica, por mais radical que ela seja. para dar um FIM NO JUÍZO de deus é o encontro de Zé Celso Martinez Corrêa com Antonin Artaud. Nenhum dos dois apareceu no mundo a brinquedo. É um espetáculo político, polêmico. Mas eu não vi a peça.

Desta vez, as camadas de significados me escaparam. Vivi a literalidade do Oficina. Em cena, a bosta, era literalmente, cocô, não qualquer outra representação. Foi o mesmo com todos os outros excrementos que apareceram em cena. Não foram poucos. A experiência radical não foi exatamente teatral.

Quatro horas antes do início do espetáculo, quando subia para me encontrar pela primeira vez com o elenco, me perguntaram o quão empolgada estava com a oportunidade inédita. Tinha medo, mas a curiosidade era maior. Queria conhecer o avesso da cena. Dizem que a bordadeira perfeita é aquela que cuida do lado que fica escondido.

Como será a intimidade de Zé Celso e seus atores? O sentido de ritual será alargado? O quanto haverá de seita, de técnica, de magia naquilo que extrapola o palco? Com esse olhar dividido, me sentei com os “colegas” enfermeiros para saber como seria a minha participação. Era uma reunião de verdade. “Que coragem eles têm”, pensei.

Leandro Couri/EM/D.A Press
(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
“Você vai fazer o mar”, me avisou. Oi? O mar? É, vai pegar uma ponta do tecido azul subir pela plateia dançando e no final dos mais de 1,2 mil lugares do Sesc Palladium recolher a “água”. Fiquei tensa com a parte do “dançando”. Que tipo de dança? “Macumba, meu bem. Solta o corpo.” E que tamanho tem esse mar? “É grande”. Me faltava descobrir o quão enorme seria.

Quando a cena começou, por alguns segundos o oceano pareceu não ter fim. Eu ali, no ritmo da macumba, pensava, mais uma vez, na falta de poesia da literalidade. Como espectadora, talvez teria achado o mar maravilhoso. Mas ele era pesado e custou a secar. Minha próxima missão era segurar uma vela enquanto a camareira vestia um dos atores. Ele fez xixi em um penico improvisado. Cadê a poesia?

Atravessei uma passagem secreta e me posicionei na coxia. “Fique atenta aos meus sinais”, lembrava a recomendação do diretor de cena. Era para ter filmado, fotografado o bastidor, mas não consegui pensar em outra coisa a não ser na retirada do roupão de cena. Pior é que ela foi fatídica. Depois, ainda teria que colocar um cubo de madeira bem no meio do palco. E ele era pesado.

Entre uma cena e outra, surgiu uma orientação de última hora: retirar dois alguidares (vasilhas também usadas na umbanda para fazer oferendas aos santos). Concentrei-me e, na hora em que apareci diante da plateia, outra pessoa já tinha retirado. Ops, meia volta, volver. Já ouvi muitos artistas dizerem o quanto o teatro é vivo. Tive certeza.

O que mais me surpreendeu no avesso do Oficina foi a seriedade. Cada ator tem um modo muito particular de ativar sua energia no palco. É um processo demorado, aparentemente sem espaço para brincadeiras. A relação de liberdade com os corpos não é apenas cênica. Faz parte da natureza daquele coletivo.

Se durante o espetáculo, Zé Celso fica o tempo todo em cena, nos bastidores fica mais recolhido. De vez em quando, aparece no palco, passa orientações técnicas e de direção. É um homem extremamente concentrado. O rosto dele se transforma no momento em que encara a plateia. Não consigo explicar o que vivi. Esta aí outra grande surpresa desta minha experiência. Que força o público tem!

A responsabilidade de receber mais de mil pessoas abalou a leveza da equipe. Havia tensão no ar. “A ansiedade do público é sempre maior do que a nossa”, me ensinaram. A peça começa antes de as pessoas entrarem. Enquanto a sala de espetáculos era incensada, os atores se espalharam ao longo do espaço comprido do Grante Teatro do Sesc Palladium. A banda já tocava e cada um dançava à sua maneira. A macumba estava para começar. Quando as cortinas vermelhas se abriram, correria geral. Um encontro louco começou ali.

Quando tudo terminou, um senhor se aproximou de mim com a mão aberta para me cumprimentar. “Meus parabéns”, disse ele visivelmente impactado pelo que acabou de vivenciar. Envergonhada, agradeci. Fui tomada por certo incômodo. Um dia pensei em ser artista. Cheguei a fazer algumas aulas de teatro, mas, logo no começo, me dei conta de que o meu lugar neste universo não era exatamente no palco. Hoje meu pé dói. No dia em que caí na peça do Zé Celso, tive certeza de que fiz a escolha certa.

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