Grupo Teat(r) Oficina Uzyna Uzona encena peça de Antonin Artaud sobre o juízo final em BH

Depois de seis anos sem se apresentar na cidade, trupe participa da Virada Cultural, no Sesc Palladium, sábado, dia 8, à noite

por Carolina Braga 06/07/2016 12:20

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teatro Oficina/Divulgação
(foto: teatro Oficina/Divulgação)
Ninguém se mantém incólume a uma passagem do Teat(r) Oficina Uzyna Uzona. Por isso, o anúncio do retorno do grupo liderado por Zé Celso Martinez Corrêa a Belo Horizonte, como uma das atrações da Virada Cultural, ouriça a classe artística, em especial as pessoas com ligação mais estreita com o teatro. Independentemente do tema que aborda, o Oficina é sempre adepto das sessões-manifesto.

Confira aqui a programação completa da Virada Cultural

Desta vez, o grupo dedica seu olhar crítico ao juízo final. Obviamente, é cheio de camadas políticas que dialogam com a situação brasileira. A atriz Camila Mota afirma que o momento que o país atravessa desperta na trupe um sentimento de insurreição. “É hora de quebrar certas coisas, mudar paradigmas. É isso que pretendemos”.

Embebidos das palavras do mestre Antonin Artaud (1896-1948), Zé Celso e companhia criaram para dar um FIM DO JUÍZO de deus. A montagem é sui generis na trajetória do grupo. Primeiro, porque tem somente 90 minutos, muito pouco para quem costuma fazer peças de até cinco horas de duração. Depois, porque segue à risca o que foi escrito pelo dramaturgo e pensador.

Artaud estruturou o espetáculo como um programa de rádio. Foi convidado em novembro de 1947 a elaborar quatro blocos do programa A voz do poeta. A peça radiofônica, com participação de Maria Casarès, Paule Thévenin e Roger Blin, além do próprio autor, entrou no ar em fevereiro de 1948. Antonin morreu menos de um mês depois.

“A peça questiona a verdade única das coisas. Com essa polarização política que vivemos, essa maneira como o impeachment foi conduzido, chegamos à conclusão que temos hoje muitas verdades únicas a nossa volta. O texto é muito preciso”, elogia Camila. Além dela e do próprio Zé Celso, estarão em cena Marcelo Drummond, Sergio Siviero, Roderick Himeros, Sylvia Prado, Joana Medeiros, Nash Laila, Daniel Fagundes, Rodrigo Andreoli e Leon Oliveira, mais oito enfermeiros-atuadores.

para dar um FIM DO JUÍZO de deus estreou no repertório do Oficina em 1996, quando foi inaugurado o auditório do Museu de São Paulo (Masp). Esteve em cartaz durante dois anos. “É um texto de uma poesia absurda. Ele já deu espaço para vários sentidos. Então, não é preciso mexer muito”, diz a atriz.

Segundo Camila, a encenação é bem diferente daquela realizada há 20 anos. O ritual chamado por Artaud de Tutuguri, o rito do sol negro, foi aprofundado. É o momento em que o autor – e por tabela os integrantes do Oficina –, questionam a existência de Deus. Como a peça reproduz a divisão em blocos do rádio, há também outras duas partes A busca da fecalidade e A questão se coloca, esta protagonizada pelo próprio Zé Celso Martinez Corrêa.

O decano do teatro brasileiro interpreta Artaud e está em cena o tempo inteiro. Ele incorpora o alucinado. Toca piano, faz a trilha sonora até que, no rito final, assume a palavra. “É um espetáculo que tem uma encenação muito flexível”, diz Camila. Ela informa que todo o espaço do Sesc Palladium, ou seja, palco e plateia serão ocupados. Em uma das cenas, uma grande bandeira é estendida pela plateia. Como a sala é grande, o Oficina já encomendou um remendo. “Vai ficar tipo bandeira do Mineirão”, brinca a atriz.

A última vez que o Teat(r)o Oficina esteve em Belo Horizonte foi no Festival Internacional de Teatro (FIT) de 2010. O banquete, um rito em que Zé Celso homenageia Platão, ocupou o Museu de Arte da Pampulha. A plateia comeu e bebeu com os atores, todos nus cobertos por mantos. No mesmo ano, a turnê Dionisíacas em Viagem passou pela capital. Uma tenda com 2 mil lugares foi montada e ocupada para as apresentações de quatro espetáculos do repertório da companhia, entre eles, o clássico Cacilda!! Estrela brazyleira a vagar, com cinco horas de duração.

O Teat(r)o Oficina foi fundado em 1958. Na década de 1960, encenou obras que revolucionaram a moderna dramaturgia brasileira, tendo como ponto alto O rei da vela (1967), de Oswald de Andrade. A peça foi censurada pela ditadura. Em 1993, o grupo inaugurou o próprio teatro, com projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi. Como as atividades no palco do Bexiga são permanentes, as apresentações em outros estados são raras. Está aí mais um motivo para não perder cada vez que o Oficina aparece na agenda de Belo Horizonte.


APOIO DIRETO
“A gente está vivendo o ano do macaco de todas as formas”, diz a atriz Camila Mota. Segundo ela, o cenário econômico atual faz com que o patrocínio da Petrobrás não seja suficiente para manter todas as atividades mantidas pelo grupo. Por isso, no mês passado, o Oficina lançou uma plataforma de financiamento direto e permanente. Por meio do site www.teatroficina.org, a companhia espera o apoio direto do público. As pessoas podem escolher o débito mensal de valores que vão de R$ 25 a R$ 250. “Não dá para aplicar para a cultura o mesmo padrão do financiamento de obra, de hidrelétrica. Temos que ter a liberdade maior para trabalhar”, afirma Camila.


para dar um FIM DO JUÍZO de deus
Espetáculo com o Teat(r) Oficina. Sábado, às 23h59, no Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1046, Centro) Entrada franca, com retirada de ingressos a partir das 18h.

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