Dan Stulbach se apresenta em BH com a peça "Morte acidental de um anarquista"

Ator é o protagonista da montagem, um homem que pretende ser juiz e possui o dom da farsa

por Carolina Braga 25/06/2016 08:13

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JOÃO CALDAS/DIVULGAÇÃO
Cena da montagem do texto de Dario Fo Morte acidental de um anarquista, que estreia hoje no Palácio das Artes (foto: JOÃO CALDAS/DIVULGAÇÃO )


O que um programa de televisão sobre a história do Brasil pode ter em comum com uma peça escrita pelo italiano Dario Fo, ganhador do prêmio Nobel de literatura? Nada, a não ser um ator cada vez mais consciente de seu papel político. O programa e a peça são duas formas de exercê-lo, seja para contar episódios não tão conhecidos pelos cidadãos sobre a formação de sua própria cultura ou encenar um texto que discute o poder.

Desde que disse não a um contrato com a Rede Globo, Dan Stulbach tem feito escolhas alinhadas com o desejo de experimentar outras possibilidades no teatro, dizer as coisas que pensa no rádio ou em formatos de não ficção na TV. Em parceria com a historiadora Lilia Schwarcz, o seriado Era uma vez… a história do Brasil será exibido pela Band.

No palco, o viés é do humor. Stulbach escolheu o texto escrito por Dario Fo na década de 1970 inspirado no fato real do suicídio de um suposto anarquista nos anos de chumbo da Itália. Em Morte acidental de um anarquista, em cartaz hoje e amanhã no Grande Teatro do Palácio das Artes, ele vive o papel de um louco cuja doença é interpretar pessoas reais.

Dario Fo, hoje com 90 anos, sempre defendeu o riso como o único gênero teatral de oposição. Ele acredita que, rindo, as pessoas acabam se libertando das próprias defesas. O italiano também compartilhava com o alemão Bertolt Brecht o interesse por uma relação direta com a plateia. Stulbach se lembra disso todos os dias de apresentação de Morte acidental de um anarquista.

Quando tinha 19 anos (hoje tem 46), participou de uma palestra de Dario Fo em São Paulo. Faz parte do método do italiano um tête-à-tête com a plateia antes de começar qualquer encenação. “Ele contava a história do espetáculo e dizia que as pessoas precisavam se distanciar do entendimento para acompanhar o trabalho do autor, dos atores”, conta.

AQUECIMENTO

Com direção de Hugo Coelho, a encenação do texto de Fo não começa de maneira tradicional. Enquanto Henrique Stroeter, Marcelo Castro, Riba Carlovich e Maira Chasseraux tocam e cantam, Stulbach “copia” o método do dramaturgo. Ele se aquece na frente do público e conta porque quis montar o texto. “É didático e eu também queria quebrar toda e qualquer ideia de celebridade”.

Quer dizer que a fama o incomoda? Stulbach se diz agradecido às possibilidades que ela lhe trouxe. Ainda assim, acha que o culto às celebridades carrega a reboque “um monte de bobagens”. O ator diz que faz questão de se manter afastado da ilusão gerada por esse tipo de relação mítica. “Não gosto de alimentar (essa percepção). Mantenho a distância do glamour e qualquer coisa nesse sentido. Por isso é importante me colocar como artista.”

Além de protagonizar, ele também produz a montagem, em parceria com Henrique Stroeter. A peça estreou em setembro de 2015 e, por mais que a farsa em torno de um juiz seja a ideia original de Fo, as semelhanças com a realidade brasileira são oportunas, mas pura coincidência.

Morte acidental de um anarquista é uma peça política sem ser partidária. Stulbach nega os rumores de que a iniciativa de levá-la mais uma vez ao palco no Brasil – Antônio Fagundes também fez isso na década de 1980 – teria sido motivada pelos fatos apurados pela operação Lava-Jato. “Não foi nenhuma ação política. Era uma paixão pelo espetáculo, que tem tudo a ver com os dias de hoje.”

“O personagem principal é um louco. O maior sonho dele é ser um juiz. Quando iríamos imaginar que o Brasil saberia o nome de um juiz e que seria tão popular e determinante?”, diz. Depois de uma sessão em Santo André (SP), um espectador filiado ao Partido Comunista Brasileiro se apresentou e agradeceu os artistas por terem reforçado muitas coisas que ele pensa. “Pouco depois dele, apareceu outra pessoa dando parabéns, porque achou que falamos mal do PT. Em seguida, um outro cara disse que a esquerda não está com nada. A força dessa peça está em não fechar o entendimento”, afirma o ator.

Ele diz que interpretar o Louco foi desafiador. Como o sujeito encara diversos personagens para enganar os outros, Stulbach teve que trabalhar bem as mudanças corporais e no tom de voz para informar ao público as diferenças entre um papel e outro. “Não é todo personagem que te permite isso. Faço cinco vozes diferentes. Brinco com a plateia, improviso.”

Stulbach garante que nenhuma fala original da peça foi alterada para se adequar à realidade brasileira. A fidelidade foi digna de elogios do próprio Dario Fo. O italiano chegou a vetar uma montagem americana por terem alterado o final da peça. Na ocasião, disse que “os americanos têm a estúpida mania de colocar um final feliz em tudo”. Já na montagem que chega hoje a BH, segundo Stulbach, ele disse que “não vetaria, mas aplaudiria”.

Novela à vista


Quando estava em Portugal para a gravação da série Era uma vez … a história do Brasil, a ser exibida pela Band, Dan Stulbach se encontrou com Tony Ramos. O encontro despertou em ambos a vontade de remontar Novas diretrizes em tempos de paz, espetáculo que foi divisor de águas na carreira de Stulbach. Tendo ficado em cartaz entre 2002 e 2006, a montagem do texto de Bosco Brasil estrelada pelos dois narra a história da tentativa de um judeu polonês obter um visto para entrar no Brasil.

“Foi uma peça que começou com uma média de público de sete pessoas e terminou com 2,5 mil. Mudou a minha vida”, afirma Stulbach. Vontade de fazer de novo não falta. O problema é encontrar uma brecha nas agendas. Além dos compromissos com o teatro, Dan Stulbach também tem o programa de rádio Fim de expediente e é diretor artístico do Teatro Eva Herz, em São Paulo. Ele ensaia um retorno às novelas. “Tive dois convites. Vou conversar. Não tenho nenhum problema com a televisão. A questão era a dedicação ao longo de dez meses morando no Rio e ter um papel que fosse um desafio.”

Morte acidental de um anarquista
De Dario Fo. Com Dan Stulbach, Henrique Stroeter, Marcelo Castro, Riba Carlovich e Maira Chasseraux. Hoje, às 21h, e amanhã, às 19h. Grande Teatro do Palácio das Artes. Av. Afonso Pena, 1.537 – Centro, (31) 3236-7400. Plateias 1 e 2, R$ 80,50 (inteira) e R$ 40,25 (meia); plateia superior, R$ 57,50 (inteira), R$ 28,75 (meia). Bilheteria do teatro e no site www.ingresso.com.

Dario Fo

Vencedor do prêmio Nobel de literatura em 1997, Dario Fo é escritor, dramaturgo e comediante. É autor de mais de 40 peças teatrais. Morte acidental de um anarquista (1972) está entre as mais conhecidas, junto com Não pagamos? Não pagamos (1974), Toda casa, leito e igreja (1978) e Mistero Buffo (1969). Amante da tradição popular, é conhecido por um teatro bem próximo do público. Seus textos abrem espaço ao improviso, à mistura de dialetos italianos, ao uso de onomatopeias e palavras inventadas. Suas comédias já foram traduzidas para mais de 30 idiomas. O livro Manual mínimo do ator, de sua autoria, é referência para os que se interessam por conhecer técnicas da arte teatral.

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