Luiz Fernando Guimarães apresenta 'O impecável' até domingo no Teatro Bradesco

Ator interpreta oito personagens em monólogo. Especializado em comédias, foi um dos fundadores, nos anos 1970, do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone

por Carolina Braga 17/06/2016 09:14

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.

Guga Melgar/Divulgação
Ator em cena de 'O impecável' (foto: Guga Melgar/Divulgação)
Do alô à despedida, o que o ator Luiz Fernando Guimarães menos faz é falar sobre O impecável em sua entrevista sobre o espetáculo ao Estado de Minas. “Não gosto de ficar vendendo peça”, diz. A montagem estreia hoje e fica em cartaz até domingo no Teatro Bradesco. Guimarães perfere contar sobre as vezes que desembarcou em Belo Horizonte, suas tantas idas ao Inhotim, a admiração que tem pelos mineiros, o vício na internet e até comentar sobre a série Game of thrones.

“Gosto de conversar. Quando chego ao teatro, adoro ficar batendo papo com os camareiros no camarim”, afirma. O papo com ele rola tão solto que Guimarães queria ter um programa no YouTube só para jogar conversa fora. Ele se assusta quando se dá conta de que tem mais de 40 anos de carreira, já que começou aos 25, quase sem querer. Não tem o menor problema em revelar a idade: 66.

Filho de um radialista e uma poeta, Luiz Fernando Guimarães começou no teatro em 1974, na montagem do clássico de Nikolai Gogol O inspetor geral. Naquela década, ao lado de Regina Casé, fundou o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, ícone da contracultura teatral da época. Eram marginais, com estilo de interpretação que valorizava a espontaneidade.

Educação formal em artes cênicas nunca fez parte de seu currículo. A partir do aprendizado nos palcos, conclui que tem um estilo de interpretação matemático e pautado na pontuação. “Ponho vírgula onde é ponto final. Você pode fazer o público chorar, rir, se emocionar ou refletir um pouco mais dependendo do tempo que dá para ele”, avalia. Está seguro de que na comédia funciona assim.

Rede Globo/Divulgação
Com Fernanda Torres na série 'Os normais' (foto: Rede Globo/Divulgação)
“Não entro em cena com o espetáculo pronto. Claro que ensaiei, mas o público é uma referência. É uma coisa sensitiva, sem lógica”, afirma. Ao longo das temporadas, corrige uma coisa aqui, outra ali. Tira as gorduras e depois deixa rolar. O ator diz que gosta de dividir o palco, mas sente igual prazer em estar sozinho. Monólogo, para ele, nunca é solitário, justamente porque tem a troca com o público. Coloca as vírgulas para que os outros continuem o “texto”.

Na gênese da produção de O impecável está um desejo dele de percorrer o Brasil. Queria estar em cantos onde existe um público disposto a ver teatro. “Com a TV, vou atingir qualquer lugar no Brasil, mas não penso em quem vai ver. Olho sempre para mim, sou meu público.” A carreira na Globo começou no final da década de 1990, com a TV pirata. Novela nunca foi seu forte. É mais conhecido pelas participações em séries, como Armação ilimitada e, principalmente, Os normais. Seu Rui é um daqueles papéis eternos.

Nos palcos, a comédia também reinou. Sob a direção de Jorge Fernando, fez Fica comigo esta noite, com Débora Bloch. Regina Casé dirigiu-o no monólogo Castiçais, e um dos maiores sucessos da carreira foi 5xComédia, com direção de Hamilton Vaz Pereira. Foram sete anos em cartaz com a mesma peça.

 

Luiz Fernando Guimarães foge ao padrão convencional de ator. Claro que ele se dedica a treinamentos de corpo e voz, mas condicionamento físico é fundamental para ele. Não corre mais, porque operou o quadril. Faz aula de box e pratica outros esportes. “Fico igual um louco. Ator precisa de energia. Se eu não tiver, não consigo chegar até o final da peça.” Estuda canto e leva a professora para onde vai.

“Quando comecei a fazer teatro, ficava rouco. É horrível isso. Cada um sabe seu limite. Não tem regra. É como corrida, canoagem. Cada um cria o espaço para se relacionar bem com as pessoas”, afirma. Transitar entre teatro e televisão faz parte desse bem-estar. Internet ainda não teve vez na agenda dele. E não por falta de vontade.

Além do programa com conversas aleatórias, também pensou em fazer um quadro com personagens diversos. É o tipo de ator que gosta de se montar, colocar adereço, mudar o visual. São ideias. Por enquanto, é um heavy user da rede. “Fico o dia inteiro. Canso do YouTube, mas gosto de ver o trabalho dos outros. Agora mesmo estou procurando coisas sobre Belo Horizonte. Quero saber o que está acontecendo aí”, conta.

Se todo forasteiro que chega aqui tem interesse por nossa gastronomia, Luiz Fernando Guimarães é fora da curva. “A Claudia Raia fica revoltada comigo. Ela diz que eu como apenas para me alimentar. Não sou gastronômico”, revela. E quanto à bebida? “Parei um pouco. Beber me cansa”. Gosta de se divertir na noite, mas prefere aproveitar o dia.

Embora ainda não as tenha publicado, Luiz Fernando Guimarães escreve crônicas. São fruto do hábito de observar as pessoas. Avalia que é uma coisa boa para o trabalho. “Na hora de construir alguma coisa, você tem um retorno muito rápido.” Também curte televisão. Atualmente, tem passado noites em claro vendo as temporadas passadas de Game of thrones.

“Mas eu vou parar. É muito sangue, muito rapto de criancinha, não consigo dormir. Mas é uma coisa muito boa. Tudo é jogo de poder, né? As atuações beiram o drama e o humor, mas essa coisa de matar não dá. Os bons morrem logo. Fico com ódio”, diz.

A conversa passa dos 30 minutos e até aqui muito pouco sobre O impecável, monólogo no qual ele interpreta oito personagens. “Gosto de vender nossa conversa. Se a pessoa acha boa, vai. Ninguém vai pela peça. Se a pessoa pensa ‘quero ver aquele cara’, acho mais interessante.”

 

PECADOS - Luiz Fernando Guimarães conheceu a dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho quando fez o musical Como vencer na vida sem fazer força. Como a troca artística foi legal, pediu à dupla material para uma nova peça. O ator queria rodar o Brasil com teatro. Recebeu um conjunto de textos, com vários personagens baseados nos pecados capitais. Com a ajuda do diretor Marcus Alvisi, juntou as oito figuras num salão de beleza em Copacabana, Impecável Beauty.

A montagem não tem nenhum artifício para distrair a atenção do público. É Luiz Fernando Guimarães, um secador de cabelos e a acidez que marca a comédia dele. “Nunca fiz humor bonzinho. A realidade é sempre conflituosa”, avalia. O impecável pega em várias feridas da sociedade do politicamente correto. “Não acho política uma coisa gozada de se falar. A peça tem mais a ver com as atitudes. O politicamente correto tem a ver com nossos infernos.”

Sem muitos elementos em cena, Guimarães diz que, entre um personagem e outro, não muda da água para o vinho. Espera atenção do público. Pego uma frase de um personagem e faço a transição. Não é uma coisa tão correta, precisa. Não é uma dança.” Diz que faz o espetáculo em uma hora e cinco minutos, como se fosse uma Olimpíada. “Olho a plateia e penso: vamos ver o que vai acontecer hoje.”

 

O IMPECÁVEL
Sexta e sábado, às 21h; domingo, às 20h. Teatro Bradesco. Rua da Bahia, 2.244, (31) 3516-1360. Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia).

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE TEATRO