Denise Fraga protagoniza 'Galileu Galilei', peça que explora contradições humanas com humor

Em cartaz hoje e amanhã no Teatro Sesiminas, montagem é baseada em texto de Bertolt Brecht

por Carolina Braga 03/06/2016 10:59

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João Caldas/Divulgação
(foto: João Caldas/Divulgação)
Denise Fraga gosta de receber o público para seus espetáculos no foyer do teatro. Caso alguém não entenda e arrisque pedir uma foto, a atriz tem calma. Às vezes, gasta até mais tempo explicando por que não é hora da selfie do que propriamente fazendo o clique. “Estamos todos começando um ritual poderosíssimo chamado teatro: é um ato de presença ao vivo.” É sério e bastante caro para ela.

Galileu Galilei, montagem que a atriz apresenta hoje e amanhã no Teatro Sesiminas, acompanhada de grande elenco, reforça a admiração que nutre pela dramaturgia do alemão Bertolt Brecht (1898-1956). É o segundo texto dele que leva à cena. O primeiro foi A alma boa de Setsuan, que reuniu público de cerca de 200 mil espectadores em dois anos e meio em cartaz.

Galileu é fruto de Alma boa. Foi durante as leituras do primeiro espetáculo que Denise conheceu o derradeiro texto de Brecht. O autor fez três versões da biografia do cientista que afirmou que a Terra gira em torno do Sol. Morreu enquanto dirigia o espetáculo com o grupo Berliner Ensemble, em agosto de 1956, antes da estreia em Berlim. A atriz, claro, conhecia a dramaturgia de Brecht dos tempos de escola de artes cênicas, mas ainda não tinha se atentado para o quão popular – e engraçado– são os escritos do autor de Mãe coragem e seus filhos.

“Tenho quase uma fixação com a ideia de que o humor é o maior veículo de comunicação que existe”, comenta. Brecht também pensava assim. Defendia a máxima “divertir para comunicar”. É autor do tipo que gosta de encantar o espectador tal qual o flautista de Hamelin para logo dar uma flechada de reflexão. “Coloca uma tachinha na cadeira do espectador. Não define, não fecha a ideia, não faz um discurso puro e simplesmente. Dá ferramentas para que pense.”

O espetáculo se passa na Itália do século 17. Galileu (1564-1642) acabara de comprovar a doutrina de Copérnico de que o Sol seria o centro do Universo e a Terra se moveria ao redor dele. Mas a descoberta contrariava os preceitos da Igreja. Galileu foi perseguido pela Inquisição e obrigado a negar publicamente seus estudos.

Ao contar essa história, o dramaturgo fala muito de si e também do ser humano. Seja o que for, parece que o homem não tem saída a não ser fazer concessões. “Fala de como estamos encalacrados em contradições”, acrescenta a atriz. Isso significa aceitar condições adversas para manter um relacionamento amoroso, um emprego e até mesmo evitar o conflito para defender suas convicções.

A montagem mais emblemática de Galileu Galilei no Brasil é de 1968. Zé Celso Martinez Corrêa e seu Teatro Oficina contaram essa história em plena ditadura. Cada palavra dita no texto tinha significado pertinente também fora do teatro. Mesmo que o cenário de 2016 seja diferente, é curioso observar como as frases ditas em cena ganham relevância nas ruas. É desta peça, por exemplo, a expressão “infeliz é o país que precisa de heróis”.

“Mais que atual, hoje é propícia. Nos ajuda a entender várias coisas, entre elas se somos todos Galileus. Fomos acostumados a ceder, nos vender minimamente para inúmeras fogueiras cotidianas. Para quantas obviedades absurdas a gente faz cara de paisagem?”, questiona Denise Fraga.

POLÍTICA Mesmo se tratando de um texto escrito entre 1937 e 1943, a nova versão brasileira de Galileu Galilei tem espaço para política e o improviso. Depois da votação da abertura do processo de impeachment na Câmara dos Deputados, a diretora Cibele Forjaz incluiu uma nova cena na montagem. Há também espaço para um panelaço. A encenadora paulista, diretora da Cia. Livre de Teatro, é adepta do estilo “brechtiano” de interpretação. A todo momento, atores e personagens se misturam. Faz com que o público perceba a construção poética da obra.

Galileu Galilei é quase uma comédia musical. A trilha sonora de Lincoln Antônio e Théo Werneck tanto reinventa músicas originais de Hanns Eisler para a obra original de Brecht como inclui sons inéditos. O cenário, assinado Márcio Medina, faz com que os atores fiquem bem próximos da plateia.

Se fosse seguir à risca o texto de Brecht, a montagem teria quatro horas de duração. A versão de Denise Fraga e Cibele Forjaz está com duas horas e 20 minutos. “Eu confiava no poder dessa peça, mas estou besta. Era para ter gente saindo no meio, mas ninguém sai”, diz. Ou seja, é com conhecimento de causa que a atriz defende a ideia de que é balela a máxima de que o público não quer pensar.

Embora fã confessa, Denise não vê em Brecht um libelo sobre o que se deve fazer. É um autor que estimula o pensamento. “Estamos nos policiando a respeito de nossa capacidade de abrir o raciocínio”. Como a intérprete astuta que é, gosta de prestar atenção à reação das pessoas. Diz que é comum ter gente dormindo nas apresentações teatrais. No caso de Galileu Galilei, tem se surpreendido com a reação. “Depois de eu falar algumas coisas, tem um balançar de cabeças como se fosse uma coreografia”, conta. Bingo.

Galileu Galilei
Texto de Bertolt Brecht. Direção de Cibele Forjaz. Com Denise Fraga.
Hoje, às 21h;  domingo, às 19h. Teatro Sesiminas – Rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia, (31) 3241-7181. Ingressos: R$ 70 (inteira)
e R$ 35 (meia).

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