Maria Alice Vergueiro apresenta 'Why the horse?', peça que trata do delicado diálogo entre a vida e a morte

Humor e melancolia marcam o texto, inspirado na experiência pessoal da atriz. Espetáculo está em cartaz no Sesc Palladium

por Luiz Fernando Motta 02/06/2016 10:30
Vivian Maia/divulgação
Vivian Maia/divulgação (foto: Vivian Maia/divulgação)
Aos 81 anos, a atriz, professora e pedagoga Maria Alice Vergueiro enfrenta o mal de Par- kinson e precisa de cadeira de rodas para se locomover. Isso não é páreo para ela. A lucidez dessa artista se traduz em tamanha verve poética e senso de humor que ela encena a própria morte. Há dois anos, durante cirurgia para receber um aparelho semelhante ao marca-passo cardíaco, ela se viu vítima de infecção hospitalar e precisou ficar internada por três meses. Dessa experiência resultou o roteiro da peça Why the horse?, em cartaz no Sesc Palladium, em Belo Horizonte. Entre o deboche e a melancolia, Maria Alice simula o próprio velório no palco.

“Falamos sobre a morte, despertando no espectador o que ele quiser. Pode causar tristeza. Pode ter ponto de identificação ligada ao humor. De nossa parte, abrimos um leque de possibilidades”, explica o ator Luciano Chirolli, de 54 anos. Integrante do Grupo Pândega de Teatro, ele acompanhou todo o tratamento hospitalar da amiga. “Inicialmente, pensávamos em uma peça para ela apenas dirigir, e não atuar. A temática central já seria a morte, queríamos fazer uma adaptação de Malone morre, de Samuel Beckett. No entanto, com toda aquela situação, percebemos que Malone poderia ser ela”, conta.

Uma bactéria se alojou na prótese que Maria Alice tem no joelho, obrigando-a a ficar internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Chirolli ia visitá-la e, diariamente, ouvia a colega falar sobre a morte de algum paciente. “Certa vez, ela contou que o homem que estava à direita havia falecido. Depois, o colega da esquerda também já havia partido. Maria Alice lidou muito de perto com a morte. Daí veio a ideia: e se eu não sair mais daqui?”, relembra.

Luciano Chirolli avisa: Maria Alice Vergueiro não tem a mínima vontade de morrer. “Ela sempre brinca: se tiver que ser, que seja no palco. Seria a glória para ela e a tristeza para nós”, diz o ator. A dupla leva para a cena 28 anos de parceria. “Contamos a história de dois artistas que se encontram e resolvem criar até o último dia de vida. Estou sempre cantando, mais para ela do que para o público. Demonstro a minha indignação sobre a falta que ela fará na minha vida”, explica Luciano.

Maria Alice Vergueiro é a homenageada desta edição do projeto Palco giratório, desenvolvido pelo Sesc. Why the horse tem música, dança e poesia. Além de Chirolli, o elenco conta com Carolina Splendore, Alexandre Magno e Robson Catalunha. A dramaturgia é assinada por Fábio Furtado.

ADEREÇO

O nome do espetáculo surgiu de uma situação presenciada por Luciano Chirolli na casa de Maria Alice. Em 2005, a atriz comprou um adereço em forma de cavalo para a peça Matamoros, adaptação do texto de Hilda Hilst. A diretora não gostou do objeto e a atriz o guardou. “A mãe dela, que devia ter uns 96 anos, sempre convidava as amigas para tomar chá. Certa vez, passou pela sala, viu o adereço e perguntou: ‘Maria Alice, por que o cavalo?’. Depois disso, passamos a usar a expressão para tudo que não conseguíamos explicar”, revela Luciano, dizendo que o fato reforça o caráter nonsense do espetáculo.

A PANTERA

Ícone dos palcos brasileiros e integrante dos grupos Oficina e Ornitorrinco, Maria Alice Vergueiro foi descoberta pelo público jovem em 2006, ao participar do curta-metragem Tapa na pantera. Ela fazia o papel da senhora que fuma maconha há 30 anos, mas garante que nunca se viciou. “É engraçado. Em muitos lugares, Maria Alice é reverenciada em cena aberta. Em outros, percebemos um público mais jovem e sabemos que ele está ali por causa do Tapa na pantera. Isso nunca a incomodou e ela sempre brinca: ‘Antes tarde do que nunca’”, conta  Luciano Chirolli. O vídeo ultrapassou 6 milhões de visualizações no YouTube.

PALCO GIRATÓRIO

Hoje e amanhã, às 21h: Why the horse? (Por que o cavalo?), com Grupo Pândega e Maria Alice Vergueiro. Sábado, às 20h: Adaptação, com Teatro de Açúcar. Domingo, às 11h: A casatória c’a defunta, com Cia. Pão Doce de Teatro; e às 19h: A projetista, com Dudude. Sesc Palladium. Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro, (31) 3214-5350. Entrada franca.

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