Com edição mais enxuta e modesta, FIT-BH consegue boa resposta do público

Evento, que terminou no último domingo, 29, demonstrou que sua curadoria acertou os ponteiros ao aprimorar a relação com a cidade

por Carolina Braga 30/05/2016 08:53

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Alexandre Guzanshe/FIT/Divulgação
(foto: Alexandre Guzanshe/FIT/Divulgação)
Reencontro. A palavra foi chave para o 13º Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte (FIT-BH). O festival, que ocupou a cidade entre 22 e 29 de maio, deu sinais de que é urgente se reconciliar com o próprio passado. Várias tribos reunidas, abertas para o que poderia ser oferecido. Foi assim que, fazendo valer o tema geral desta edição, o FIT foi menor, porém, resiliente.

Na grade principal, composta por 19 espetáculos de palco e seis de rua, nenhuma das atrações foi unanimidade. Não houve uma peça extraordinária, daquelas capazes de desnortear espectadores, especializados ou não. Mas a maior parte ofereceu olhares diferenciados, seja na abordagem do texto, na ocupação do espaço ou mesmo na estética escolhida. Até nas provocações. O FIT foi, sim, modesto, mas indicou a possibilidade de reencontrar sua relevância para a cidade. Sabe quando o menos é mais?

Na avaliação de Jefferson da Fonseca Coutinho, diretor de artes cênicas da Fundação Municipal de Cultura e coordenador do festival, a história do evento demonstrou que, embora o FIT tenha tido seus momentos grandiosos, nem sempre os resultados foram satisfatórios na mesma proporção. A solução não era simplesmente aumentar. “O FIT nos ensina muito a cada edição. De fato, é um recorte. Precisamos ter cuidado para que esse gigantismo não se transforme em uma assombração”, afirma.

Nem todas as salas de espetáculos ficaram abarrotadas. Nos palcos, as atrizes ucranianas de Dakh Daughters Band e nas ruas Con su permiso, do palhaço chileno Tuga, foram campeões no burburinho positivo. Ambas montagens confirmam o compromisso do FIT em se reencontrar dentro de novas linguagens. Curiosamente, as performances foram as que falaram mais alto em toda a programação.

Dakh é um show punk, com uma forte pegada política, feminista e de denúncia social. É ultra-performático. Con su permiso é um solo de palhaço. Simples assim. Quem diria que um clown faria tanto sucesso dentro de uma programação de um festival com o FIT? Pois o chileno Tuga provocou as plateias e até quem passou de carro perto de onde ele se apresentava. À maneira dele, tinha muito o que dizer.

Bastante aguardado, The gospel according to Jesus, queen of heaven, o monólogo da atriz escocessa Jo Clifford, pode não ter alcançado a potência esperada, mas, sem dúvida, apresentou um discurso religioso dissonante, e urgente. Na peça, Jesus é um transexual que vive nos dias de hoje. A apresentação dentro da sala das colunas no Museu Mineiro também honrou a arte da performance.

O mesmo vale para o francês Mary’s baby – Frankenstein 2018 – bastante apoiado na força que a projeção pôde garantir a uma encenação – e Kassandra, montagem da La Vaca Cia. de Artes Cênicas, de Florianópolis. A atriz Milena Moraes apresenta seu solo de inspiração grega dentro de uma boate de strip-tease. Se o texto não tem tanta força, a atuação dela e a forte relação que estabelece com a plateia merecem destaque.

O grupo do Sul foi, aliás, tema de controvérsia. A comédia Uz, apresentada no primeiro fim de semana, gerou na mesma medida revolta e diversão. O mesmo vale para o recital italiano Toledo suíte, da Compagnia Teatrale Enzo Moscato, totalmente dissonante do restante da grade.

Entre as montagens com dramaturgia mais convencional, um dos destaques foi certamente a menos vista. Privilégio para poucos. A elogiada montagem argentina Mi hijo solo camina um pouco mais lento, do Colectivo de Investigación Apacheta Argentina, foi apresentada em apenas uma data. Foram somente duas sessões na terça-feira. Segundo Jefferson da Fonseca Coutinho, esta foi uma das últimas peças a entrar na programação.

A peça incluída a toque de caixa revela o calo do FIT. O festival, que é tão caro à cidade, precisa ter estabilidade garantida de alguma forma. Só assim a programação poderá ser definida com a antecedência necessária. “A gente precisa resolver isso. Não dá para ficar fechando a agenda de um festival dessa importância um mês antes”, desabafa Jefferson.

O perfil das atrações escolhidas para a 13ª edição confirmou a máxima de que, para ser original, é preciso voltar às origens. Em tamanho, o FIT deu um passo atrás. A torcida é que seja um recuo em busca de impulso em direção ao resgate da própria originalidade.

Abertura ao diálogo

Para o diretor de artes cênicas da Fundação Municipal de Cultura, Jefferson da Fonseca Coutinho, o FIT-BH 2016 deixou evidente a importância de um diálogo mais amplo com a pluralidade artística da cidade. “O que fica mais forte é que o FIT é potencialmente uma plataforma de encontros. Lamento por quem ainda não compreendeu isso”, resume.

Para além das apresentações em palcos e ruas, as atividades paralelas demonstraram mais força. O Quintal do FIT, montado nas imediações do Teatro Francisco Nunes; a Gaymada, realizada dentro do Parque Municipal; e o encerramento com atividades no Viaduto Santa Tereza reforçaram o desejo do público de se apropriar da cidade de diferentes formas.

Outra iniciativa inédita que chamou a atenção foi a mostra com os espetáculos produzidos por alunos das seis escolas de artes cênicas de Belo Horizonte. “O FIT precisa dialogar, ficar atento a esse crescimento. As coisas estão acontecendo no tamanho que tem que ser”, afirma Jefferson.

Dada a boa repercussão da mostra das escolas, Dayse Belico, uma das curadoras desta edição do festival e coordenadora do Teatro Francisco Nunes, anuncia que o espaço para a escola será permanente naquele palco. Todos os meses, entre julho e novembro, as seis escolas terão a disposição uma data para ocupação do teatro municipal.

POLÊMICAS
O FIT não seria o mesmo se não viesse com polêmicas. A primeira que marcou a edição 2016 foi o desligamento dos curadores Diego Bagagal e Eduardo Moreira, que não encontraram diálogo com a antiga diretoria da FMC. Assim que a nova gestão assumiu, em janeiro, Jefferson garante que o primeiro passo foi retomar a conversa e o entendimento de que a curadoria vai além da entrega de uma grade de espetáculos.

Em seguida, começaram os protestos. Os artistas negros levantaram a voz por não se sentirem representados na programação. A FMC reconheceu. Houve também um manifesto de integrantes da classe teatral, contra a decisão da direção de eliminar o chamamento público para os espetáculos locais que se interessassem em se apresentar.

Uma equipe de curadores foi escolhida por indicação das entidades representativas, Movimento Teatro de Grupo, Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas (Sinparc) e o Sinticato dos Atores e Técnicos em Artes Cênicas (Sated). “Percebo que, de alguma forma, as pessoas que não se veem na grade, negam e não compreendem o festival como sendo de todos”, diz Jefferson.


CONTRATEMPOS
A atriz e dramaturga escocessa Jo Clifford foi a responsável pelo maior susto dos bastidores do FIT 2016. Ela passou mal no início da última apresentação do monólogo The gospel according to Jesus, queen of heaven. Teve uma séria alta de pressão que lhe custou alguns dias no hospital. Outro contratempo foi durante a apresentação do espetáculo de rua Les Girafes, Operétte Animalière. A atriz Caroline Forestier despencou de uma altura de dois metros e meio de altura. Ela foi atendida no Hospital João XXIII e logo foi liberada.

PARCERIA ECUM
Durante o FIT-BH, também foi anunciado o retorno do Encontro Mundial de Artes Cênicas (Ecum) para Belo Horizonte. O evento será realizado em ano alternado ao festival na capital mineira. Desde 2011, o Ecum realiza suas atividades em São Paulo. É conhecido por estimular debates que contribuem para a formação dos artistas. Há dois anos, realiza a Mostra Internacional de Teatro (MIT), que guarda muitas semelhanças com o olhar curatorial que caracterizou o FIT nos anos 1990. A ideia é que, assim como as atividades educacionais, os espetáculos também façam parada em Minas. Os termos do acordo ainda serão formalizados em um convênio.

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