Atriz Jo Clifford passa mal e aborta apresentação de monólogo

Em 'The gospel according to Jesus, queen of heaven' ('O evangelho segundo Jesus, rainha do céu') ela interpreta Jesus transexual

por Carolina Braga 24/05/2016 09:29

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Guto Muniz / FIT-BH
Jo Clifford teve uma alta de pressão no final da última apresentação de 'The gospel according to Jesus' (foto: Guto Muniz / FIT-BH)
A atriz Jo Clifford passou mal no início da apresentação da peça The gospel according to Jesus, queen of heaven (O evangelho segundo Jesus, rainha do céu) desta segunda. Ela teve uma alta de pressão e a sessão precisou ser cancelada. A montagem foi uma das atrações mais aguardadas desta edição do FIT-BH. Os ingressos se esgotaram rapidamente, mas a expectativa não é algo que combina com o trabalho da atriz escocesa. A ideia é simples demais para esperar qualquer grandiosidade.

 

Como a proposta é ousada – transformar Jesus Cristo em uma transexual que vive em 2016 –, idealizações são tão prejudiciais quanto inevitáveis. A realização é bastante simplória. The gospel... narra histórias conhecidas da Bíblia adaptadas para situações que envolvem preconceito e violência de gênero. O espetáculo pode ser dividido em seis partes, que formam uma espécie de missa pagã, inclusive com o ritual de repartir o pão.


A atriz abre a cerimônia com um sermão, no qual defende a ideia de que, embora ausente explicitamente da Bíblia, a experiência de homossexuais, transexuais, travestis, prostitutas, bichas e lésbicas de alguma forma foi suprimida do livro sagrado.


“Nunca disse: cuidado com os homossexuais, transexuais e gays por levarmos vidas antinaturais ou por sermos depravadas em nossos desejos. Eu nunca disse isso. Eu disse: cuidado com os autoindulgentes e os hipócritas, cuidado com aqueles que se imaginam virtuosos e proferem julgamento, aqueles que condenam os outros e se consideram bons. Seus lábios são cheios de bondade, mas seus corações estão plenos de ódio”, afirma a personagem.


PARÁBOLAS


Jo Clifford visita, à sua maneira, passagens presentes no livro de Genesis, fragmentos dos evangelhos segundo Lucas e João. Parábolas como a do filho perdido e das bodas de Caná aparecem tendo como protagonistas pessoas cuja identidade não se enquadra o padrão heteronormativo. “Mas eu te digo: abençoada sejas se as pessoas abusam de você ou te perseguem, pois isso significa que você está trazendo a mudança. E abençoados sejam aqueles que te perseguem também, pois o ódio é o único talento que têm, e não vale nada. E vão perder o pouco que têm. Pois apesar do que eles possam dizer ou fazer, a mudança está chegando, e um dia o mundo será livre”, diz Jo.


Aqueles que conhecem a Bíblia certamente desfrutam mais as alterações do discurso promovidas pela dramaturga. Quem nunca teve contato profundo com os textos se vê dividido em prestar atenção na narrativa, na tradução, na movimentação da atriz em cena. Por vezes, esse espectador se cansa. Aliás, sensação que as missas também podem causar.


Embora ocupando um espaço alternativo – a bela Sala das Colunas, no Museu Mineiro, local repleto de imagens e elementos sacros –, The gospel according to Jesus não usa elementos cênicos tradicionais. A iluminação ganha o reforço do público, que recebe pequenas velas para auxiliar na cena. Fora isso, utiliza-se a luz convencional do cômodo. Tampouco há trilha sonora ou qualquer outra interferência. As alterações de som são feitas pela própria atriz.


Jo Clifford varia apenas o timbre de voz. Ela aparece com um longo vestido creme e um tênis All Star de cano alto, vermelho. Dissonância que também reforça a mensagem da peça. Não se trata de espetacularizar o discurso bíblico. Apenas de marcar as diferenças. Ou melhor, as ausências. O resultado não chega a ser arrebatador. Como um Cristo transexual, ao contar as mesmas histórias com outros personagens, a atriz ressalta a incoerência do discurso religioso atual, marcado por intolerância. Jesus, a rainha do céu, é, de fato, sábia, misericordiosa e incapaz de qualquer tipo de preconceito.

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